Caso Henry Borel: O que se sabe sobre a morte do garoto de 4 anos

Caso era apurado inicialmente pela polícia como acidente; após depoimentos, apreensões e reconstituição, mãe e padrasto da criança passaram a ser investigados

Henry Borel, de 4 anos, morreu em 8 de março; padrasto e mãe falam em acidente, mas polícia investiga agressão
Henry Borel, de 4 anos, morreu em 8 de março; padrasto e mãe falam em acidente, mas polícia investiga agressão Foto: Reprodução/Instagram

Murillo Ferrari, da CNN, em São Paulo

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A Polícia Civil do Rio de Janeiro prendeu nesta quinta-feira (8) o vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho (sem partido), e sua companheira, a professora Monique Medeiros, no curso do inquérito que apura a morte do filho dela, Henry Borel Medeiros, de 4 anos.

Segundo os policiais, os dois atrapalhavam as investigações, intimidando testemunhas e combinando versões. Ambos negam terem cometido qualquer irregularidade.

Em entrevista coletiva, o delegado responsável pelo caso afirmou não ter dúvida da autoria do crime, envolvendo a mãe e o padrasto de Henry. A defesa deles diz que tomará medidas para tentar a liberdade de Dr. Jairinho e Monique.

Já o promotor de Justiça, Marcos Kac, disse à CNN que o vereador e a mãe do menino estavam de “malas prontas para fugir”. De acordo com ele, duas malas de viagem foram encontradas cheias de roupa durante a diligência da Polícia Civil na manhã desta quinta-feira (8).

O caso ganhou repercussão nacional e comparações com a morte de Isabella Nardoni, que terminou com a condenação em 2010 do pai dela, Alexandre Nardoni e da madrasta, Anna Carolina Jatobá, por assassinato.

Veja o que se sabe até agora sobre o caso de Henry Borel:

• A morte do menino

Henry morreu no Hospital Barra D’Or, na Barra da Tijuca, no dia 8 de março. Ele foi levado para lá pelo casal, que alegava tê-lo encontrado desmaiado no quarto onde dormia. 

O menino estaria com olhos revirados, pés e mãos geladas e dificuldades para respirar. Segundo os médicos, o garoto chegou ao estabelecimento com parada cardiorrespiratória. 

• De acidente a suspeita de agressão

Inicialmente, o caso foi tratado pela polícia como um acidente, como se o menino tivesse caído da cama, mas perícias médicas constataram que a vítima havia sido vítima de agressões.

No Instituto Médico Legal (IML), a necropsia constatou múltiplos sinais de trauma, como equimoses, hemorragia interna e ferimentos no fígado, típicos de agressão.

A Polícia suspeita que Henry tenha morrido depois de ser submetido a uma sessão de torturas por Dr. Jairinho, que nega.

À polícia, o casal afirmou suspeitar que o menino tenha se ferido em uma queda, mas, segundo as investigações, os machucados detectados pela necropsia não são compatíveis com essa alegação.

• Ligação para o governador

Depois da morte do menino, Dr. Jairinho telefonou para o governador em exercício do Rio, Claudio Castro (PSC), e relatou o ocorrido. Castro afirmou ter dito que o caso seria investigado pelas autoridades responsáveis, sem interferências. 

Há relatos de que o vereador teria procurado outras autoridades com objetivo de “acelerar os trâmites” no IML

Nas investigações, a polícia colheu depoimentos de outras agressões supostamente cometidas pelo político, envolvendo mulheres e crianças. A defesa dele nega.

A reportagem da CNN também teve acesso a mensagens enviadas por Dr. Jairinho a vereadores da Câmara Municipal do Rio de Janeiro para tentar se defender das acusações. 

Nas mensagens enviadas no dia 23 de março, duas semanas após a morte do menino, ele diz que o caso se trata de uma ‘’loucura sem tamanho’’ e que sua vida estava sendo ‘‘destruída gratuitamente’’. Ele reclama de ‘‘pré-julgamentos’’ e diz que é uma ‘‘testemunha’’.

À esquerda o vereador Dr. Jairinho, à direita Monique Medeiros com o filho Henry
À esquerda o vereador Dr. Jairinho, à direita Monique Medeiros com o filho Henry Borel
Foto: Montagem CNN

• Depoimentos e investigação

Dr. Jairinho e Monique prestaram depoimento, separadamente, para a Polícia Civil do Rio de Janeiro em 17 de março. 

