CNN No Plural+: O que você carrega no seu currículo escolar?

Para além de problemas vividos nos círculos sociais e em casa, a tentativa de padronizar comportamentos dentro das escolas gera situações de violência e sofrimento para alunos da comunidade LGBTQIA+

jcom / Freepik

Rafael Câmarada CNN

São Paulo

Ouvir notícia

O sinal toca, hora de mudar de aula.

Saímos do “antigo primário” e entramos no ginásio.

Agora temos educação física. Para muitos meninos, “momento oficial para jogar bola”. Para outros, como eu, da comunidade LGBTQIA+, hora de encarar que somos diferentes.

Meninos para um lado, meninas para o outro.

E quem não se encaixa faz o que?

No meu caso, futebol sempre foi sinônimo de não inclusão. Eu sabia que no momento que eu chutasse a bola, todos saberiam que eu era gay, mesmo antes de eu mesmo ter certeza disso.

E a cada chute na trave, um olhar ia surgir, um apelido iria ser criado e no final o que era para ser “diversão”, era diversão – para os outros.

Impressionante como as escolas, em sua maioria, não são preparadas para receber o diverso.

Somos ensinados, desde cedo, a nos classificarmos, a estabelecermos padrões para a nossa vida e nossos comportamentos. E o regime é cruel para quem não se adapta.

Você já ouviu falar em currículo oculto?

Quem explica o conceito é o advogado Thiago Coacci. Thiago também é membro da TransVest, um coletivo de Belo Horizonte que luta para a inclusão de pessoas trans através de uma das principais armas disponíveis – a educação.

Na escola a gente ensina as pessoas a serem hetero e cis. Quando a gente começa a separar o bebedouro de meninas do bebedouro de menino, quando a gente começa a ensinar determinados comportamentos para diferentes tipos de corporalidade, como você tem que ser ou não – e isso é violento. E como é violento, isso vai de alguma forma excluindo e fazendo essas pessoas que não se encaixam se sentir mal

Thiago Coacci, advogado e membro da ONG Transvest

É um currículo”, acrescenta Thiago. “Mesmo que não esteja lá explícita a disciplina, não sai o seu certificado, no seu diploma, no seu histórico escolar que você fez isso: ‘vai ser feliz, você fez heterossexualidade’. Isso é ideologia de gênero”.

Thiago Coacci, advogado e membro da Transvest, ONG de Belo Horizonte que luta pela inclusão através da educação. / Acervo pessoal

E com um canudo invisível na mão e o certificado carimbado na cabeça, muitas pessoas validam a LGBTfobia na sociedade.

Isso, inclusive, é um traço nosso. De acordo com um relatório de 2021 da UNESCO, a América Latina é um ambiente hostil para alunos LGBT, que têm suas vivências atravessadas pelo preconceito durante os anos escolares, tão fundamentais para a formação cidadã e intelectual.

Me lembro como era difícil deixar claro a minha vontade de participar da aula de artes cênicas ao invés de esporte, no Ensino Médio.

E aqui deixo claro, que isso acontece independentemente da orientação sexual – muitos heteros fazem teatro, mas o preconceito é tão enraizado que, nessa idade, para não ser excluído, eu precisava estar onde a maioria dos meninos queria estar. Eu precisava seguir o que a escola e a vida me ensinavam: um padrão.

E isso aos poucos isso gera depressão, desinteresse, notas baixas, bullying e em graus mais altos a expulsão.

A gente prefere falar a expulsão e não evasão escolar. Não estou falando que alguém literalmente assinou lá, ‘você foi expulsa da escola’. Mas eu estou falando que essa escola não quer esses corpos, não quer essas pessoas lá. Não é simplesmente ‘Ah, eu não gosto da escola, então vou sair’. Não é simplesmente uma evasão.” Essa escola não me coube, essa escola não teve condições de lidar com a minha vida, com a minha experiência, com a minha corporalidade, né com a minha sexualidade, então me expulsou daqui

Thiago Coacci, advogado e membro da ONG Transvest

E para se proteger, muitos de nós, da comunidade LGBTQIA+, vamos criando estratégias para enfrentar o ambiente escolar. E uma delas é permanecer no armário.

75% de nós não declaram sua orientação sexual ou identidade de gênero no Ensino Médio, de acordo com um levantamento da ONG Todxs. E cerca de 80% das pessoas trans abandonam a escola, ou melhor “são expulsos” de acordo com a ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais).

Quem viveu isso na pele pode contar para a gente.

