Sem líderes e com ideias claras: Conheça a Geração Z que protesta no México
Movimento convocou protestos contra o aumento da violência e o governo de Claudia Sheinbaum

Várias contas nas redes sociais com o mesmo nome, a imagem da bandeira pirata do mangá “One Piece” e tensões com o governo da presidente Claudia Sheinbaum cercam o movimento dos jovens da Geração Z no México. Sem lideranças claras, há algo que os une: a exigência de mais segurança no México e o repúdio à corrupção política. E eles querem ser ouvidos.
“Há muito desconforto social. Muitas coisas não estão agradando aos jovens da forma como estão sendo feitas”, diz à CNN Iván “Mero Perro”. Ele pede para proteger seu nome por medo de retaliação e usa esse pseudônimo, o de seu usuário no Discord. É pela plataforma de mensagens em grupo, muito usada por gamers e streamers, que este movimento de jovens — com idades entre 18 e 35 anos — se comunica e compartilha suas ideias.
As imagens do mangá "One Piece", uma caveira com chapéu de palha, se tornaram símbolo de mobilizações antigovernamentais em países como o Nepal — que levaram à renúncia do primeiro-ministro — e também na França e na Indonésia, como um símbolo de luta contra a opressão e por liberdade.
Esses protestos chegaram à América Latina, ganhando força no Peru, Paraguai e México, inspirados nas manifestações no Nepal, onde jovens organizaram grandes protestos contra a classe política por causa da corrupção.
Divisões e reivindicações em comum
Iván vive no estado de Puebla, na região central do México. Tem 29 anos e é porta-voz do grupo. Diz que não há líderes e que buscam ser um grupo "descentralizado", onde nada dependa de uma única pessoa. Ele se juntou às conversas com outros jovens no início de outubro, após a criação do primeiro servidor de Discord da Geração Z.
“Passamos de 1.000 usuários para 50.000 em uma semana”, diz uma jovem que faz parte da organização e, por medo, pediu para não divulgar seu nome. Ela chegou ao primeiro servidor no meio de outubro, quando o movimento começava a ganhar popularidade.
O ponto de virada para esses jovens do México foi o assassinato de Carlos Manzo, prefeito do município de Uruapan, morto no dia 1º de novembro. “Estávamos conversando no servidor quando ele morreu. Foi muito chocante. Aquilo foi a gota d'água que nos fez pensar ‘precisamos agir agora’”, diz Iván.
Poucos dias depois, no início de novembro, houve uma divisão. Jovens que conversaram com a CNN afirmam que cresceram as suspeitas de que, entre os usuários do primeiro servidor do Discord, onde se reuniam milhares de pessoas, havia possíveis ligações com um partido político de oposição ao governo de Sheinbaum, o Partido Revolucionário Institucional (PRI).
A CNN consultou o PRI sobre o assunto e aguarda resposta.
Na plataforma, os jovens dizem que havia pessoas infiltradas com outros interesses. “O problema é que havia muitos políticos. Mesmo que a gente tentasse fazer as coisas de forma genuína, por medo precisávamos agir anonimamente. E para os políticos, isso é uma oportunidade de se aproveitar, por ser anônimo”, diz a jovem sobre o que causou a divisão.
O servidor foi excluído, criaram um novo grupo em outro servidor no Discord e se distanciaram da primeira organização, pois ela comprometia o que eles consideram ser um movimento orgânico e cidadão, que não busca ter partidos ou ideologias. Atualmente, esse servidor tem mais de 2.000 membros e nas reuniões semanais, cerca de 300 pessoas participam regularmente.
Após essa separação, começaram a surgir outras agrupações em diferentes estados do México com as quais entraram em contato e se encontram semanalmente na plataforma.
As duas vertentes da Geração Z participaram da marcha de 15 de novembro na Cidade do México e em outras cidades do país. Na convocatória, além de jovens, havia pessoas de diferentes idades, e a manifestação se transformou em um protesto contra o governo de Sheinbaum, com a insegurança, a corrupção e o assassinato de Manzo como os principais pontos de reclamação.
Após o conflito sobre as supostas ligações com a política, os jovens do segundo grupo não convocaram a manifestação de 20 de novembro, ao contrário do primeiro grupo, que agora se identifica com o usuário @generacionz_mx no X (antigo Twitter). A CNN tentou entrar em contato com esse usuário, mas não obteve resposta.

