Síndrome de Havana desperta receio entre diplomatas sobre a resposta dos EUA

Diplomatas e fontes de inteligência cobram informações básicas, como o número de pessoas afetadas e a localização dos incidentes

Embaixada dos EUA em Viena, Áustria
Embaixada dos EUA em Viena, Áustria Foto: Reprodução/US Embassy in Austria

Kylie Atwood, Natasha Bertrand and Katie Bo Williams, CNN

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À medida que aumentam os relatórios de diplomatas e oficiais de inteligência dos Estados Unidos, adoecidos pela misteriosa Síndrome de Havana, cresce dentro do Departamento de Estado a frustração entre funcionários e diplomatas sobre o que vários profissionais dizem ter sido uma resposta morna do departamento.

A falta de informações da liderança é particularmente preocupante, incluindo o que alguns dizem ter sido uma abordagem direta do Secretário de Estado Tony Blinken, que ainda não se encontrou com nenhuma das vítimas do Departamento de Estado, apesar de dizer que priorizaria os incidentes.

O medo da doença misteriosa está afetando as decisões de carreira dos diplomatas, dizem as fontes. Alguns oficiais do serviço estrangeiro decidiram não aceitar empregos que eles temem que possam torná-los alvos do fenômeno inexplicável que adoeceu centenas de autoridades americanas nos últimos anos.

Dois diplomatas que falaram à CNN decidiram não se candidatar a empregos em Berlim e Viena porque queriam evitar cidades onde tinham ouvido falar dos incidentes.

Diplomatas e fontes de inteligência que falaram à CNN disseram que querem informações básicas, como o número de pessoas afetadas e a localização dos incidentes – dados que o Departamento de Estado costumava divulgar publicamente em coletivas de imprensa sobre os incidentes em Cuba e na China. Os diplomatas também estão se perguntando o que o departamento está fazendo para garantir que eles e suas famílias não sejam mandados de volta para prédios ou apartamentos onde os incidentes sanitários foram relatados anteriormente.

Algumas vítimas afetadas pela estranha síndrome também estão irritadas com a maneira como o departamento tratou seus casos.

“Na maioria das vezes, não sabemos nada além do que está na imprensa”, disse um diplomata dos Estados Unidos. “É difícil para as pessoas tomarem decisões com base em informações sobre onde servir”.

A abordagem cautelosa é ainda mais nítida para diplomatas que possuem filhos.

Alcançando o equilíbrio certo

Funcionários do Departamento de Estado afirmaram à CNN que estão cientes da frustração e do medo entre os funcionários e que atualmente estão considerando maneiras de compartilhar mais informações com sua força de trabalho. As autoridades enfatizaram que estão trabalhando para encontrar o equilíbrio certo: eles querem compartilhar mais detalhes para que os diplomatas possam tomar decisões com base em informações, particularmente relacionadas à sua segurança, mas também não querem aumentar as proporções da ameaça.

O Departamento estabeleceu uma equipe de especialistas médicos para responder a relatórios de possíveis incidentes de saúde e ofereceu exames médicos de base aos diplomatas, caso eles relatassem um incidente posteriormente.

Mas aqueles que não foram afetados – e temem a possibilidade – ainda se sentem deixados no escuro. A falta de informações básicas deu origem a uma campanha de boatos que se espalhou entre os oficiais do serviço estrangeiro enquanto eles tentavam descobrir se um emprego estava vago porque a pessoa que ocupou o cargo anteriormente havia saído ou porque teve que tirar uma licença médica.

“Quando você está indo para um posto de alta ameaça, você sabe que a segurança diplomática o manterá informado sobre quais são as ameaças, e que eles tomarão todas as medidas possíveis para mitigar essas ameaças. Nesta situação, nem a ameaça nem a mitigação são claras”, disse um segundo diplomata.

A resposta de Blinken contrasta com a do diretor da CIA [agência de inteligência dos Estados Unidos] Bill Burns, que fontes dizem que tem se engajado ativamente no assunto e se reunido com oficiais de inteligência impactados pelos ataques. Blinken, que disse que priorizaria esses incidentes quando se tornasse o principal diplomata do país, planeja se reunir em breve com um grupo de diplomatas afetados, disseram funcionários do Departamento de Estado.

A Embaixadora Pamela Spratlen, oficial de carreira do serviço exterior, está supervisionando a força-tarefa – a Força-Tarefa de Resposta a Incidentes de Saúde – criada em resposta à enxurrada desses incidentes em Cuba e na China em 2018. Spratlen foi retirada da aposentadoria e colocada neste papel por Blinken no início deste ano, e ela se encontrou com alguns dos diplomatas que foram afetados.

De modo geral, diplomatas norte-americanos que falaram à CNN disseram estar preocupados com o impacto psicológico que o fenômeno teve e se ele demonstra que quem está por trás disso conseguiu seus objetivos de semear medo e confusão de uma forma que poderia eventualmente atrapalhar a capacidade do Departamento de Estado de fazer seu trabalho.

