Um diplomata americano veterano e sua visão pró-Rússia no conflito com a Ucrânia

Jack Matlock Jr. traduzia recados de Krushev para Kennedy na crise de Cuba e foi embaixador em Moscou no ocaso da Guerra Fria. Hoje, diz que demandas de Putin são razoáveis

Um sinal na aldeia de Vesyoloye, na região separatista de Donbass. Em abril de 2014, as autoridades de Kiev lançaram uma operação militar na região depois que a República Popular de Donetsk e a República Popular de Lugansk proclamaram sua independência da Ucrânia
Um sinal na aldeia de Vesyoloye, na região separatista de Donbass. Em abril de 2014, as autoridades de Kiev lançaram uma operação militar na região depois que a República Popular de Donetsk e a República Popular de Lugansk proclamaram sua independência da Ucrânia Valentin Sprinchak/TASS

Heloisa Villelada CNN

Em Nova York

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“A tragédia de uma nação dividida” é o título de um artigo que responsabiliza os Estados Unidos e os aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) pelo conflito interno na Ucrânia e diz ainda que a Rússia tem o “direito” (assim mesmo, entre aspas) de se opor à presença de uma força militar hostil em suas fronteiras.

O autor do texto, publicado em dezembro de 2021 em uma publicação de relações internacionais da Universidade da Carolina do Norte, é um diplomata americano, historiador e professor. Jack F. Matlock Jr. ocupou posições estratégicas para quem quer observar os grandes eventos mundiais.

Durante a crise de 1962, quando a União Soviética instalou mísseis em Cuba como resposta aos mísseis americanos já instalados na Turquia, Matlock era um jovem diplomata encarregado de traduzir os recados de Nikita Krushev para John Kennedy. Mais tarde, entre 1987 e 1991, ele foi embaixador americano em Moscou e espectador privilegiado dos últimos anos da Guerra Fria.

Toda essa experiência faz do hoje professor convidado da Universidade Duke um analista bem informado a respeito da crise na Ucrânia. Um americano que serviu ao país e não tem medo de voltar aos fatos históricos para fazer as críticas que acha necessárias.

Foi nesse espírito que agora, aos 92 anos, ele publicou uma análise da crise na Ucrânia que contraia a versão dos fatos mais reproduzida nos Estados Unidos. De saída, ele não considera Vladimir Putin o agressor dessa disputa e também mostra que a história da recém criada Ucrânia precisa ser estudada mais de perto.

Ele diz que a Ucrânia é um estado, mas não ainda uma nação, montado às pressas e juntando partes que não são compatíveis. Uma criação do fim da Segunda Guerra Mundial, que juntou um oeste e um leste/sul divididos por culturas e línguas distintas.

A Crimeia, que sempre foi considerada parte integral do território russo, desde o século XVIII, foi transferida pelo governo soviético para a Ucrânia. Mas a cidade de Sevastopol, base da frota naval do Mar Negro, foi mantida com Moscou.

Esse país que já nasceu dividido manteve coesão com um governo central que, detalhe curioso, escolhe os líderes das províncias. É como se, no Brasil, o presidente da república pudesse determinar quem são os governadores dos estados.

A crise que o mundo acompanha agora, passo a passo, tem raízes na chamada Revolução Ucraniana de 2014, que reflete essa divisão histórica. E aqui, quando fala da revolução que juntou manifestantes na Praça Maidan, o historiador e embaixador cita uma pesquisa do professor da Universidade de Ottawa, Ivan Katchanovski.

Em uma conversa via zoom, o professor Katchanovski me contou o resultado da investigação que fez sobre o massacre em Maidan, evento essencial na desestabilização e troca de governo na Ucrânia naquele ano.

Ele analisou imagens de vídeo, resultado de testes balísticos que mostram trajetórias das balas, conversou com testemunhas e não tem a menor dúvida: os manifestantes mortos na praça foram assassinados por atiradores de elite que estavam posicionados em prédios controlados pelos manifestantes.

“Inclusive”, disse, “dois desses atiradores foram capturados pelos manifestantes e, depois de entregues aos líderes do movimento, eles sumiram”. Três meses de protestos terminaram com o assassinato de cerca de 50 manifestantes no dia 20 de fevereiro de 2014.

O presidente Viktor Yanukovych, que já havia concordado em antecipar as eleições presidenciais, deixou o país. Antes da revolta começar, Yanukovych havia se recusado a assinar um acordo de cooperação com a União Europeia.

Há quem chame todo esse processo de golpe – a Rússia. Mas o novo governo foi imediatamente reconhecido pelos aliados da Otan.

Oito anos depois do massacre e da troca de governo, não existem policiais presos, responsáveis pelas mortes. O governo concluiu que não foram eles os autores dos disparos. Mas o problema estava apenas começando.

Províncias do leste (Donetsk e Luhansk) se rebelaram e, com a ajuda da Rússia, começou o movimento separatista. Líderes da Crimeia pediram a anexação à Rússia e um acordo para resolver o problema foi assinado um ano depois. Trata-se do famoso Acordo de Minsk, pelo qual as províncias voltaram à Ucrânia, mas com algum grau de autonomia e anistia para os separatistas.

O legislativo se negou a modificar a constituição, que dá ao presidente o direito de escolher os líderes regionais. Mas o acordo também daria a essas províncias poder de veto sobre uma decisão da Ucrânia se filiar à Otan, o que hoje o governo ucraniano não aceita mais. E o impasse continua.

Jack Matlock explica todo esse quadro antes de entrar na disputa atual para destacar: “O que precisa ser entendido é que a Rússia entende esses assuntos como problemas vitais de segurança nacional”.

Jack Matlock Jr. em 1988, quando era embaixador dos Estados Unidos em Moscou / ullstein bild via Getty Images

Ele explica que a Rússia é extremamente sensível a atividades militares em suas fronteiras, como qualquer outro país seria. Ele não vê sentindo na política adotada, desde o governo George W. Bush, de perseguir a inclusão da Ucrânia na Otan. “É muito perigoso confrontar uma potência nuclear com ameaças militares em suas fronteiras”, diz no artigo.

Não se trata de dar à Rússia o direito de reclamar uma esfera de influência e sim de levar em consideração as possíveis consequências de insistir em incluir a Ucrânia na Otan e, em consequência, colocar a parceria militar na porta da Rússia.

Para o historiador e diplomata experiente, a Rússia argumenta que o discurso do respeito à soberania é usado apenas quando convém dadas as intervenções americanas em diferentes países. Basta falar do Iraque para não voltar demais na roda da história.

Mas ele diz que a Ucrânia só tem um caminho para se tornar um país unido e próspero: manter uma relação civil e relativamente próxima com a Rússia, dando a seus cidadãos de língua russa igualdade de direitos linguísticos e culturais. “Os amigos da Ucrânia na Europa e na América do Norte deveriam ajudá-la a entender isso ao invés de perseguir um caminho que pode muito bem se tornar uma rota suicida”.

Em um artigo mais recente, do dia 15 de fevereiro, Matlock vai além. Diz que a crise era evitável, previsível e foi precipitada pelas políticas de Bush, Barack Obama, Donald Trump e Joe Biden. E conclui que a crise é, ainda, solucionável com o uso do bom senso, já que, para ele, o que Putin pede é perfeitamente razoável.

“Talvez as negociações subsequentes entre Washington e o Kremlin encontrem uma maneira de acalmar as preocupações russas e desarmar a crise. E talvez, então, o Congresso [americano] comece a lidar com os problemas crescentes que temos em casa, em vez de piorá-los”, diz o professor, para concluir. “Ou assim se pode esperar.”

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