Estamos vivendo uma epidemia de violência entre adolescentes, diz pediatra
Daniel Becker destaca aumento da violência entre jovens e aponta fatores como disseminação do ódio nas redes, machismo crescente e famílias permissivas
O Brasil enfrenta uma epidemia de violência entre adolescentes, impulsionada por múltiplos fatores sociais e digitais, alerta o pediatra e ativista pela infância Daniel Becker. Em entrevista ao CNN Prime Time, Becker analisou o caso do adolescente morto por um ex-piloto em Brasília, contextualizando-o em um cenário mais amplo de crescente agressividade juvenil.
Segundo o especialista, nos últimos cinco a seis anos, o país foi tomado por uma onda de disseminação de ódio, especialmente nas redes sociais. "O Brasil foi tomado por uma onda de ódio, principalmente nas redes sociais. Especialmente a partir das eleições de 2018, houve muita disseminação de ódio", afirmou Becker, destacando que existem grupos que estimulam comportamentos violentos, como linchamentos e justiceiros.
Masculinidade tóxica e redes sociais
Um fenômeno preocupante apontado pelo pediatra é o avanço da masculinidade tóxica entre os jovens. "O machismo hoje é mais comum entre meninos jovens do que entre homens velhos de 50 anos", observou, relacionando esse comportamento ao aumento de casos de feminicídio, violência contra crianças e bullying nas escolas.
As redes sociais desempenham papel crucial nesse cenário. Becker explicou que algoritmos expõem meninos adolescentes a conteúdos violentos, misóginos e de intolerância. "Se você abre uma conta de menino adolescente, faz um experimento feito recentemente, em várias ocasiões já. O menino vai ser exposto à misoginia, ao bullying, ao assassinato, ao linchamento", alertou o pediatra.
Territórios digitais perigosos
Plataformas como Discord e Telegram foram descritas pelo especialista como "territórios onde o ódio se espalha com muita facilidade". Nestes espaços, segundo ele, ocorrem transmissões ao vivo de automutilação, tortura de animais e outros conteúdos nocivos acessíveis a crianças e adolescentes.
O pediatra também mencionou jogos populares entre crianças que simulam ataques à escola, que simulam tráfico de drogas, boca de fumo, baile funk, tudo com muita violência, com ostentação de armas.
Responsabilidade familiar e perspectivas de mudança
Daniel Becker enfatizou a responsabilidade das famílias, criticando a permissividade e a falta de educação para valores como empatia e respeito. "Famílias muito permissivas, famílias que não estão assumindo a sua responsabilidade básica de dar uma educação de civilidade, de um mínimo de empatia, de cuidado com o outro", pontuou.
Como medida preventiva, o especialista recomenda manter crianças afastadas das redes sociais até os 16 anos. "Você permitir que um menino ou uma menina de 8 ou 10 anos esteja no TikTok hoje é um crime contra o seu próprio filho", alertou, mencionando prejuízos à saúde mental e capacidade de aprendizado.
Uma perspectiva positiva apontada foi a entrada em vigor do ECA Digital em 17 de março, legislação que responsabilizará as redes sociais por conteúdos nocivos. "Vai responsabilizar as redes sociais por esse tipo de conteúdo. Ele vai necessariamente ter que diminuir, senão elas podem ser punidas severamente", explicou Becker, embora reconheça que as mudanças não serão imediatas.


