Pandemia aumenta evasão escolar, diz relatório do Unicef

A quantidade de alunos, com idades entre 6 e 17 anos, que abandonaram as instituições de ensino foi de 1,38 milhão

Paula Forster, da CNN, em São Paulo
28 de janeiro de 2021 às 10:30 | Atualizado 29 de janeiro de 2021 às 06:42
Pandemia afetou educação no Brasil
Pandemia afetou educação no Brasil
Foto: Adriano Machado/Reuters 

Reprovação, abandono do ensino e distorção entre idade e série escolar são problemas recorrentes no cenário educacional brasileiro. Com a pandemia da Covid-19, essa realidade foi acentuada e a disparidade socioeconômica do país ficou ainda mais evidente.

No ano passado, foram cerca de 5,5 milhões de crianças e adolescentes sem acesso à educação. A quantidade de alunos, com idades entre 6 e 17 anos, que abandonaram as instituições de ensino foi de 1,38 milhão, o que representa 3,8% dos estudantes. A taxa é superior à média nacional de 2019, quando ficou em 2%, segundo dados da Pnad Contínua. Somado a isso está a situação de 4,12 milhões de alunos (11,2%) que, apesar de matriculados e sem estar em período de férias, não receberam nenhuma atividade escolar, resultado do ensino pautado pelas aulas online.

Os dados estão compilados em estudo do Unicef (Fundo de Emergência Internacional das Nações Unidas para Infância), intitulado "Enfrentamento da cultura do fracasso escolar", divulgado nesta quinta-feira (28) e que reflete a realidade de muitos dos jovens do Brasil, especialmente àqueles em situação de maior vulnerabilidade. Segundo o relatório, que contou com parceria do Instituto Claro, o perfil das crianças e adolescentes mais impactados pelo “fracasso escolar” já é bastante conhecido: “se concentram nas regiões Norte e Nordeste, são muitas vezes negras e indígenas ou estudantes com deficiências”.

 

Lucas, estudante do 9º ano do Ensino Fundamental II e morador da Brasilândia, zona Norte da cidade de São Paulo, deixou os estudos no ano passado. Hoje, aos 17 anos, começou a trabalhar como mecânico com o pai. “A realidade dele é a mesma que a de muitos jovens por aqui”, conta o líder comunitário Rodrigo Olegário. “Tem uma família que, entre sobrinhos, primos, irmãos, somam umas 10 crianças que abandonaram a escola no ano passado”, comenta. Entre os motivos está a falta de acesso aos recursos tecnológicos e à internet, o que inviabiliza o acompanhamento das aulas remotas, e, também, o fato de precisar contribuir com renda dentro de casa, necessidade que aumentou em meio ao contexto de pandemia.

Pesquisa realizada entre o final de abril e o início de maio de 2020, com quase 4.000 redes municipais de ensino, mostrou que apenas 33% dos domicílios brasileiros possuem computador e acesso à internet. O levantamento foi feito pela União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e pelo Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), em parceria com o Centro de Inovação para a Educação Brasileira (Cieb), Fundação Itaú Social, Fundação Lemann e Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Cenário de 2019

De acordo com o relatório “Enfrentamento da cultura do fracasso escolar”, em 2019, o Censo Escolar registrou mais de 27,7 milhões de matrículas nas instituições das redes públicas municipais e estaduais de Educação Básica em todo o país. Deste total, 2,1 milhões de alunos foram reprovados, sendo que a maioria das repetições (42,6%) aconteceram nos anos finais do Ensino Fundamental. Além disso, mais de 620 mil estudantes abandonaram de vez os estudos, principalmente os alunos do Ensino Médio e dos anos finais do Ensino Fundamental.

As reprovações e abandonos escolares trazem como consequência um terceiro problema: a distorção entre idade e série escolar. Em 2019, 6 milhões de jovens se encontravam nesta situação, com pelo menos dois anos acima da idade considerada ideal em relação ao ano escolar.