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    Maurício Pestana: Quando o racismo se torna entretenimento

    Casos de racismo com grande repercussão midiática formou legião de influencers que buscam mais likes do que justiça

    Manifestante segura cartaz com rosto de George Floyd durante protesto em Nova York
    Manifestante segura cartaz com rosto de George Floyd durante protesto em Nova York Foto: Caitlin Ochs/Reuters (3.jun.2020)

    Maurício Pestanada CNN

    em São Paulo

    Desde a explosão midiática do caso de George Floyd, falar, opinar, criticar ou denunciar atos de racismo nunca esteve tão em moda.

    Seu assassinato à luz do dia – expondo imagens que chegaram para milhões de espectadores, nas quais um policial branco asfixiou até a morte um homem negro de quase dois metros de altura – deram outra dimensão aos casos de racismo.

    A exposição midiática da morte de Floyd fez emergir um novo tipo de profissional: o “influencer do racismo”. São pessoas dispostas a opinar os horrores de práticas racistas virando celebridades em redes sociais.

    Seus posicionamentos buscam muito mais likes de audiência do que justiça, formando uma verdadeira legião de abutres, travestidos de “influenciadores”, sites e veículos de comunicação da mesma estirpe, transformando a tragédia do racismo em conteúdo de entretenimento.

    A pergunta que se faz é: até que ponto algumas dessas práticas trazem avanço para a pauta antirracista ou servem para banalizar atos racistas?

    Na semana passada, três fatos ganharam espaços nas redes sociais e, consequentemente, na grande mídia – todos relacionados ao racismo.

    No primeiro episódio, um cidadão negro amarrado e sendo carregado como um animal para dentro de uma viatura policial, em seguida uma mulher negra resgatada da casa de um desembargador branco em Santa Catarina em situação análoga a escravidão também virou manchete nacional.

    Por último, torcedores do Fluminense sendo achincalhados como macacos por torcedores argentinos do River Plate.

    Provavelmente antes desta coluna ser postada, outras ações de racismo surgirão e como os atos da semana passada, do mês passado, do ano passado e desta semana desaparecerão com a mesma intensidade que surgiram.

    Todos terão o mesmo fim: muita indignação, muitos likes, e novos seguidores para os que vivem dessas tragédias.

    Na prática, o Brasil continuará sendo o único país do mundo no qual o racismo é um crime inafiançável, descrito na Constituição do país em seu artigo 5º, XLII, mas que continua sem nenhum criminoso na cadeia por praticar racismo.

    Ou seja, o racismo, na atualidade, tem se tornado muito mais um tema a ser explorado midiaticamente do que enfrentado com atitudes e políticas públicas de combate a este mal.

    Acompanho e denuncio práticas racistas há quase 40 anos. Sou da geração que criou as principais políticas públicas que temos hoje, como a Lei nº 10.639/03, que obriga o ensino da História da África e de seus descendentes em todos os níveis escolares, do artigo da Constituição que coloca o racismo como crime inafiançável, incluindo agora também a injúria racial, além de leis que conclamaram o 20 de novembro como feriado da Consciência Negra em muitos municípios brasileiros, a defesa das titularidades a terras quilombolas e também lei de cotas raciais nas universidades públicas, em no Executivo, e até no Judiciário!

    Curiosamente, nenhuma dessas conquistas foi alcançada neste período do modismo em ser negro ou um antirracista midiático.

    Refletindo muito para dois termos surgidos na última década, que trazem o racismo estrutural e o racismo recreativo para o centro das discussões, eu me pergunto: será que estamos caminhando para a era do racismo de entretenimento? Aquele que cinicamente nos comove, emociona, faz opinar como um belo filme hollywoodiano e depois vamos dormir, porque, afinal, ninguém é de ferro?