Selehe Bembury, guru dos tênis icônicos, decidiu criar uma marca própria
Designer de calçados conhecido por seu trabalho na Versace lança livro sobre sua carreira e revela que já trabalhou anonimamente para grandes marcas

Salehe Bembury imagina como seria uma retrospectiva de sua carreira. O aclamado designer de calçados, reconhecido por liderar a entrada da Versace no mercado de tênis, tem uma vasta obra para exibir. Do desfile à rua, ele já desenvolveu projetos para Yeezy, New Balance, Crocs, Puma, Moncler e outras marcas. No entanto, ele fantasia sobre uma "sala proibida" na exposição; um lugar onde "você pode ver projetos em que trabalhei e que ninguém conhece".
Sim, Bembury, apesar de seu trabalho inimitável, já atuou como designer fantasma — inclusive para grandes nomes. Ele simplesmente não pode falar sobre isso devido a acordos de confidencialidade. Um dia ele talvez possa revelar esses segredos. Mas não hoje.
O designer de 39 anos confessou que havia esquecido que mencionou isso em seu novo livro.
"Salehe: I Make Shoes" é o aguardado livro de arte que conta a história da notável carreira de Bembury até o momento. Combinando entrevistas, ensaios, ilustrações e fotografias espontâneas, o livro leva os leitores ao mundo específico e complexo dos tênis de luxo. "Acho que não existem muitos livros que honram este universo em que estamos — tênis, cultura hype", disse ele.
"Para qualquer jovem designer que está tentando descobrir seu caminho e entender como pivotar ou se mover ou pular para o próximo trabalho, ou lidar com sua incerteza ou vulnerabilidade — este livro traz isso através das minhas histórias e das minhas experiências", acrescentou.
Os tênis são uma indústria multibilionária, embora poucos designers sejam nomes conhecidos. A marca geralmente é soberana. Apenas algumas exceções atravessaram para a cultura popular, sendo a lenda da Nike, Tinker Hatfield, o principal entre eles. Bembury está seguindo esse caminho.
Bembury veio dessa cultura. Quando criança nos anos 90, fosse assistindo à NBA ou "Um Maluco no Pedaço", ele observava o que as pessoas calçavam. Cresceu em Nova York, a poucos quarteirões dos vendedores de produtos falsificados da Canal Street, embora prezasse demais os originais para comprar imitações.
Ele era atraído pela Nike — Jordan 11s, Presto, Air Footscape — e pelas narrativas que a marca construía em torno de seus lançamentos. Mas não era radical; ainda conseguia apreciar um tênis como o AND1 Too Chillin, que quebrou paradigmas e o fez olhar para calçados de maneira diferente.
Bembury soube desde cedo que queria desenhar tênis. Seu sonho era trabalhar para a Nike. Seus pais eram artísticos, mas quando se tratava de seu futuro, o direcionaram para um meio-termo prático. Formou-se em design industrial pela Universidade de Syracuse — uma decisão que acabou sendo "extremamente útil", refletiu ele, "porque este é um trabalho de comunicação e milímetros."
Desde então, ele embarcou no que chama de "busca utilitária". "Não estou apenas procurando fazer coisas que pareçam legais, elas precisam funcionar", explicou. "Porque se não funciona, é arte."
Bembury conseguiu sua primeira oportunidade em 2011, quando foi contratado pela equipe de inovação da Cole Haan, que pertencia à Nike na época. Com liberdade para experimentar, ele brincou criando conceitos híbridos em uma "fábrica de chocolate do Willy Wonka de expressão criativa", como ele escreve. De lá, foi para a startup de calçados Greats, onde mais de seus designs foram lançados. Começou a participar do marketing e a cultivar seu próprio público. Então, em 2015, o artista anteriormente conhecido como Kanye West (agora Ye) o procurou.
O designer mudou-se para a Costa Oeste para se juntar à equipe de Ye, onde criou botas militares para a terceira e quarta coleções da Yeezy.
Como chefe, "(Ye) era extremamente motivado e inspirado", lembrou. "Meu trabalho lá era ser seu lápis, dar vida às suas ideias e tentar não atrapalhar."
"Poder aprender com ele e ser uma espécie de observador naquele espaço foi extremamente educativo", acrescentou. O designer se viu circulando em novos círculos influentes — com artistas vanguardistas como 2 Chainz e designers como o falecido Virgil Abloh.
"A Yeezy foi uma espécie de porta de entrada", disse ele.
"Durante esse período, qualquer pessoa que trabalhasse com Kanye era como se fosse ungida com uma espécie de poeira mágica dele. Isso me permitiu entrar no universo da alta moda e ser respeitado e ouvido."
Mas após deixar a Yeezy em 2016, Bembury passou por um período difícil. Trabalhou como freelancer por um tempo. Com recursos escassos, disparou uma série de propostas para pessoas no LinkedIn. Uma delas foi para Dean Quinn, então diretor de design da Versace.
"Ultimamente tenho omitido essa parte da história porque as pessoas ficam muito fixadas nela, mas eu estava no banheiro quando enviei a mensagem", confessou Bembury.