Na ocasião, eles foram ouvidos como testemunhas – e não como investigados. O casal deixou a 16ª DP (Barra da Tijuca) depois de 12 horas e não quis dar entrevistas. Segundo a polícia, os depoimentos só ocorreram nove dias após a morte porque até então Monique estava em estado de choque.

Monique afirmou à polícia acreditar que o filho pode ter acordado, ficado em pé em cima da cama e se desequilibrado, fazendo com que ele caísse no chão.

Ela teria relatado ainda que por volta de 3h30 acordou e, ao dirigir-se ao quarto, encontrou o filho no chão já desacordado. 

Em depoimentos realizados à Polícia Civil após a morte do menino, a babá da criança e a funcionária do lar que trabalha na casa da mãe de Henry afirmaram que foram orientadas a concederem entrevistas a uma rede de televisão local, antes de prestarem seus depoimentos à polícia.

Leila Rosangela, funcionária do lar que trabalha na casa de Monique, mãe de Henry, afirmou que as perguntas que a repórter fez foram as mesmas que o advogado havia feito momentos antes da entrevista. 

• Apreensão de celulares e computadores

Dias depois dos depoimentos, a polícia apreendeu onze celulares e dois computadores que pertencem aos pais e ao padrasto de Henry.

Desde que a criança morreu, o casal saiu do imóvel onde morava. Monique está na casa dos pais, em Bangu, na zona oeste do Rio. Jairinho está na residência do pai, o ex-deputado estadual e policial militar Coronel Jairo, também em Bangu.

A polícia esteve nesses endereços e também no do pai de Henry, no Recreio dos Bandeirantes, também na zona oeste. Com Jairinho, apreendeu cinco celulares e um computador. Monique teve apreendidos quatro celulares, e Leniel, dois celulares e um computador.

A polícia considera pouco provável a hipótese de o pai ter responsabilidade sobre a morte de Henry. Ele esteve com o filho no fim de semana antes da morte do garoto, mas o entregou à mãe, às 19h, aparentemente em boas condições de saúde. Apesar disso, Almeida também foi alvo da busca e apreensão.

Dr. Jairinho na Câmara do Rio
O vereador Dr. Jairinho; ele foi preso nesta quinta-feira (8) em investigação sobre a morte do filho da namorada
Foto: Renan Olaz/CMRJ

• Outras decisões judiciais

Além das apreensões, a Justiça autorizou a quebra dos sigilos telefônico e telemático de Monique, Almeida e Jairinho. Além das ligações, será possível verificar eventuais trocas de mensagens pelo WhatsApp, por exemplo, a partir desses telefones.

Outra decisão judicial foi interditar, por trinta dias, o apartamento em que Henry, segundo a mãe, passou mal, no condomínio Majestic, na Barra da Tijuca. Horas após a morte da criança, o imóvel foi submetido a uma limpeza pela faxineira que trabalha para o casal. Essa faxina comprometeu a perícia da Polícia Civil e envolve o primeiro conflito de versões do caso.

Em depoimento à Polícia Civil, a faxineira disse que Monique havia lhe contado sobre a morte. Jairinho afirmou à polícia ter ouvido de Monique que relatou o episódio à faxineira. Já Monique disse não ter contado nada à funcionária. 

O advogado do casal, André França Barreto, considera que as versões contraditórias não têm importância por não mudarem a dinâmica dos fatos.

• Reconstituição do caso

Em 1º de abril, Polícia Civil do Rio realizou a reprodução simulada da morte de Henry. Monique e Jairinho não participaram da reconstituição, realizada no apartamento em que eles moravam.

O advogado do casal afirmou que Monique está com depressão e pediu ao delegado responsável pela investigação, Henrique Damasceno, que adiasse a reprodução para depois de 12 de abril.

O policial não concordou e a reprodução foi realizada ao longo de aproximadamente quatro horas.

Um boneco com peso e tamanho semelhantes aos de Henry foi usado para representar a criança.

• Outro inquérito contra Dr. Jairinho

O depoimento de uma ex-namorada de Jairinho ocasionou também a abertura de outro inquérito, este na Delegacia da Criança e Adolescente Vítima (DCAV). 

A mulher, cujo nome não foi divulgado, afirmou que, no período em que namorou o vereador, em 2010, o político agrediu a filha dela. O caso será investigado.

(Com informações do Estadão Conteúdo e da Agência Brasil)

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