Trump acredita ser "guardião da Europa", diz analista sobre pressão na Otan

Ao CNN 360º, Felippe Ramos explica como a insistência de Trump sobre a Groenlândia pode afetar a aliança militar e os gastos de defesa

Da CNN Brasil
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Donald Trump reiterou, nesta terça-feira (7), seu interesse em controlar a Groenlândia, argumentando que o território é estrategicamente vital para a segurança americana. A declaração foi feita durante a cúpula da Otan, que reúne os 32 chefes de Estado e de governo da aliança na Turquia.

Em entrevista ao CNN 360º desta terça-feira, o analista de política internacional Felippe Ramos avaliou que a escolha do momento não foi casual.

"Ele insiste em trazer esse tema, o que significa que continua sendo uma prioridade para os Estados Unidos, a despeito da preocupação americana com o Estreito de Ormuz e a guerra com o Irã", afirmou o analista.

Ramos explicou que a postura de Trump em relação à Groenlândia faz parte de uma estratégia mais ampla.

"Ele insiste nesse tema porque considera parte de uma estratégia maior dos Estados Unidos para o hemisfério ocidental, o que ele chama de corolário Trump da doutrina Monroe, no qual os Estados Unidos deve ter uma zona de influência que abarca todo o hemisfério ocidental", detalhou o analista.

Nessa perspectiva, Trump demonstra maior tolerância com movimentos expansionistas da Rússia ou da China em outras regiões do mundo, mas reage com firmeza à presença de navios russos e chineses próximos à Groenlândia e a territórios norte-americanos.

"Ele vê como possível insistir sobre esse tema em relação aos seus próprios parceiros porque ele considera que os Estados Unidos são o principal guardião da Europa", ressaltou Ramos.

O analista destacou que Trump justifica sua posição de pressão sobre os aliados com base no peso financeiro que os Estados Unidos carregam dentro da aliança. Ele lembrou que os americanos respondem por cerca de 60% de todo o gasto militar da Otan, e esse percentual tende a crescer.

"Trump quer que [o gasto com defesa], para o ano que vem, chegue a um trilhão e meio de dólares, o que seria, basicamente, dobrar em menos de uma década o gasto dos Estados Unidos, que é o maior do mundo", explicou Ramos. Isso elevaria a participação americana no orçamento de defesa da aliança para quase 80%.

Desequilíbrio na aliança

Sobre a pressão de Trump para que os países europeus invistam mais em defesa, Ramos ponderou que quase todos os membros da Otan já vêm aumentando seus gastos militares, com exceção da Grécia, único país que reduziu seus investimentos entre os 32 membros.

Polônia e Reino Unido foram destacados como exemplos de nações que ampliaram consideravelmente seus orçamentos de defesa. No entanto, o analista apontou que o desequilíbrio dentro da aliança deve persistir:

"Poucos países alcançaram esse ano a marca de 3,5% com gastos militantes dentro da Otan. A meta é 2035 é que chegue a 5%, e isso dificilmente será alcançado, provavelmente, só pelos Estados Unidos mesmo", avaliou.

Ramos considerou que é pouco provável que os Estados Unidos deixem a alinça militar, apesar das ameaças do presidente norte-americano. "Eu não vejo como possível, não é de interesse dos Estados Unidos, mas o Trump tem sua forma particular de negociar com o uso da pressão", disse o analista.

O analista explicou que Trump considera que a Otan se expandiu excessivamente após o fim da Guerra Fria e busca um revisionismo da aliança. A ideia dele seria priorizar a proteção dos países que considera centrais, como França e Reino Unido, em detrimento de nações como a Lituânia.

O que esperar da cúpula

Ao analisar as expectativas para o encontro de líderes, Ramos apontou uma série de temas relevantes. Além da questão da Groenlândia, a Ucrânia deve ser abordada com o anúncio de um acordo já acertado de mais de US$ 70 bilhões para a defesa do país.

Trump também deve levantar o tema do Irã e do estreito de Ormuz, criticando a falta de apoio dos aliados da Otan.

"Ele faz uma crítica bastante injusta, porque a Otan não é uma aliança de ataque, mas sim uma aliança de autodefesa. Ela existe para que caso um dos países seja atacado, que os outros venham em socorro, o que não foi o caso em relação à guerra com o Irã, decidida unilateralmente por Estados Unidos e Israel", afirmou o analista.

Outro ponto de atenção é a situação da Turquia, descrita pelo analista como um "swing state" dentro da aliança, por manter laços estreitos tanto com a Rússia quanto com a Otan.

Há expectativa de que Trump decida derrubar o veto à venda de caças americanos ao país. Este veto foi imposto pelo próprio Trump em 2019, após a Turquia adquirir sistemas de defesa antiaéreos russos.

A principal preocupação americana é que segredos industriais dos caças possam chegar às mãos dos russos. Segundo Felippe Ramos, as negociações sobre essa venda seguem em andamento.

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