Renda e alimentação pioraram em favelas durante pandemia, diz pesquisa

Apesar das perdas, maioria dos moradores concorda com medidas de isolamento social

Maria das Neves, de 76 anos, moradora do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro
Maria das Neves, de 76 anos, moradora do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro Foto: Ricardo Moraes/Reuters (22.mar.2020)

Jairo Nascimento,

da CNN, no Rio

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Uma pesquisa do Instituto Locomotiva e do Data Favela divulgada nesta quarta-feira (8) indica que, durante o isolamento, a renda dos moradores de favelas caiu. Entre os entrevistados, 66% estão muito preocupados em perder o emprego por causa da pandemia, 84% estão preocupados em perder renda e 75% estão preocupados com a própria saúde. Um total de 90% disse ter receio sobre a saúde dos idosos em favelas e 82% dos pais temem passar a COVID-19 para os filhos.

Para o levantamento, foram entrevistadas 1.808 pessoas em 269 favelas do país entre 4 e 5 de abril. A margem de erro é de dois pontos percentuais. Comparados à pesquisa anterior, realizada entre 20 e 22 de março, todos os índices apresentaram piora.

Apesar do medo, os números mostram que nem sempre é possível parar. A renda dos trabalhadores ouvidos diminuiu 80%. Outro dado revela que seis a cada 10 pessoas não têm dinheiro para ficar mais de uma semana sem trabalhar, ou seja, em breve terão de retomar algum tipo de atividade ou procurar alguma fonte de renda.

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No entanto, 75% dos entrevistados querem fazer o isolamento social e, segundo a pesquisa, discordam da política de isolamento vertical sugerida pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Para Renato Meirelles, do Instituto Locomotiva, “a pesquisa deixa claro que os moradores de favelas, aqueles mesmos que são os mais prejudicados pelos efeitos econômicos da epidemia, são também majoritariamente contrários ao fim do confinamento”.

Metade depende de doações

A alimentação reflete a dimensão do problema. Oito em cada 10 chefes de família sentem muito medo de não terem dinheiro para alimentar a família. Celso Athayde, fundador do Data Favela, disse que “questões logísticas dificultam que doações de cestas básicas cheguem dentro da favela, o que muitas vezes obriga os moradores a terem que se deslocar para fora da comunidade para receber a doação”. A pesquisa revela que 56% dos ouvidos depende de doações para sobreviver.

A fala de Celso se baseia no dado de que quase todos os moradores de favela não têm alimentos para enfrentar um mês e, para metade deles, o estoque dura apenas uma semana. A qualidade da alimentação caiu para seis de cada 10 entrevistados no decorrer do isolamento e, sem poder sair de casa, cerca de 80% precisam deixar as favelas para comprar comida ou produtos de higiene. A falta de água e de produtos de higiene também pesam a vida das pessoas de baixa renda.

De acordo com os institutos que realizaram a pesquisa, 13,6 milhões de pessoas vivem em favelas no Brasil, concentrados principalmente nos estados do Pará, Amapá, Rio de Janeiro, Amazonas e Pernambuco, nesta ordem.

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