Waack: Trump leva guerra contra o Irã ao terreno da religião

Na briga entre Trump e o papa, estava em questão um problema religioso que é, na verdade, um problema político: trata-se da noção de guerra justa

William Waack
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O secretário de guerra dos Estados Unidos é um homem que se diz muito religioso. É um cristão evangélico defensor de uma espécie de nacionalismo religioso patriótico. 

Usa uma tatuagem com a frase Deus vult, Deus quer, associada às cruzadas medievais. 

Ao pregar ele mesmo um sermão no Pentágono para militares americanos, ele falou como se referisse a textos bíblicos quando, na verdade, repetia um monólogo de um famoso filme de Hollywood, Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, na cena em que um gangster mata outro invocando a ira divina. 

A forma como a Casa Branca mistura religião com a guerra contra o Irã produziu uma outra situação constrangedora. Foi o vice-presidente dos EUA, JD Vance, que se converteu a um tipo de fundamentalismo católico, dando aula de teologia para....o papa. 

Na briga com o papa estava em questão um problema religioso que é, na verdade, um problema político. Trata-se da noção de guerra justa. Pois é a necessidade dessa guerra que está sendo contestada pela maioria do eleitorado americano. 

O papa criticou diretamente a guerra iniciada por Trump - e indiretamente a imagem que o republicano publicou de si mesmo como Jesus - dizendo que Cristo não atende às preces de quem inicia guerras. 

Vance e Trump não gostaram, mas o papa estava se referindo aos escritos de Santo Agostinho, que ele conhece muito bem, pois é a ordem à qual pertence. 

Santo Agostinho iniciou a teologia da guerra justa, que evidentemente o papa não enxerga na Operação Fúria Épica de Donald Trump. 

Atribui-se ao mesmo santo outra frase que Trump detestaria.

"O homem destrói o que o homem constrói", disse o santo, quando foi informado que Roma tinha sido tomada pelos bárbaros.