Doação de sangue animal: como funciona e quais pets podem doar

Acidentes, cirurgias complexas, doenças que causam anemia e até alguns tratamentos veterinários podem tornar a transfusão essencial para salvar a vida de um animal

Simone Machado, colaboração para a CNN Brasil
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Assim como acontece com os seres humanos, cães e gatos também podem precisar de transfusões de sangue em situações de emergência. Acidentes, cirurgias complexas, doenças que causam anemia e até alguns tratamentos veterinários podem tornar a transfusão essencial para salvar a vida de um animal.

Apesar da importância do procedimento, muitas pessoas ainda desconhecem que os pets também podem ser doadores. A doação de sangue animal é um processo seguro, controlado por veterinários e capaz de beneficiar diversos pacientes que dependem desse recurso para sobreviver.

Quando um animal precisa de transfusão

A transfusão de sangue pode ser indicada em diferentes situações. Entre as mais comuns estão hemorragias, doenças transmitidas por carrapatos, anemias graves, cirurgias de grande porte e algumas enfermidades que afetam a produção de células sanguíneas.

Nesses casos, a reposição de sangue ou de seus componentes ajuda a restabelecer funções essenciais do organismo e aumenta as chances de recuperação do paciente.

“Entre as principais situações estão hemorragias causadas por acidentes, cirurgias complexas, intoxicações, leishmaniose, anemias graves, distúrbios de coagulação, doenças imunomediadas, ou ainda, no caso dos gatos, da ocorrência da infecção por FIV (Vírus da Imunodeficiência Felina) e FeLV (Leucemia Viral Felina)”, explica Débora Nunes Papa, veterinária e professora do curso de Medicina Veterinária do Centro Universitário Arnaldo.

Quem pode ser doador

Para garantir a segurança tanto do doador quanto do receptor, os bancos de sangue veterinários seguem critérios rigorosos de seleção.

O cachorro precisa pesar, no mínimo, 25 quilos, ter idade entre 2 e 8 anos, estar com a vacinação e a vermifugação em dia, além de apresentar controle rígido contra pulgas e carrapatos. As fêmeas não podem estar prenhas ou no cio, e nenhum candidato pode ter histórico de doenças graves ou transfusões prévias.

Os gatos costumam ter exigências ainda mais específicas. Eles devem ter entre 1 e 8 anos de idade, de preferência ser macho e com comportamento dócil, e pesar pelo menos 4 quilos de massa magra — animais obesos não entram na lista devido aos riscos na coleta.

Assim como os cães, eles precisam ter bom histórico de saúde, vacinas em dia e exames negativos para doenças infecciosas graves, como a FIV (imunodeficiência felina) e a FeLV (leucemia felina).

Antes da aprovação, o animal passa por exames clínicos e laboratoriais para verificar o estado de saúde.

Como funciona a doação

O processo é semelhante ao realizado em humanos. O animal é acomodado em um ambiente tranquilo e acompanhado por uma equipe veterinária durante toda a coleta.

O processo de doação é rápido e praticamente indolor. Ao chegar à clínica ou ao banco de sangue, o animal passa por um exame físico completo e uma análise de sangue rápida para checar se ele não está anêmico.

A coleta é feita pela veia jugular, localizada no pescoço, por ser um vaso calibroso que permite que o sangue flua rapidamente para a bolsa, evitando que o material coagule.

Nos cães que são calmos, o procedimento dura entre 10 e 20 minutos e é feito apenas com muito carinho e petiscos. No caso dos gatos, pela natureza mais estressada e reativa da espécie, os veterinários costumam utilizar uma sedação leve e segura para evitar que o felino se assuste ou se machuque durante os cerca de 10 minutos de coleta. A quantidade de sangue retirada é calculada com base no peso do animal, garantindo que não faça falta ao organismo do doador.

“A coleta em si costuma durar poucos minutos. Considerando a preparação do animal, avaliação clínica e período de observação após a doação, o processo completo geralmente leva entre 30 minutos e 1 hora. O procedimento é realizado com materiais estéreis e sob supervisão veterinária. Já o processo de transfusão em si, dura em média 4 horas, que deve também ser acompanhado e avaliado pelo médico veterinário”, acrescenta a professora.

Após a doação, o pet recebe água, alimentação e permanece em observação por um curto período antes de retornar para casa. Em geral, a recuperação é rápida e os animais retomam suas atividades normais no mesmo dia.

O intervalo entre as doações varia conforme a espécie e os protocolos adotados por cada banco de sangue veterinário.

Os cães costumam poder doar a cada dois ou três meses, respeitando o tempo necessário para a reposição completa dos componentes sanguíneos. Já os gatos normalmente realizam doações com intervalos maiores, geralmente de três a quatro meses.

Antes de cada nova coleta, o animal passa por uma avaliação para confirmar que continua apto a doar.

Tipo sanguíneo também importa

Assim como ocorre entre humanos, cães e gatos possuem diferentes tipos sanguíneos. Por isso, a compatibilidade entre doador e receptor é um fator fundamental para evitar reações adversas.

Nos cães, o sistema mais comum é o DEA (Antígeno Eritrocitário Canino). Existem mais de 12 tipos catalogados, sendo o DEA 1.1 o mais relevante na rotina clínica. Cães que testam negativo para esse antígeno são considerados os doadores universais da espécie, pois seu sangue pode ser recebido por quase qualquer outro cachorro em uma emergência de primeira transfusão.

Já entre os felinos, a situação é mais restrita e o sistema é dividido em três tipos principais: A, B e o raro AB. Diferente dos cães, os gatos possuem anticorpos naturais muito fortes contra o sangue que não seja do mesmo tipo. Isso significa que um gato do tipo B que receba sangue do tipo A pode sofrer uma reação que leva a morte. Por isso, a tipagem sanguínea nos felinos é obrigatória antes de qualquer procedimento de transfusão.

“Nos gatos, a compatibilidade é mais crítica. Além da tipagem sanguínea, é necessária a realização do teste de compatibilidade cruzada ou crossmatch. Nesse teste, uma pequena amostra do sangue do doador é misturada ao sangue do receptor em laboratório. Se ocorrer aglutinação (agrupamento das células) ou destruição dos glóbulos vermelhos, os sangues são considerados incompatíveis e outro doador deve ser selecionado. A realização da tipagem sanguínea e do teste de compatibilidade possibilita a escolha do doador mais adequado para cada paciente, aumentando as chances de sucesso da transfusão e reduzindo o risco das reações transfusionais”, acrescenta.