"Não basta reclamar nas redes sociais"
Além das divisões e das diferenças que fizeram o movimento se fragmentar, há algo que se repete em muitas das reclamações e parece tomar forma.
“Estamos fartos da farsa: da corrupção disfarçada de progresso, do poder corrompido que se disfarça de democracia, da violência que nos rouba o futuro, e do cinismo de quem muda de bandeira para continuar saqueando o país”, diz um dos manifestos da Geração Z México.
Assim como muitos outros jovens no México, Iván rejeita as divisões partidárias “entre esquerda e direita, socialistas e libertários”. Ele diz que o foco da Geração Z é outro: “Entendemos que esse debate é muito cansativo e provavelmente não vai levar a uma solução. Nós focamos em problemas e questões concretas.”
Três poderiam ser os temas principais que os impulsionam: a crise de segurança no México, o pedido de responsabilidade da classe política pela corrupção e a necessidade de serem ouvidos. Eles querem que suas ideias e demandas, o que os preocupa, ajudem a encontrar soluções.
“Queremos uma mudança genuína”, afirma a jovem que pediu para proteger seu nome. Ela conta que toda semana participam de reuniões no Discord, nas quais também estão presentes representantes da Geração Z de diferentes estados do país. Lá, falam sobre “as deficiências de cada estado e suas cidades”, diz ela.
“Não buscamos confronto, buscamos participação”, afirma Alex Murillo, de 31 anos. Ele cresceu em Chetumal, Quintana Roo, na Península de Yucatán. Conta à CNN que, nos últimos anos, viu como Chetumal passou de ser uma cidade segura e tranquila para se tornar “um lugar onde há sequestros, assassinatos e uma sensação constante de vulnerabilidade”.
Até outubro de 2025, o estado de Quintana Roo registrou 253 homicídios dolosos, segundo dados oficiais do Secretariado Executivo do Sistema Nacional de Segurança Pública.
A razão que convoca o movimento da Geração Z, afirma, é que, em muitos casos, são jovens que sentiram o medo da insegurança no México, um país que atravessa uma crise de segurança devido à violência e ao crime, de acordo com fontes oficiais e especialistas.
Os dados do Sistema Nacional de Segurança Pública (SESNSP) publicados em outubro mostram que, nos primeiros 12 meses do governo de Sheinbaum, houve menos homicídios do que nos primeiros 12 meses da presidência de Andrés Manuel López Obrador (2018-2024). Mas outras estatísticas oficiais e especialistas em segurança consultados pela CNN indicam que a violência no México se mantém em níveis elevados e se manifesta de várias formas.
Até as próprias cifras do SESNSP mostram que a diminuição não foi uniforme em todo o México, com estados onde a violência aumentou consideravelmente, como a CNN reportou.
Seis de cada dez mexicanos afirmaram se sentir inseguros na cidade onde vivem, de acordo com a Pesquisa Nacional de Segurança Pública Urbana do Instituto Nacional de Estatística e Geografia do México (Inegi), publicada no mês passado.
“A segurança nunca está garantida se a população não participar e se as autoridades não responderem com clareza e firmeza”, diz Murillo, que afirma que é a primeira vez que se envolve com um movimento desse tipo. “Eu me juntei porque senti que já não basta reclamar nas redes sociais.”
Para Iván, o fato de estar dialogando com outros jovens que compartilham as mesmas inquietações é mais do que suficiente para continuar vinculado ao movimento. “O fato de estarmos construindo essas pontes dá esperança para o futuro”, afirma.
Vínculos políticos e críticas a Sheinbaum
No dia 13 de novembro, dois dias antes da primeira mobilização, o assunto chegou à coletiva de imprensa matutina da presidente Claudia Sheinbaum.
Miguel Ángel Elorza, coordenador da Infodemia — uma iniciativa do governo contra as notícias falsas — disse que, por trás da convocatória, foram detectados “bots estrangeiros”, contas que apoiaram a oposição e mencionou “diversos perfis com vínculos empresariais e midiáticos que impulsionam narrativas” contra o governo.
“Muitos não têm nada a ver com a Geração Z, nada a ver, mas sim é um impulso promovido até de fora contra o governo”, disse Sheinbaum.
“Se há jovens com demandas, acho ótimo que se manifestem (…) Pode haver pessoas, e este é um país livre, democrático, que não concordem conosco, ou jovens que tenham alguma demanda, ou até mesmo que tenham uma opinião diferente”, acrescentou a presidente, destacando o apoio e as bolsas de estudo oferecidas pelo governo para os jovens.
Entre as supostas ligações políticas, Elorza mencionou na coletiva Edson Andrade, um dos responsáveis pela convocação dos jovens nas redes sociais, com um perfil de fortes críticas à presidente pela insegurança. “Ele me expôs a mim e a outros jovens como se fôssemos criminosos”, disse Andrade em um vídeo publicado no X.
A CNN entrou em contato com a Presidência do México para consultar sobre esses comentários e ainda aguarda resposta.

No dia 18 de novembro, Luisa Alcalde, presidente do Morena (partido do governo), publicou um contrato de Andrade com o Partido de Ação Nacional (PAN) na Cidade do México.
O jovem disse que o trabalho começou há algum tempo e “não tem nada a ver com suas opiniões políticas pessoais”, sendo voltado para a produção de conteúdos institucionais.
O presidente do PAN, Jorge Herrera, afirmou que a contratação não tem relação com as ideias da Geração Z e defendeu Andrade.
Enquanto isso, diversos líderes da oposição, tanto do PAN quanto do PRI, apoiaram publicamente as demandas da chamada Geração Z e rejeitaram as críticas. Eles afirmam que se trata de uma tentativa do governo de Sheinbaum de desviar a atenção das reclamações dos jovens.
“Mero Perro” afirma que tanto o governo quanto a oposição “querem contar suas narrativas, fingir que nada está acontecendo, tentar tapar o sol com a peneira”. Isso, segundo ele, “desvia a atenção de tudo o que está acontecendo”.
“Sentimos genuinamente o gaslighting da presidente. Ela até se contradiz bastante nas suas conferências matinais”, acrescenta uma das jovens à CNN.
Ela conta que tem se sentido sobrecarregada em alguns momentos ao tentar organizar as ideias com o grupo, mas garante que estão focados em estabelecer estratégias para impulsionar mudanças.
Murillo diz que as demandas são claras: abrir espaços para diálogo e garantir que as demandas dos cidadãos sejam ouvidas. “Não esperamos mudanças mágicas ou imediatas, mas esperamos ser parte ativa do processo”, afirma.
“A sociedade é complexa, mas acredito que os que estamos aqui compartilhamos o interesse comum de viver em um país melhor”, conclui “Mero Perro”.



