Brasil está abaixo da meta de redução de mortes em acidentes de trânsito

32.655 brasileiros perderam a vida em acidentes de trânsito em 2018

Trânsito na zona sul de São Paulo
Trânsito na zona sul de São Paulo Foto: CNN (04.mai.2020)

Vital Neto, da CNN em São Paulo

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De acordo com análise do Observatório Nacional da Segurança Viária (ONSV), instituição social sem fins lucrativos, com base em dados do Datasus, 32.655 brasileiros perderam a vida em acidentes de trânsito em 2018. O número é 25% menor do que em 2011, quando o país registrou 43.256 mortes.

Isso significa que, de acordo com as projeções para 2019 e 2020, o Brasil atingiu apenas metade da meta de redução de  mortes no trânsito da Década Mundial de Ação pela Segurança no Trânsito, compromisso firmado entre governos de todo o mundo em 2011.

A meta de redução foi fixada em 50% pelo governo brasileiro. Com isso, o número de mortos em acidentes em 2020 não poderia ser superior a 21.628 pessoas. O estudo do Observatório Nacional da Segurança Viária estima que cerca de 160 mil vidas poderiam ter sido preservadas ao longo da década caso a meta tivesse sido atingida. 

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Para José Aulerio Ramalho, presidente do ONSV “houve uma dezena de pequenas ações isoladas” que foram responsáveis pela redução das mortes. Mas de acordo com o especialista, essa redução não se deve somente à ações de governos ou organizações.

“Houve uma influência muito forte da crise que o brasil viveu de 2015 em diante”, explica. “Se buscarmos os dados estatísticos, vamos perceber que houve uma redução na circulação de veículos. Os indicadores de queda de produção mostram uma queda dessa circulação, já que nossa malha de transportes é rodoviária”.

Dentre as Unidades de Federação, apresentaram maior redução no número de mortes no trânsito ao longo da década o Acre, Amapá e Distrito Federal. Avaliando-se as regiões, o Sudeste foi o que apresentou melhores números, com 33% de redução nos óbitos por acidentes.

Já Mato grosso, Pará e Paraíba contrariaram a tendência nacional e tiveram aumento de até 10% nas mortes no trânsito no período de 2011 a 2018. Com isso, a região Norte foi a que registrou menor redução dos óbitos, com 15% em relação aos números do início do período.

Segundo Ramalho, “falta ao país uma política pública estruturada de redução de sinistros no trânsito”.

O Observatório defende que o termo “acidente” seja substituído por sinistro, pois um acidente é algo inesperado e indesejável que acontece ao acaso, o que não seria o caso dos “sinistros” no trânsito, que podem em sua maioria, ser evitados, seja pela manutenção de veículos e vias, ou pelo cumprimento das regras pelos motoristas.

 

Apenas 3% dos acidentes acontecem com veículos pesados

Do total de das vítimas de em 2018, 3%, ou cerca de 980 pessoas, morreram em acidentes que envolviam veículos pesados, como ônibus e caminhões.

Acidentes de veículo pesados com vítimas fatais, como o que aconteceu no início da manhã desta quarta-feira (25) na rodovia SP-249, no interior de São Paulo, foram mais frequentes nos estados de Mato Grosso, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina em 2018, onde representaram de 4% a 6% dos óbitos no trânsito.

Em contrapartida, Amazonas e Roraima, na Região Norte, e mais cinco estados da Região Nordeste, foram os que apresentaram menor incidência dessas mortes, com percentual inferior a 2% dos óbitos em acidentes de trânsito registrados nesses estados.

Mapa mostra número de mortes no trânsito por unidade da federação em 2018
Mapa mostra número de mortes no trânsito por unidade da federação em 2018
Foto: ONSV

Embora esteja dentro da média nacional para mortes em acidentes de ônibus e caminhões, o estado de São Paulo é o que registrou maior número de óbitos acidentes de trânsito no geral, com 4.549 vidas perdidas no trânsito em 2018.

Quando se pondera o número de mortes pela população, no entanto, São Paulo possui a menor taxa do país, ao lado do Amapá, com menos de 10 mortos por 100 mil habitantes. Com 68 óbitos no trânsito, o Amapá é também o estado que registrou menor número absoluto de mortes em 2018.

Pandemia silenciosa

De acordo com um relatório da Organização Mundial da Saúde, de 2018, naquele ano o mundo atingiu a marca de 1,3 milhão de mortes no trânsito anualmente. Para efeito de comparação, a pandemia do novo coronavírus vitimou 1,4 milhão de pessoas em todo o mundo até a publicação desta reportagem. 

Para Ramalho, acidentes como o de Taguaí servem para chamar a atenção do público para o problema.

“Ficamos muito tristes com a dor dos familiares, as mortes no trânsito não são estatistica, mas um momento como a de hoje serve para tentarmos passar para a sociedade uma lição, uma orientação. Morre uma pessoa a cada 15 minutos no trânsito e ninguém fala nada. A ONU declarou essa a década da redução, entre 2011 e 2020, porque se nada tivesse sido feito, hoje sinistros de trânsito seriam a segunda ou terceira causa de morte no mundo”.

Os dados mencionados por Ramalho não estão errados. De acordo com os dados de 2018, morrem em média 84 brasileiros no trânsito a cada dia, o que significa que as mortes devido a sinistros de automóveis leves e pesados correspondem a queda de um avião a cada dois dias no país.

Educação do condutor seria a chave

Para que um cidadão obtenha licença para dirigir, é necessário passar por uma prova teórica, que exige conhecimento de placas e de leis de trânsito e por uma avaliação prática, em que se demonstre domínio da direção do veículo e aplicação prática das regras, como respeitar os limites de velocidades e seguir a sinalização.

No entanto, para Ramalho, isso por si só não basta. Ele defende que as pessoas sejam preparadas para mais do que apenas passar em uma prova. 

“Os condutores precisam ser orientados a compreenderem a percepção de risco. Se mostrarmos uma placa, a maioria vai saber responder que se trata de uma ‘curva sinuosa à direita’, mas será que todos compreendem os riscos?. E mais, as pessoas sabem como devem agir, como devem conduzir o carro em uma curva dessas? Você aprendeu o que significa a placa, mas não sobre o risco e o comportamento”.

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