Queimadas no Pantanal: 5 respostas para as perguntas mais comuns


Luana Franzão* da CNN, em São Paulo
11 de setembro de 2020 às 14:02 | Atualizado 11 de setembro de 2020 às 15:26
Fogo no Pantanal

Incêndios no Pantanal já atingem 2,3 milhões de hectares

Foto: Jorge Salomão Júnior/BBC

Segundo dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisa Espacial), mais de 2,3 milhões de hectares do Pantanal já foram consumidos pelo fogo em 2020.

A área corresponde a quase três vezes a região metropolitana de São Paulo — ou dez vezes a área dos municípios de São Paulo e Rio Janeiro somados. 

O Inpe calcula que aproximadamente 15% da área do Pantanal foi consumida pelas chamas.

Os números expressivos ganharam destaque nacional e internacional e têm gerado dúvidas com relação à área. A CNN explica as mais comuns em buscas na internet:

Onde fica o Pantanal?

Mapa do Pantanal brasileiro

O Pantanal brasileiro fica nos estados do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul

Foto: CNN Brasil/Google
 
O Pantanal é uma área de vegetação úmida que é regada pelos rios da bacia do Rio Paraguai (ou bacia do Alto Paraguai).

Ele se estende pelos estados brasileiros de Mato Grosso e principalmente Mato Grosso do Sul, que acolhe 60% da área da vegetação.

O bioma não ocupa somente territórios brasileiros, se estendendo também para Paraguai e Bolívia.

O Pantanal é um pântano?

Não, o Pantanal não é um pântano. Ele é uma planície inundável.

Entretanto, uma das principais características dessa região é a época de inundação, quando o Rio Paraguai e outros invadem regiões de vegetação — de dezembro a fevereiro —, tornando o local extremamente úmido em meio a um ambiente tradicionalmente mais seco.

Em outras estações, as chuvas são menos intensas, e as inundações mais raras, mas ainda assim, a área continua sendo úmida.

O Pantanal sofre influência principalmente de três outros biomas brasileiros: a Amazônia, o Cerrado e a Caatinga, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente. Além disso, também é afetado pelo Chaco, encontrado em outras regiões da América do Sul — como na Bolívia e no Paraguai.

Segundo o professor do Instituto de Biologia da UFMS (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul) Geraldo Alves Damasceno Junior, “o Pantanal é uma vegetação mais recente, que acabou recebendo um conjunto de espécies que ocorrem também na Amazônia. O Rio Paraguai nasce quase na divisão entre a Bacia do Paraguai e a Bacia Amazônica. Então, ali criou-se corredor por onde espécies amazônicas também adentram o bioma”.

Ele também explica que uma outra relação importante entre as duas áreas de vegetação é que as chuvas que causam as inundações pantaneiras são formadas a partir da umidade da Amazônia.

Se há focos de incêndios todos os anos, por que as queimadas de 2020 estão em destaque?

Segundo o biólogo, incêndios são comuns e naturais na época de seca do Pantanal, que geralmente acontece entre junho e setembro.

O que acontece agora, que difere do normal, é que o clima está excepcionalmente seco, fazendo com que locais que são cobertos pela água mesmo em períodos de pouca chuva, estejam secos e descobertos. 

“O que aconteceu, é que algumas áreas não permaneceram inundadas durante a seca, então há uma biomassa muito grande acumulada e exposta, que ficou disponível para a queima”, afirmou Damasceno.

Com pouca umidade, fica difícil controlar e combater as queimadas, que batem recordes.

Entre janeiro e agosto desse ano, o número de focos de incêndio registrado no Pantanal equivale a tudo o que queimou no bioma nos seis anos anteriores, de 2014 a 2019.

Por que os incêndios são preocupantes?

Bombeiro em meio à vegetação queimada

Incêndio no Pantanal pode ter consequências no futuro

Foto: Corpo de Bombeiros MT

A região do Pantanal possui uma fauna e uma flora exuberante, que podem ser intensamente prejudicadas pelo fogo.

Segundo a Embrapa Pantanal, mais de 2.000 espécies de plantas já foram registradas na área, muitas com potencial medicinal.

O bioma também abriga, de acordo com o Ministério do Meio Ambiente, mais de 1.000 espécies animais, das quais algumas são endêmicas, ou seja, só ocorrem naquela região.

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"Animais de muitas espécies vão perecer, vão morrer. Inegavelmente há um prejuízo grande para a fauna, principalmente nesses incêndios muito extensos, em que você tem enormes áreas sendo devastadas, e o bicho não tem para onde correr", diz o professor da UFMS.

Além disso, o Pantanal, por ser uma área úmida em meio a uma região predominantemente de clima mais seco, torna-se uma fonte importante de água potável e umidade — para os humanos e outras espécies.

De acordo com Damasceno Junior, a região também tem uma enorme capacidade de absorção de carbono, fato que se torna cada vez mais relevante no contexto de mudanças climáticas. Ao ajudar a absorver a grande quantidade de carbono — por veículos, uso de combustíveis fósseis, fábricas, entre outras formas —, o Pantanal pode mitigar os efeitos do gás na atmosfera.

O bioma tem também o seu papel na economia da região, principalmente por sua vocação turística. "Em função da fisionomia aberta do Pantanal, é muito mais fácil você observar a paisagem quando você está dentro dele, diferentemente da Floresta Amazônica, onde a vegetação é fechada", explica Damasceno.

A pesca é uma outra atividade que sustenta muitos moradores da região. De acordo com a Embrapa Pantanal, existem por volta de 263 espécies de peixes no bioma, que alimentam e garantem a subsistência de diversas cidades do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul.

O fogo pode afetar a sobrevivência desses animais, que já estão sendo prejudicados pela seca atípica.

Podem existir consequências dessas queimadas no futuro?

Segundo o biólogo da UFMS, é difícil entender agora quais serão todas as consequências dessas queimadas para o bioma futuramente.  

Ele explica que a vegetação do bioma possui uma alta capacidade de regeneração e eventualmente voltará a prosperar — se houver cuidado e proteção da região.

JAcaré morto

Animais estão sofrendo com o fogo na região

Foto: Ahmad Jarrah/A Lente

Para os animais, entretanto, o golpe pode ser pior. Muitos morrem em decorrência do fogo, seja diretamente, pela destruição de seus habitats ou pela falta de água.

A recuperação da fauna é mais penosa, extensa e exige muita preservação para se curar.

"O Pantanal tem uma exuberância muito grande em termos de beleza. Nós temos um conjunto único de flora e fauna ali", diz o professor, que alerta para os perigos, mas não perde as esperanças: "O Pantanal é muito resiliente".

*sob supervisão de Leandro Nomura