PF cumpre mandados em ação que investiga caixa 2 de Serra em campanha eleitoral


Jéssica Otoboni, da CNN, em São Paulo
21 de julho de 2020 às 07:10 | Atualizado 21 de julho de 2020 às 15:27

O Ministério Público de São Paulo e a Polícia Federal deflagaram, na manhã desta terça-feira (21), uma operação que investiga a existência de caixa 2 na campanha de José Serra (PSDB) ao Senado em 2014.

A Operação Paralelo 23 – terceira fase da Lava Jato junto à Justiça Eleitoral de SP – cumpre 4 mandados de prisão temporária e 15 de busca e apreensão em São Paulo, Itatiba, Itu e Brasília. O gabinete e o apartamento funcional de Serra na capital federal também foram alvos de buscas. Foi determinado o bloqueio judicial de contas bancárias dos investigados.

De acordo com o colunista Igor Gadelha, fontes do Senado dizem que os agentes da PF estão com dificuldades para entrar no gabinete de Serra porque a decisão que autorizou a operação seria da primeria instância e não do Supremo Tribunal Federal (STF). As fontes afirmam que a Polícia Legislativa do Senado só aceita essa ação quando há uma decisão do STF.

Um dos mandados de prisão cumpridos nesta manhã é contra José Seripieri Junior, fundador e ex-presidente da empresa Qualicorp, uma seguradora de planos de saúde, segundo informações da PF. 

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A investigação contou com acordos de colaboração premiada, quebra do sigilo bancário, troca de informações com o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e testemunhos de pessoas relacionadas ao caso.

Veículo da Polícia Federal durante operação

Operação Paralelo 23 cumpre 4 mandados de prisão temporária e 15 de busca e apreensão em São Paulo, Brasília, Itatiba e Itu

Foto: Flávia Martins - 21.jul.2020 / CNN

Os agentes descobriram indícios de que Serra teria recebido cerca de R$ 5 milhões em doações eleitorais não contabilizadas (caixa 2), repassadas por meio de operações financeiras e societárias simuladas, ocultando a origem ilícita dos valores recebidos.

Em entrevista coletiva, a PF disse que houve três repasses - um de R$ 3 milhões e dois de R$ 1 milhão - por meio de um esquema financeiro. Segundo a corporação, a maior parte dos crimes se concentrou em SP.

O inquérito teve a colaboração de indivíduos que teriam sido contratados em 2014 para estruturar e realizar os pagamentos das doações eleitorais. Elas teriam sido feitas a mando de Seripieri Junior.

Os agentes também descobriram a existência de outros pagamentos feitos por grandes empresas, sendo uma delas do ramo de nutrição e outra da construção civil, destinados a uma das companhias que seria utilizada por Serra para ocultar o recebimento das doações.

Os investigados responderão pelos crimes de associação criminosa, falsidade ideológica eleitoral e lavagem de dinheiro. As penas previstas vão de 3 a 10 anos de prisão.

Como o parlamentar ainda está no exercício do mandato no Senado, as investigações sobre ele se restrigem aos fatos de 2014. Quanto aos demais, os investigadores buscam provas de prática de crimes conexos.

Outro lado

Em nota, Serra disse que "foi surpreendido nesta manhã com nova e abusiva operação de busca e apreensão em seus endereços, dois dos quais já haviam sido vasculhados há menos de 20 dias pela Polícia Federal". Para ele, a "decisão da Justiça Eleitoral é baseada em fatos antigos e em investigação até então desconhecida" por ele e sua defesa.

Serra afirmou que jamais foi ouvido e "lamenta a espetacularização que tem permeado ações deste tipo no país". Ele destacou "que jamais recebeu vantagens indevidas ao longo dos seus 40 anos de vida pública e sempre pautou sua carreira política na lisura e austeridade em relação aos gastos públicos".

"Importante reforçar que todas as contas de sua campanha, sempre a cargo do partido, foram aprovadas pela Justiça Eleitoral. Serra mantém sua confiança no Poder Judiciário e espera que esse caso seja esclarecido da melhor forma possível, para evitar que prosperem acusações falsas que atinjam sua honra", de acordo com a nota.

O advogado Celso Vilardi, que defende o empresário José Seripieri, irá se manifestar assim que tiver acesso aos autos

Investigações

Na semana passada, o deputado federal Paulinho da Força (Solidariedade-SP) foi alvo de uma operação da PF e do Ministério Público Eleitoral (MPE). Os agentes cumpriram sete mandados de busca e apreensão em São Paulo e em Brasília, inclusive no gabinete do parlamentar. A Operação Dark Side foi a primeira fase da Lava Jato junto à Justiça Eleitoral de SP. 

Em abril, a força-tarefa do MPSP denunciou o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, o empresário Marcelo Odebrecht e o publicitário Duda Mendonça pelos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e caixa 2. Todos viraram réus. 

Skaf concorreu ao governo paulista em 2014, e teve sua campanha eleitoral gratuita dirigida por Duda. Outras seis pessoas são acusadas de terem concorrido para realizar os delitos, incluindo Paulo Luciano Rossi, irmão do deputado Baleia Rossi (MDB-SP).

 

(Com informações de Basília Rodrigues e Tainá Farfan, da CNN, em Brasília, e Julyanne Jucá, da CNN, em São Paulo)