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    Como as abelhas do Brasil podem ajudar a biodiversidade e girar a economia

    Pesquisadores criam mapa interativo que revela peso de polinizadores na produção alimentar; para eles, sem preservação ambiental agronegócio fica sob ameaça

    Abelhas são responsáveis por polinizar safras dos mais variados tipos de alimentos
    Abelhas são responsáveis por polinizar safras dos mais variados tipos de alimentos Foto: Andy Orin/Unsplash

    Edison Veiga, colaboração para a CNN

    Até crianças sabem – talvez por terem visto o filme “Bee Movie”, de 2007: sem abelhas, e outros tantos insetos polinizadores, não tem comida, não tem bebida, não tem vida que pare em pé. São esses bichos que, flanando de flor em flor, permitem que as plantas se reproduzam e, assim, deem frutos. No fim da safra, a lavoura agradece. Tecnicamente, isso é chamado de serviço ecossistêmico: um trabalho que a natureza faz e que beneficia o ser humano. 

    Do cafezinho ao suco de laranja, passando pelo bife do almoço – tudo isso só é possível graças ao papel desempenhado por espécies polinizadoras. São elas que viabilizam boa parte da agricultura. E no Brasil, como em outros países em desenvolvimento, agricultura é sinônimo de boa parte da base de exportações.

    Foi para destacar a importância disso para a cadeia global de alimentos e para a produção de commodities agrícolas que um grupo de cientistas decidiu esmiuçar o peso que os polinizadores têm nas exportações e importações dos países. “Virtual Biotic Pollination Flow” é um mapa interativo que permite visualizar o conceito por eles criado: um fluxo de polinização biótica virtual que indica a dependência mútua dos países, considerando seus ecossistemas.

    Nesse mapa, o Brasil aparece como um forte exportador virtual de polinização, sobretudo para China, Europa e Estados Unidos. Não por acaso, países que são grandes compradores de produtos agrícolas brasileiros. Em outras palavras, há muita gente no mundo que se alimenta graças ao trabalho dos insetos polinizadores do Cerrado, da Amazônia e de outros biomas brasileiros.

     Desigualdade 

    Pelo mapa, fica claro que países com maior grau de desenvolvimento necessitam de uma base com maior biodiversidade para sustentar seu consumo. Quem oferece isso? Os países em desenvolvimento, que são em boa parte exportadores agrícolas. Para os pesquisadores, esse mercado da polinização estimula a expansão das fronteiras agrícolas e, em última instância, o desmatamento.

    A análise desse cenário foi publicada no periódico científico “Science Advances”, em 10 de março. “Todas as nações dependem da manutenção da biodiversidade de outras nações para a manutenção do seu padrão de consumo. E países ricos dependem muito da biodiversidade de países com nível de desenvolvimento menor”, resume a bióloga e ecóloga Luísa Gigante Rodrigues Carvalheiro, professora na Universidade Federal de Goiás e uma das autoras do trabalho.

    “Essa exportação virtual de polinizadores está associada à expansão agrícola em vários países, principalmente nos com menor IDH [Índice de Desenvolvimento Humano]”, afirma outro autor do trabalho, o economista Felipe Deodato da Silva e Silva, professor no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso.

    A encruzilhada brasileira 

    Para entender esse risco, é preciso compreender o ciclo vicioso em que o agronegócio se encontra. De acordo com o Relatório Temático Sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil, essa atividade de polinização é desempenhada por cerca de 250 das 600 espécies de animais que sobrevoam as lavouras do Brasil. A maioria, 66%, são abelhas. Há ainda algumas aves, besouros, borboletas, moscas, percevejos e até morcegos que formam esse esquadrão. 

    Mas três fatores estão reduzindo as populações dos polinizadores: o aquecimento global, o desmatamento e o uso indiscriminado de agrotóxicos, fertilizantes químicos e outros insumos do tipo. A consequência imediata é uma percepção de baixa na produção — afinal, com menos polinizadores, o resultado será menos frutos. 