Bembury argumentou que a Versace estava perdendo oportunidades por não explorar o mercado de tênis, e que a força da marca se traduziria bem nesse segmento. (A Gucci, em comparação, já fabricava tênis desde os anos 80.) Três dias depois, segundo ele, Donatella Versace lhe enviou um convite para Milão. Em setembro de 2017, Bembury começou a se reportar diretamente a ela como diretor de design de tênis.
Seu maior sucesso na Versace foi o Chain Reaction, que se inspirava na iconografia da casa de moda, incluindo um solado robusto que lembrava uma corrente grossa de ouro. Os tênis se tornaram presença constante em shows e desfiles - tanto na passarela quanto na primeira fila.
Enquanto isso, Bembury conquistava suas próprias liberdades criativas. Seu contrato com a Versace permitia que ele participasse de um número limitado de colaborações com outras empresas. Ele escolheu a empresa chinesa de artigos esportivos ANTA e a New Balance.
Ainda mais de sua personalidade ficou em evidência: combinações de cores vibrantes e contrastantes, além de solados elaborados e de alta tecnologia no ANTA SB-01 e no New Balance Yurt.
Neste último, ele famosamente adicionou um apito no calcanhar. "Na verdade, eu tive a ideia do apito antes mesmo de pensar no porquê", disse ele. Mas afirma que frequentemente recebe vídeos de corredores de trilha testando o apito nas florestas.
"O consumidor não sabe o que quer até você mostrar a ele", acrescentou Bembury – "uma homenagem a Steve Jobs."
Quando deixou a Versace em 2020, ele ocupava o cargo de vice-presidente de tênis e calçados masculinos. Como designer independente consolidado e com público fiel, Bembury entrou em sua fase mercenária, sendo contratado para revolucionar marcas, torná-las descoladas e ampliar seu público.
A Crocs foi um exemplo perfeito: Em 2021, ele criou o Pollex Clog, uma versão ondulada e com nervuras do clássico modelo Crocs. O design tinha as digitais de Bembury por toda parte — literalmente, já que o design 3D era uma combinação das impressões digitais dos dedos das mãos e polegares do designer. Ele já vinha brincando com a ideia de usar uma impressão digital como sua marca registrada, e como primeiro colaborador que a Crocs permitiu desenhar um calçado do zero, "pareceu a oportunidade perfeita", disse ele.
Foi um estouro. Os modelos eram para adultos e crianças; para Marc Jacobs e para pessoas comuns. Bembury conta que as pessoas lhe enviavam mensagens diretas dizendo: "Você é o motivo pelo qual estou usando Crocs pela primeira vez". Os executivos da Crocs perceberam o potencial (ele renovou seu contrato com a marca em 2023).
"O momento Crocs foi crucial", disse Bembury. "Eu estava vivendo nesse nicho muito específico do streetwear hype, e isso era algo que foi feito para todo mundo."
Bembury transcendeu a bolha dos tênis e provou que seus designs podiam trazer novos consumidores para uma marca. Ainda mais empresas queriam trabalhar com ele: Clarks, Vans, Moncler. Ele desenhou roupas para uso externo para a Canada Goose e arte de capa para o rapper Wiz Khalifa. Reforçou sua presença no mercado mainstream de tênis com uma importante parceria com a Puma.
Ainda assim, ele não aceitou todas as ofertas. O Wall Street Journal reportou que Bembury foi procurado pela Nike — seu sonho de infância — há alguns anos, mas recusou a oferta devido aos termos do contrato.
"Embora eu reconheça que isso seja um fato, não quero falar mais sobre o assunto", disse Bembury, que estava insatisfeito com o fato de esse detalhe ter "dominado a conversa."
Mesmo aqueles que não conseguiam contratá-lo buscavam sua inspiração. "Não quero criar polêmica, mas um designer de uma empresa praticamente me disse que meu trabalho é o mais visto em seus painéis de referência. Isso ajudou a confirmar algumas suspeitas", revelou Bembury.
Apesar de todas as evidências, o designer se sente desconfortável com a ideia de ter influência. "Não sei se houve um momento em que pensei "sou o cara"", disse ele. Mas reconhece que tem "um público", que será necessário para seu próximo empreendimento — sua própria marca de tênis, Spunge, lançada em outubro.
A mudança é "mais do que necessária", explicou. "Existem poucas pessoas no setor de calçados que conseguiram cultivar o público que tenho; que tiveram o sucesso que tenho. E tudo isso sob — ou melhor, estava sob — o nome de uma marca diferente. Faz todo sentido que alguém com sucesso contínuo nesse setor decida seguir seu próprio caminho."
"É hora de colocar em prática tudo o que aprendi", acrescentou.
O primeiro modelo da Spunge, Osmosis, é vendido por US$ 150 e combina um tênis esportivo elegante com um calçado para trilha resistente, com cores que remetem mais ao segundo estilo (Bembury é um entusiasta de atividades ao ar livre). Ele afirma que mais dois designs estão "praticamente prontos" e um terceiro está em desenvolvimento.
A mudança tem sido significativa para Bembury. O homem que já foi o braço direito de Ye agora tem sua própria equipe para delegar ideias — "inicialmente uma experiência muito desconfortável", admitiu, mas necessária para executar sua visão.
"Isso não é uma jogada de marketing. Não é um lançamento pontual. Não é um momento passageiro", disse Bembury. "É uma marca para sempre. É ter propriedade."


