Um ano após protestos, governo cubano tem controle mais rígido sobre a população

À época, redes sociais ajudaram a espalhar as manifestações pelo país; centenas de pessoas foram presas

Patrick Oppmann, da CNN
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Os maiores protestos antigovernamentais ocorridos em Cuba desde a revolução de 1959 começaram com um apagão em um dia quente de verão. Após dias de cortes de energia pelo governo, os moradores da pequena cidade de San Antonio de los Baños perderam a paciência. Em 11 de julho de 2021, eles foram às ruas para reclamar.

O episódio pode ter permanecido como uma lenda urbana cubana, um momento sussurrado de rara dissidência pública na ilha comunista, se não fossem as recentes atualizações da internet móvel da ilha.

Mas, naquele verão, os cubanos de todo o país puderam transmitir ao vivo e ver em tempo real os protestos que se desenrolavam em San Antonio de los Baños - e juntar-se a eles.

Quase imediatamente em toda a ilha, milhares de outros cubanos foram às ruas, alguns reclamando sobre a falta de alimentos e medicamentos, outros denunciando altos funcionários e pedindo maiores liberdades civis.

As manifestações sem precedentes se espalharam até pelas pequenas cidades e vilas onde há mais cavalos e carruagens nas ruas esburacadas do que automóveis.

Na cidade de San Jose de las Lajas, Marta Perdomo disse que seus dois filhos Nadir e Jorge, ambos professores, imediatamente se juntaram aos protestos assim que chegaram notícias de distúrbios em outras partes do país.

"Meus filhos saíram, porque, como todo cubano, estavam desesperados com a situação", relatou Marta Perdomo à CNN. "Eles são pais. Cada dia aqui temos menos. Não tinha remédio. Foi um momento muito triste com a pandemia. As crianças estavam morrendo e os idosos também", acrescentou.

A raiva transbordou para os cubanos quando a escassez de alimentos e remédios -- já regular no país -- tornou-se cada vez pior. Depois de anos de negligência do governo, as redes de energia estavam quebrando cada vez com mais frequência.

Enquanto as autoridades cubanas há muito culpam as sanções dos Estados Unidos pelos problemas da ilha, os manifestantes em 11 de julho se enfureceram diretamente contra seu próprio governo por suas piores condições de vida.

O vídeo que o filho de Marta, Nadir, fez naquele dia mostra multidões de manifestantes marchando pacificamente pela rua. Eles mesmos pareciam em choque com o que estava acontecendo.

"Isso é autêntico! É espontâneo!", afirmava Nadir no vídeo.

De acordo com Perdomo, os manifestantes em San Jose de las Lajas não saquearam lojas administradas pelo governo que vendiam itens em moeda forte ou viraram carros da polícia, ao contrário de outras cidades.

À medida que mais e mais cubanos foram às ruas, ficou claro que o governo cubano estava enfrentando o maior desafio interno para manter o poder em décadas.

Em um discurso na TV estatal, o presidente Miguel Diaz-Canel culpou os problemas econômicos da ilha pelas sanções do governo dos EUA, e disse que os protestos foram resultado de uma campanha de subversão dirigida do exterior e pediu aos fiéis que retirem as ruas dos manifestantes.

"Estamos convocando todos os revolucionários do país, todos os comunistas, para irem às ruas, a todos os lugares onde possam replicar essas provocações. "A ordem de combate foi dada", destacou.

Apoiadores do governo carregando bastões ao lado da polícia começaram a dispersar os protestos. Centenas de cubanos foram presos; alguns por entrarem em conflito com autoridades, outros por simplesmente filmarem o tumulto com seus telefones.

Como os protestos em San Jose de las Lajas foram interrompidos por apoiadores do governo e pela polícia, Nadir e Jorge Perdomo voltaram para sua casa e filmaram um vídeo em seus celulares que conseguiram postar, apesar das tentativas do governo de cortar o acesso à internet na ilha.

"Ninguém nos pagou. Estamos apenas reagindo como todas as pessoas reagiram", diz Nadir no vídeo, rejeitando as alegações do governo de que os protestos foram planejados.

Ambos os irmãos foram presos dias depois e acusados ​​de supostos crimes, incluindo desordem pública, agressão e desacato. A mãe deles, Marta, pontuou que as acusações contra seus filhos foram inventadas e que eles estavam sendo punidos por se manifestarem pacificamente contra o governo.

Autoridades cubanas dizem que muitos dos manifestantes presos eram delinquentes e "contra-revolucionários". Mas, em seus registros judiciais, os promotores observam que nem Nadir, nem Jorge tinham antecedentes criminais e ambos "eram bem vistos" em sua comunidade. Em fevereiro, Nadir foi considerado culpado e condenado a seis anos de prisão, e Jorge, a oito anos.

Até o momento, os promotores dizem ter condenado e sentenciado cerca de 500 pessoas com relação aos protestos, nos maiores julgamentos em massa na ilha em décadas.

Evitando protestos futuros

Organizações internacionais de direitos humanos dizem que o governo cubano está usando os processos para intimidar quem ouse protestar novamente.

"Descobrimos que os promotores estavam constantemente cobrando dos cubanos por exercerem seus direitos básicos, como o de protestar pacificamente contra seu presidente ou policiais, exercendo o direito à liberdade de expressão", observou Juan Pappier, um pesquisador sênior das Américas da Human Rights Watch (HRW).

Na segunda-feira, a HRW divulgou um relatório sobre os protestos que diz documentar 155 casos de supostos abusos contra pessoas envolvidas nas manifestações do ano passado, "incluindo assédio, detenção arbitrária, processos com abuso, espancamentos e outros casos de maus-tratos que em alguns casos constituem tortura".

A organização também acusou o governo cubano de reprimir ainda mais as liberdades civis para impedir que mais ações como aquela ocorram.

Marta Perdomo disse que também sofreu restrições depois que foi convidada à Europa em junho para falar sobre seus filhos a grupos de direitos humanos e legisladores. Quando ela chegou ao aeroporto de Havana, as autoridades disseram a ela e a outra mãe de um manifestante preso que não teriam permissão para viajar.

"Eles disseram que eu estava 'regularizada' e não podia ir", explicou Perdomo.

As autoridades cubanas não responderam a um pedido da CNN perguntando por que Marta Perdomo não tinha permissão para deixar a ilha.

Embora ela diga que esteja preocupada quando seus três netos vão ver seus pais novamente, ela não se arrepende.

"Eles não precisavam sair, mas sentiram a dor de Cuba", afirmou Perdomo. "É por isso que eles saíram. Naquele dia, meus filhos estavam livres", acrescentou.

Resta saber se os protestos de julho serão lembrados como uma rara explosão de raiva pública ou uma nova etapa na luta por maior abertura.

À medida que a pandemia, as sanções dos EUA e o ritmo lento das reformas continuam a afetar a economia cubana, as autoridades da ilha parecem perceber que, apesar de sua forte repressão no ano passado, mais protestos podem acontecer a qualquer momento.

Em junho deste ano, centenas de estudantes cubanos de uma universidade na cidade de Camagüey iniciaram uma manifestação noturna após o corte de energia em seu dormitório.

"Fo***** esses apagões! Ligue a eletricidade!" eles cantavam enquanto batiam em panelas, como visto em vídeos que os alunos postaram nas redes sociais. As autoridades cubanas rapidamente voltaram a acender as luzes.

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