Terremoto ainda pode provocar novos eventos no Nepal, alerta geólogo à CNN
Em entrevista ao Bastidores CNN, especialista da UFRGS avisa que réplicas do tremor de magnitude 4,4 no Himalaia podem resultar em novos desastres
Ao menos 157 mortes foram confirmadas após inundações torrenciais nas áreas fronteiriças do Himalaia, entre o Nepal e o Tibete, nesta quarta-feira (26). O desastre foi desencadeado por um terremoto de magnitude 4,4, que, apesar de não ser considerado de alta intensidade, provocou uma sequência devastadora de eventos.
O geólogo e professor da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Rualdo Menegat, em entrevista ao Bastidores CNN, detalhou a possibilidade de réplicas destes tremores.
"Um terremoto, embora a gente o anuncie como sendo um momento, na verdade é um evento que está em curso, e este curso implica na ocorrência de eventos secundários que podem amplificar os elementos que aconteceram no primeiro pulso", explicou.
Segundo ele, novas represas naturais, ocasionadas pelo derrame de detritos e derretimento das geleiras, podem ter se formado com o primeiro tremor e, diante de uma réplica, essas barragens também podem romper, agravando ainda mais a situação.
"O terremoto demora um tempo para estabilizar-se, na medida em que é um deslizamento de falhas. Essa falha começa a deslizar em um pulso mais forte, que é o primeiro terremoto, mas ela continua deslizando lentamente e pode gerar um segundo pulso e até um terceiro", explicou Menegat.
O geólogo comparou o evento atual a um desastre ocorrido em 1970 na Cordilheira dos Andes, no Peru, envolvendo o Nevado Huascarán.
"Uma base da geleira se desprendeu com o terremoto, gerou um fluxo de detritos e lama imenso, soterrou por inteiro a cidade de Yungay. Houve ali mais de 50 mil fatalidades em um soterramento de 300 metros de espessura", relatou.
Para Menegat, o terremoto funciona como o disparador de uma sequência de eventos: "Cada qual mais perigoso do que o outro", alertou.
Quatro fatores amplificaram desastre
Menegat destacou que nem sempre um terremoto de magnitude 4,4 é capaz de causar tamanha destruição e que quatro fatores amplificaram os efeitos do tremor. "O primeiro fator é a ocorrência numa zona montanhosa altamente dinâmica como é o Himalaia", afirmou.
Ele explicou que as montanhas onde o tremor ocorreu ultrapassam 6 mil metros de altitude, enquanto o vale onde a destruição foi registrada está a apenas 800 metros. "Nós temos um gradiente de altíssima energia", disse.
O segundo fator apontado pelo geólogo é o deslocamento da base das geleiras das montanhas altíssimas do Himalaia.
"Um terremoto de 4,4 é capaz de deslocar a base da geleira, gerando uma enorme quantidade de detritos. Na medida em que a neve vai se derretendo, vai se envolvendo com lama e com detritos que estão nas encostas", explicou.
Segundo o geólogo, ao chegar ao fundo do vale, esse material pode formar um obstáculo natural, uma espécie de dique, que, ao ceder sob o volume crescente de água, desencadeia uma corrida de lama.
Esse seria o terceiro fator capaz de resultar em mais destruição na região. "Essa corrida de lama, descendo um tobogã que são os vales estreitos do Himalaia, atinge velocidades de até 300 km/h. Ela é irrefreável", afirmou. Ao chegar à base das montanhas, a enxurrada arrasta tudo em seu caminho.
O quarto fator mencionado pelo geólogo é a alta exposição da população e da infraestrutura ao risco.
"Imagine um volume enorme de detritos descendo uma ladeira de uma altitude de 6 mil metros, é praticamente impossível gerenciar isso. Devemos respeitar as montanhas elevadas, embora sejam muito bonitas, são locais praticamente impossíveis de se habitar", concluiu.