Eu apresento Nikole do Espírito Santo.

Nikole Espírito Santo, ex-beneficiada e colaboradora do Transcidadania / Acervo pessoal

Expulsa de casa aos quatorze pelos pais depois de se assumir, ela hoje com cinquenta e dois está prestes a se formar na faculdade.

Eu tive que sair do bairro onde morava e eu fiquei na rua, sem ter para onde ir“, diz Nikole. “Apesar da minha família ser enorme, eu fui à casa de todos os parentes e todos disseram as mesmas palavras que meus pais já tinham dito: que eles não iam aceitar uma doença dentro de casa.

Morando na rua, ou melhor, dentro de um cemitério por dois anos, Nikole encontrou o primeiro curso de capacitação. Primeiro um curso de cabeleireira, depois cozinheira: mas em todos os ambientes ainda sofria preconceito.

Dois anos eu pedindo para o patrão ‘aí, por favor, você pode por favor me registrar, porque eu estou trabalhando aqui para vocês e estou em registro’ Até que ele resolveu pedir meus documentos, e aí ele pegou os documentos e falou ‘Nikole, você trouxe o documento errado. Falei não, não é meu irmão, não. Sou eu mesma. Aí devolveu os documentos e falou: ‘Olha, você me desculpa. Se você quiser até me processar, você pode me processar, mas eu sou preconceituoso, eu não aceito você aqui

Nikole do Espírito Santo, ex-beneficiada e colaboradora do Transcidadania

De acordo com a ANTRA, apenas 4% da população trans feminina no Brasil encontra empregos formais. Por outro lado, 90% das mulheres trans e travestis no Brasil utilizam a prostituição como fonte de renda. Como pensar em retomar os estudos quando há uma sociedade inteira te jogando para a marginalidade?

Não aceita em casa, não aceita na escola, não aceita no trabalho.

Que bom que a Nikole não aceitou essa situação de não ser aceita.

Conforme os trabalhos que eu ia conseguindo e eu pagava aluguel, então eu voltava para a escola, passava fome e morava de novo na rua. Então quando aconteceu esse projeto, foi uma felicidade, porque sempre foi o meu sonho terminar os estudos e conseguir fazer uma faculdade, me capacitar

Nikole do Espírito Santo, ex-beneficiada e colaboradora do Transcidadania

O projeto ao qual Nikole se refere é o Transcidadania, da prefeitura de São Paulo e voltado para a elevação da escolaridade e reinserção da população trans na sociedade.

Hoje, 510 pessoas são assistidas em cinco centros espalhados pelo município de São Paulo.

O programa foca na elevação da escolaridade. A gente reconhece que muitas pessoas trans têm dificuldade de entrar e se manter na escola dentro do Ensino Fundamental e Médio por conta de preconceito, por conta de não pertencer à família, a família a expulsar, ela ficar à mercê de uma sociedade muito cruel, quando ela não está acolhida na família”, nos conta a coordenadora de políticas públicas LGBT da cidade de São Paulo, Fê Maidel.

Acolhimento. É justamente esse o objetivo do projeto. Dar acesso e oportunidade a uma escola que respeite essas pessoas, para que elas possam apreender uma profissão e assim conseguir se sustentar. Para que possam se sentir cidadãs, parte ativa da sociedade, dentro de suas subjetividades e longe de quaisquer padrões.

Fê Maidel, assessora técnica da coordenação de políticas para a população LGBT, da secretaria de direitos humanos de São Paulo e responsável pelo programa Transcidadania / Renato Dracz/SECOM

 

Quando a professora insiste ‘não, você não é uma menina, você é um menino. Comporte-se como um menino, aja como um menino, seja um menino’ então a gente tem que entender as demandas da pessoa trans e acolher essa demanda e não impor o modelo cis heteronormativo em que a pessoa tem que se enquadrar ou que a sociedade considera correto. O que a sociedade chama de normal, na verdade é só uma média

Fê Maidel, coordenadora de políticas públicas LGBT da cidade de São Paulo e responsável pelo Transcidadania

E é bom lembrar que nós da comunidade LGBTQIA+ não somos iguais à média. E isso está longe de ser um problema.

Nikole, com uma lacuna de mais de trinta anos para conquistar o que lhe é de direito: o diploma, mostrou que está bem acima.

Porque ela, mesmo com todos dizendo que não, viu na educação o caminho para a cidadania.

Obrigado Nikole, por resistir.

  • Produção: Letícia Brito e Carol Raciunas

Mais Recentes da CNN