Mas outros diplomatas experientes discordam e se recusam a deixar um cargo por causa desses incidentes que são um tanto esparsos e indefinidos. Eles também apontam que há muitos diplomatas americanos ainda dispostos a servir em países europeus, que são atribuições cobiçadas para diplomatas de carreira.

Vítimas frustradas

Além dos diplomatas americanos que estão preocupados em se defender contra ameaças futuras, algumas vítimas também expressaram frustração com a forma como o Departamento de Estado as tratou durante todo o processo.

Uma vítima de uma série de incidentes ocorridos em 2018 em Guangzhou, na China, alegou que o Departamento de Estado promoveu retaliações contra ele por falar sobre seus sintomas persistentes. Mark Lenzi, um membro dos serviços de segurança diplomática, apresentou duas queixas de denúncias, bem como um punhado de queixas formais de discriminação.

O impacto dos incidentes de saúde e a frustração com o modo como o Departamento de Estado lida com o fato não se restringe a diplomatas experientes.

Lindsay Bryda, que trabalhou como estagiária no consulado dos Estados Unidos em Guangzhou em 2018, disse à CNN que teve a primeira e única convulsão de sua vida dias após o término de seu estágio em julho de 2018.

Byrda diz que tomou conhecimento dos incidentes de saúde durante a primeira semana de seu estágio em maio de 2018, quando funcionários consulares convocaram uma reunião com todos os funcionários americanos para falar sobre os oficiais do consulado que adoeceram com sintomas semelhantes aos experimentados por funcionários diplomáticos em Havana em 2016. Seguiram-se evacuações médicas e Bryda só soube depois que o oficial do serviço exterior que morava em seu apartamento antes dela passou a receber tratamento para sintomas consistentes com a Síndrome de Havana, disse ela à CNN.

Bryda diz que foi informada posteriormente pelo diretor administrativo do consulado que sua saúde poderia ser afetada e que ela deveria desocupar o apartamento, que ficava no complexo de apartamentos internacional de Edimburgo, em Guangzhou. Ela voltou de uma breve viagem a Pequim e encontrou uma faixa policial em sua porta, lembrou.

Bryda, cujas experiências foram corroboradas por outra estagiária que trabalhava com ela na época, sofreu a convulsão logo em seguida, durante uma viagem à Tailândia, e disse que comunicou o incidente ao Departamento de Estado. Ela foi informada de que seu caso foi incluído em relatórios internos de incidentes de saúde anômalos vindos da China. Apesar de pressionar repetidamente a Força-Tarefa do Departamento de Estado por seus registros médicos, ela ainda não recebeu uma resposta.

Força-tarefa do Departamento de Estado

Desde que assumiu as rédeas do departamento no início deste ano, Spratlen implementou uma série de novos esforços, junto com parceiros interagências, para apoiar os funcionários e investigar com mais eficácia a causa raiz desses incidentes.

Agora existe uma ferramenta interagências que foi construída para avaliar os relatórios desses incidentes em diferentes agências em um só lugar. Este foi um desenvolvimento particularmente bem-vindo para os investigadores que estão investigando o caso.

Embora não tenha divulgado informações publicamente sobre o número de novos incidentes, o Departamento de Estado enviou um memorando no início deste ano que instruía os funcionários e seus familiares a relatar “imediatamente” quaisquer novos sintomas médicos que se encaixassem no padrão diverso de sintomas da “Síndrome de Havana”.

“Deixamos claro que qualquer funcionário que relatou um possível incidente de saúde inexplicável, ou UHI [na sigla em inglês], tem o que precisa para buscar atenção e cuidados adequados e imediatos. Esses incidentes de saúde têm sido uma prioridade para o secretário Blinken desde o primeiro dia”, disse o porta-voz do Departamento de Estado, Ned Price, durante uma coletiva de imprensa.

No início deste mês, Spratlen e o subsecretário de Estado para Gestão e Recursos Brian McKoen convocaram um conselho com diplomatas americanos em Viena para ouvi-los diretamente e deixar claro que esse desafio está no topo da agenda do departamento, disseram as autoridades.

Mas Spratlen não se reporta diretamente ao Blinken – algo que algumas fontes dizem que mostra que o departamento não está priorizando o problema tanto quanto afirma.

O departamento tem lidado com essa situação única há cerca de cinco anos e tem enfrentado críticas ao longo do caminho.

Um relatório desclassificado do Departamento de Estado de 2018 obtido pelo Projeto James Madison e publicado no Arquivo de Segurança Nacional da George Washington University concluiu que a investigação inicial do departamento sobre a ‘síndrome de Havana’ “foi caracterizada por uma falta de liderança sênior, comunicações ineficazes e desorganização sistêmica”.

*Nicole Gaouette, da CNN, contribuiu para esta reportagem

Texto traduzido, leia o original em inglês.

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