    E o que se faz para compensar essa queda de produção? Incentiva-se mais desmatamento, para assim poder plantar em mais e mais terras. E usa-se mais e mais insumos químicos, em busca de turbinar a produtividade. Essa é a encruzilhada atual.

    Uma encruzilhada bilionária — segundo o relatório, a polinização representou R$ 43 bilhões para a economia brasileira em 2018. Consagrada commodity, a soja representa 60% desse valor. Em seguida vêm o café, que responde por 12%, e frutas como a laranja e a maçã, com 5% e 4%, respectivamente. Das 191 culturas agrícolas nacionais que se revertem em alimentos, 114 dependem da ação de bichos polinizadores.  

     

    Trabalhador com café colhido de uma plantação em São João da Boa Vista
    Foto: REUTERS/Amanda Perobelli

    Regulamentação de pólen

    Para os pesquisadores, o ideal seria que houvesse alguma ferramenta de regulamentação dos mercados internacionais que tivesse como premissa a dependência da biodiversidade. Sabe aquela história de que o importante é a economia girar? Pois o recado é esse mesmo: se o mundo não atentar para a preservação do meio ambiente dos países mais pobres, a conta vai chegar aos mais ricos também — com carestia de alimentos.

    “Há um benefício econômico da exportação [virtual da polinização], então não é o caso de limitar exportações, mas sim pensá-las de maneira mais sustentável”, afirma Silva e Silva. “Como possui uma das maiores biodiversidades do mundo, o papel do Brasil é chave nesse cenário, inclusive com a manutenção dos benefícios socioeconômicos que a gente obtém dos polinizadores.”

    Preservar o ambiente e certificar os produtos

    Os pesquisadores querem que sejam observados e fiscalizados os parâmetros do Código Florestal de 2012, que estabelece os critérios para a preservação da vegetação. Eles também destacam como é importante a manutenção das áreas de reserva legal e proteção permanente dentro das propriedades agrícolas e também nas proximidades — justamente para que as abelhas e outros bichos polinizadores tenham preservados seus habitats.

    Eles vislumbram que o mapa criado possa estimular a criação de um selo indicativo. E que, assim, o próprio mercado ajude no cenário, destacando ao consumidor os produtos “amigos dos polinizadores”. No futuro, países e blocos comerciais também poderiam condicionar acordos a esse tipo de pré-requisito. “Se ao comprar uma barra de chocolate o consumidor tiver a informação sobre a sustentabilidade das práticas de produção, aquele que reconhecer a dependência dos polinizadores pode escolher comprar um produto ‘amigo dos polinizadores’, feito de uma forma mais sustentável”, diz Luísa Carvalheiro. 

    Essa política de certificação deveria ser feita em escala mundial. E prever uma série de contrapartidas. “Estamos falando de uma governança global, com políticas de transferência de tecnologia e de recursos financeiros de países mais ricos para os mais pobres, para fomentar a adoção de práticas amigáveis [aos polinizadores]”, pontua Silva e Silva. “Esperamos que essa identificação do fluxo [com o mapa por eles desenvolvido] possa ajudar a quem está lidando com a situação a pensar quais estratégias seriam mais apropriadas.”

    Procurado pela CNN Brasil para comentar a importância desse trabalho, o biólogo Filipe França, pesquisador da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, e da Rede Amazônia Sustentável, aponta que o material deixa claro que, se o Brasil quiser manter-se economicamente forte no setor agrícola, é preciso atentar para a conservação da biodiversidade.

    “No panorama mundial, 50% dos produtos agrícolas exportados no mercado internacional dependem dos polinizadores. Os países mais ricos dependem da produção agrícola da polinização natural, ou seja, dependem da presença de ambientes nacionais saudáveis em outras regiões do mundo”, esclarece França.

    “Tudo está interligado: muitas vezes o serviço ecossistêmico que está acontecendo no Brasil não vai ter benefício apenas para os brasileiros que dependem daquela produção, mas também para os países importadores. Por isso a importância dos esforços conjuntos, das estratégias internacionais para a conservação da biodiversidade.”