Mortes de defensores da Amazônia abalam imagem do país há mais de três décadas

“É muito forte, é muito parecido", diz irmã à CNN de castanheiro e ambientalista José Cláudio Ribeiro, assassinado no Pará em 2011

Lucas RochaJosé Britoda CNN

Em São Paulo

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O jornalista inglês Dom Phillips e o indigenista brasileiro Bruno Araújo Pereira estavam desaparecidos em Atalaia do Norte, no Vale do Javari, no Amazonas, desde o dia 5 de junho.

Amarildo Oliveira da Costa, conhecido como Pelado, suspeito de participação no desaparecimento confessou ter participado do assassinato da dupla. Ainda falta a perícia, que analisa os restos mortais encontrados no local, para confirmar as mortes.

Especialistas e profissionais que atuam na Amazônia afirmam que a criminalidade na região coloca em risco a vida de povos indígenas e da população local.

As mortes de Phillips e do indigenista entram para um capítulo sombrio da história brasileira.

A Amazônia Legal, que se expande para além do Amazonas e engloba os estados do Pará, Maranhão, Tocantins, Mato Grosso, Rondônia, Acre, Roraima e Amapá, é uma região rica em biodiversidade e abriga inúmeras comunidades indígenas – o Vale do Javari é o local com a maior concentração de povos isolados do mundo. 

Pela sua riqueza e localização, fazendo fronteira com sete países, é alvo de garimpeiros, grileiros, narcotraficantes, madeireiros, pescadores e caçadores ilegais.

Crimes na Amazônia
/ Arte/CNN Brasil

Defensores da região e de seus povos são constantemente alvos desses criminosos. Ameaças contra pessoas que trabalham na região de Atalaia do Norte, onde o indigenista e o jornalista inglês desapareceram, têm crescido, segundo relatou a auxiliar de coordenação da União das Organizações Indígenas do Vale do Javari (Univaja), Soraya Zaiden, em entrevista à CNN.

“A gente tem visto isso aumentar. Desde ameaças anônimas, até mesmo algumas ameaças que aconteceram com violência”, afirmou.

Pereira era um dos alvos dessas ameaças, e Phillips também atuava na região relatando em reportagens internacionais os problemas pelos quais passavam os indígenas e outros povos com as pressões da exploração criminosa da área.

Quando comunicou o desaparecimento da dupla, a Univaja (União das Organizações Indígenas do Vale do Javari) citou supostas ameaças sofridas pela dupla.

“Na semana do desaparecimento, conforme relatos dos colaboradores da Univaja, a equipe recebeu ameaças em campo. A ameaça não foi a primeira, outras já vinham sendo feitas a demais membros da equipe técnica da Univaja, além de outros relatos já oficializados para a Policia Federal, ao Ministério Público Federal em Tabatinga, ao Conselho nacional de Direitos Humanos e ao Indigenous Peoples Rights International”, dizia o comunicado.

Relembre casos de ativistas que morreram em defesa da floresta.

Zé Cláudio e Maria (2011)

Os extrativistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo
Ipixuna (PA) – 29/04/2004 – Os extrativistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo, sua mulher, da Associação Agroextrativista Nova Ipixuna / J.SOBRINHO/ESTADÃO CONTEÚDO/AE

O casal de castanheiros e ambientalistas José Cláudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo também morreu lutando pela Amazônia. Em 24 de maio de 2011, eles foram alvos de uma emboscada em Nova Ipixuna, no Pará.

Meses antes, em novembro de 2010, José Cláudio disse, em uma palestra, que estava vivendo com “uma arma apontada para a cabeça”. O caso teve grande repercussão nacional.

O mandante do crime, José Rodrigues Moreira, foi condenado a 60 anos de prisão em 2016, mas está foragido desde então.

A CNN procurou a irmã de Zé Cláudio, Claudelice dos Santos, e ela aceitou dar entrevista, desde que sob a condição de não revelar em qual cidade paraense ela estava nesse momento.

“Quando acontece um assassinato como esse do Dom e do Bruno, só o fato de estar falando com a imprensa sobre o caso para repercutir, a gente já fica desconfiada, precisamos fazer uma autoproteção que, porque o Estado não nos protege”, diz.

No final de 2019, um bilhete foi colocado na caixa de correios da mãe de Claudelice dizendo que iriam matar o resto da família e que não estavam de brincadeira. Um ano depois, Claudelice revela que a filha dela dirigia o seu carro e foi perseguida por uma caminhonete com o intuito de aterrorizar, como se quisesse fechar o veículo para uma emboscada.

Desde então, ela explica que não fica em um mesmo lugar por muito tempo e nunca usa os mesmos caminhos para ir e voltar. A irmã de Zé Claudio falou sobre como a família reviveu o desaparecimento de Dom Phillips e Bruno Araújo.

“É muito forte, é muito parecido. Tem muitos pontos que são muito similares ao caso do Zé Cláudio e da Maria. Inclusive a minha mãe passou mal ontem com a morte do Dom e do Bruno”, conta.

