Com vacinação atrasada, cidade do RJ cria posto ‘secreto’ para aplicar Coronavac

Duque de Caxias tem 50 mil pessoas na fila de espera, mas apenas 2,6 mil doses do imunizante – que serão aplicadas em local não divulgado ao público

Stéfano Salles, da CNN no Rio de Janeiro
03 de maio de 2021 às 08:32 | Atualizado 03 de maio de 2021 às 12:07

Com quase um milhão de habitantes, Duque de Caxias, cidade da Baixada Fluminense, tem nesta segunda-feira (3) um ponto de vacinação 'secreto'. A prefeitura diz possuir 2,6 mil doses da Coronavac, mas um saldo de mais de 50 mil pessoas com a aplicação da segunda dose em atraso – por isto, toda a carga será aplicada em apenas um local, que não foi divulgado ao público pelo município.

A informação foi confirmada pela própria Secretaria de Comunicação de Duque de Caxias. De acordo com a pasta, a prefeitura vai telefonar para cerca de 2,6 mil pessoas, para que se dirijam ao local indicado e recebam a aplicação do imunizante produzido pelo Instituto Butantan.

A estratégia de não divulgar o local tem como objetivo evitar que se formem aglomerações na porta da unidade, explica o secretário Aroldo Brito.

“Nós temos 2,6 mil vacinas, vamos ligar para 2,6 mil pessoas que estão com a segunda dose atrasada. Não vamos divulgar para não ter 30 mil pessoas no local e criar tumulto. Não vamos fazer isso por questão de segurança”, afirmou o secretário.

O município recebeu no domingo (2), da Secretaria de Estado de Saúde (SES), 2.260 doses de Coronavac para serem aplicadas como segunda imunização. A CNN apurou que o local escolhido para que as doses sejam inoculadas é uma unidade de saúde do Centro.

De acordo com o Ministério da Saúde, Duque de Caxias teve 67,7 mil pessoas vacinadas com a primeira dose e 13,7 mil com a segunda. Ou seja: 54 mil pessoas aguardam a aplicação complementar ou o prazo para voltar ao posto de saúde para recebê-la na data estipulada.

Médica sanitarista e professora de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Lígia Bahia recebeu com espanto a notícia de que o município criara um posto "secreto" de vacinação.

"Nunca vi nada assim. Estão transformando o público em privativo, secreto. Duque de Caxias tem sido um ponto fora da curva permanente. O critério é absolutamente inadequado. Com essa escassez de doses é absolutamente imprescindível tornar público quem será vacinado", explica a especialista.

Frasco com Coronavac, vacina contra Covid-19, em São Paulo
Frasco com Coronavac, vacina contra Covid-19; Duque de Caxias tem 2,6 mil doses e 50 mil pessoas na fila para tomar segunda dose
Foto: Divulgação/Governo do Estado de São Paulo (2.mar.2021)

Para a pesquisadora, a falta de imunizantes deve fazer com que os municípios sejam ainda mais criteriosos no uso das doses que estiverem à disposição.

"Não é difícil estabelecer prioridades entre prioridades. Idosos acamados, hospitalizados, em tratamento para câncer. Um balizamento baseado em maiores riscos e não numa lista de telefones", conclui Bahia.

Procurados, a SES e o Ministério da Saúde não responderam até o momento os contatos feitos pela CNN sobre quais as recomendações para casos como esse, de gestão de vacinas com aplicação em atraso, de acordo com o Plano Nacional de Imunização (PNI).

Duque de Caxias recebeu, também da SES, no domingo, 24.020 doses da vacina do laboratório anglo-sueco AstraZeneca, produzidas pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), para uso como primeira dose.

Nessa fase, o calendário segue público e são vacinadas pessoa com comorbidades, desde que tenham a partir de 50 anos, além de profissionais de educação.