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    Maurício Pestana: quando a educação se torna fonte de desigualdades

    Dados mostram que desigualdade na educação é também um fator de propagação de racismo

    Brasil apresentou números desanimadores no Programa Internacional de Avaliação Estudantil
    Brasil apresentou números desanimadores no Programa Internacional de Avaliação Estudantil Pixabay

    Maurício Pestanapara a CNN Brasil

    A história, que se repete. Não é a primeira vez, e não parece ser a última, que vamos nos deparar com os números desanimadores do Programa Internacional de Avaliação Estudantil (Pisa, na sigla em inglês). Não me debruçarei aqui a questioná-los, pois eles falam por si só. Apenas quero inserir, no contexto dos números, alguns dados referentes às desigualdade raciais no Brasil, mostrando o quanto uma educação “aparthaida” é também um fator de propagação de racismo.

    Vamos aos números: os 11 mil alunos brasileiros com média de 15 anos de idade, na série correta, testados, marcaram 410 pontos em leitura (ficamos na 52ª posição em 81 países analisados). Ou seja, mesmo figurando entre as dez maiores economias do planeta, existem mais de 50 nações à nossa frente no quesito leitura. Quando a matéria é ciências, são mais de 60 países acima de nós. Em matemática, a tragédia se repete: são 65 países à nossa frente.

    Estamos falando da educação brasileira destinada, em sua maioria, para preto e pobre. Isso porque os dados do Censo Escolar de 2022 demostram que 77,5% dos alunos matriculados no ensino fundamental são negros, embora, no ensino médio, a presença de negros diminua, pois muitas crianças negras deixam a escola para irem trabalhar, dando um maior equilíbrio na diversidade racial deste ciclo, formada em sua maioria por negros e brancos pobres, diversificando a tragédia.

    Mas, voltando ao Pisa, quando o foco é direcionado às escolas particulares, nosso país cresce e fica ao lado das grandes economias globais, os números impressionam: alunos das escolas privadas fizeram 500 pontos em leitura (compreensão de texto, interpretação, conclusões). Ficamos colocados na 11ª posição, acima da média dos países ricos da OCDE e muito à frente de nações como Reino Unido, Finlândia, Alemanha e até da França.

    Comparando aos países da América Latina, então, damos um banho. Nossos alunos das escolas privadas estão anos-luz à frente dos “hermanos”, mas tem um detalhe: menos de 10% de todos os alunos das 20 melhores escolas privadas do Brasil são negros, aponta um levantamento do Gemaa (Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa), da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), com base no Censo Escolar de 2020. Ou seja, educação no Brasil é parte significativa do nosso apartheid social e econômico.

    E como mudar o “quadro negro” da educação deste país, dos 56% da população autodeclarada negra e quase excluída de uma educação de qualidade? Como transplantar a educação de excelência das escolas particulares, com seus 90% de alunos brancos, para as escolas públicas, de maioria preta e pobre, administradas pelo poder público e com um nível de ensino desastroso, como mostram os dados?

    Esta é uma pergunta difícil de ser respondida, que tem mobilizado vários setores, comprometidos em deixar um país mais decente. Neste contexto, vamos encontrar projetos interessantes do terceiro setor, do setor público e também do setor privado, empenhados em tirar o país deste vergonhoso lugar, já denominado como apagão educacional.

    Poderia citar aqui várias iniciativas que vêm dando certo como Todos Pela Educação, Ensina Brasil, Alicerce Educação, entre outros. Uma coisa chama atenção em todas essas ações: não haverá sucesso algum nessas iniciativas se elas não contarem com o apoio do poder público e empresarial do país. E, sem educação de qualidade para todos, as desigualdades continuarão sendo potencializadas exatamente pelo único instrumento que pode reduzi-las: a própria educação.