A gente fica completamente em choque. Eu já estou no nível de estresse, misturado com medo, com terror… Esse Estado é que criou essa atmosfera de medo no povo. No campo e na floresta, o desmonte que o Estado provoca nos deixa ainda mais vulneráveis

Claudelice dos Santos

 

Para Claudelice, o caso do Dom e do Bruno prova que o Estado é incapaz de olhar, ouvir e proteger os defensores dos direitos humanos e ambientais. Inclusive, seus aliados, porque o Bruno era um servidor do governo.

“E o caso do rapaz, que também era servidor, que foi assassinado antes? E quantos outros também estão na mesma situação nesse mesmo momento denunciando que vão morrer e sofrendo ataques. Tudo de um modo muito parecido. Por que o Estado não investiga quando estão vivos? Ai quando morre, faz coletiva”, diz.

Após quase cinco anos foragido, Lindonjonson Silva Rocha, condenado a 42 anos e 8 meses de prisão pelo assassinato do casal de extrativistas foi recapturado por policiais civis, em agosto de 2020. Alberto Lopes do Nascimento, o outro condenado como pistoleiro do crime, foi condenado a 45 anos de prisão e está preso, na capital Belém.

As buscas pelo irmão de Lindonjonson, José Rodrigues Moreira, condenado a 60 anos de prisão como mandante dos assassinatos e que segue em paradeiro desconhecido. Segundo investigações da Polícia Civil, Rodrigues havia comprado dois lotes de terra de dentro da PAE e estava incomodado com as denúncias de Zé Claudio e Maria.

 

“Ainda, hoje, 11 anos depois e mesmo com toda a repercussão, não teve justiça para o meu irmão e cunhada. E essa impunidade é combustível para os pistoleiros, mandantes e intermediários. A impunidade é o combustível para os conflitos. E as investigações nunca chegam nos verdadeiros articulares das mortes. Não podemos mais permitir que eles não sejam punidos. O Estado só dá o que o povo quer: quem executou o crime.”, lamenta Claudelice.

Dorothy Stang (2005)

Missionária norte-americana Dorothy Stang / Carlos Silva/Estadão Conteúdo

A missionária norte-americana Dorothy Stang foi assassinada em 2005. Naturalizada brasileira, ela pertencia à Congregação das Irmãs de Notre Dame de Namur e atuava na Comissão Pastoral da Terra (CPT), em Anapu, no Pará.

Mesmo ameaçada de morte, Dorothy seguida com sua atividade pastoral e buscava a geração de emprego e renda com projetos de reflorestamento em áreas degradadas, junto aos trabalhadores rurais da área da Rodovia Transamazônica. Ela também lutava pela redução dos conflitos agrários na região.

A religiosa foi morta com seis tiros no lote 55 do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) – Esperança, em 2005. O assassinato, motivado por disputa de terras, foi encomendado pelos fazendeiros Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, e Regivaldo Pereira Galvão, conhecido como Taradão.

Galvão foi condenado a 30 anos de prisão por encomendar a morte da missionária em 2011 e preso em 2012. Teve a pena reduzida para 25 anos e foi solto em 2018 por liminar (decisão provisória). Em 2019, ele voltou a ser preso por determinação do STF (Supremo Tribunal Federal). Os outros envolvidos no crime foram julgados e condenados a penas que variam de 17 a 27 anos de prisão.

De 2005 a 2019, de acordo com dados de Centro de Documentação da CPT Dom Tomás Balduino, foram 23 assassinatos em conflitos no campo no município de Anapu.

Chico Mendes (1988)

O seringueiro Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes, ícone da militância na Região Amazônica / Carlos Ruggi/Estadão Conteúdo

Defensor dos direitos humanos, do respeito à floresta e dos seringueiros, Chico Mendes foi um líder político em Xapuri, no estado do Acre.

Nascido em 1944, no seringal Porto Rico, próximo à fronteira do Acre com a Bolívia, Mendes passou a infância e juventude ao lado do pai seringueiro.

Desde cedo, conviveu com injustiças e situações de exploração associadas à atividade econômica da extração da borracha, na Amazônia.

Em 1983, foi eleito presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri. A posição intensificou sua luta pelos direitos dos trabalhadores e pela defesa da floresta.

Dois anos depois, Mendes liderou a organização do primeiro Encontro Nacional dos Seringueiros. Mais de 100 profissionais criaram o Conselho Nacional dos Seringueiros como entidade representativa e elaboraram uma proposta original de reforma agrária: as Reservas Extrativistas.

Os frutos do trabalho resultaram em reconhecimento internacional, que ampliou a visibilidade para as causas de Chico Mendes, ao mesmo tempo em que o tornou um alvo de criminosos.

Em 22 de dezembro de 1988, em uma emboscada nos fundos de sua casa, ele foi assassinado a mando de Darly Alves, grileiro de terras com histórico de violência em vários lugares do Brasil.

Darly e seu filho Darci Alves foram condenados em 1990 a 19 anos de prisão em regime fechado. Eles fugiram da prisão em 1993, e recapturados em 1996. Em 1999, Darly passou a cumprir o restante da pena em prisão domiciliar e Darci, no mesmo ano, ganhou o direito de cumprir o restante da pena em regime semi-aberto.

(Com informações da Comissão Pastoral da Terra e do Memorial Chico Mendes)

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