Rio: R$ 48 milhões do vale gás podem ir parar nas mãos de milicianos

Cerca de 966 mil pessoas no estado estão aptas a receber o auxílio, que começa a ser pago hoje; milicianos exploram a venda dos botijões de gás de cozinha e impõe valor até 30% mais caro

Botijões de gás
Botijões de gás Foto: Pedro Ventura/Agência Bra

Maria MazzeiLucas Janoneda CNN

Rio de Janeiro

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Cerca de 966 mil moradores do estado do Rio de Janeiro estão aptos a receber os R$ 52 do vale gás, auxílio do governo federal que começa a ser repassado à população a partir desta terça-feira (18) até o dia 31 de janeiro. Nessa primeira parcela – a segunda está prevista para março – serão R$ 48 milhões.

E embora o montante tenha como objetivo ajudar a camada mais pobre da população, boa parte desse valor deverá ir parar nas mãos de milicianos e traficantes de favelas do estado.

Isso porque levantamento feito pela CNN, com base em dados do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (GENI/UFF), mostra que a maioria das pessoas previstas para receber o vale gás vive em áreas controladas por criminosos, que exploram entre outros “serviços”, a venda dos botijões de 13 kg do gás GLP ou gás de cozinha e impõe o valor até 30% mais caro em algumas comunidades do Rio.

“Existe um risco muito grande do auxílio gás parar na mão de criminosos. O grupo mais interessado em receber o subsídio é o povo. E eles vão ser lesados por conta da atuação dos milicianos e traficantes. Esse valor cobrado a mais pelos criminosos é uma extorsão feita justamente na população que mais necessita de ajuda financeira”, disse o coordenador do Geni, Daniel Hirata, à CNN.

Com orçamento de R$ 1,9 bilhão para este ano, o auxílio gás será pago a cada dois meses para famílias inscritas no Cadastro Único com renda per capita menor ou igual a meio salário-mínimo e integrantes do Benefício de Prestação Continuada (BPC). De acordo com informações divulgadas pelo governo federal, 5,4 milhões de famílias serão beneficiadas já em janeiro.

Em resposta ao questionamento da CNN sobre a atuação dos traficantes e milicianos, a Polícia Civil do Rio de Janeiro confirma que “as organizações criminosas cobram taxas nas comunidades carentes” e por isso, são alvos das operações da instituição.

A Polícia Civil investiga denúncias de cobranças e extorsões praticadas por esses grupos criminosos, que cobram até 30% mais caro pelo gás em algumas comunidades do Rio.

O preço médio de revenda do botijão de 13 kg do gás GLP, mais conhecido como gás de cozinha é de R$ 89,48. No entanto, 57,1% da população carioca, ou seja, 3,7 milhões de pessoas que vivem em favelas e bairros controlados por algum grupo criminoso podem pagar até R$ 130, conforme noticiado pela CNN em outubro de 2021.

O levantamento produzido pela CNN aponta que os moradores da Ilha do Governador, Zona Norte da capital, pagam, em média, R$ 120 por um botijão de gás de cozinha. Em comunidades da mesma região o valor vai de R$ 100 à R$ 110, incluindo a taxa de entrega.

Já no complexo da Maré, favela dominada por uma facção de tráfico de drogas, o preço do botijão varia entre R$ 100 e R$ 120. Na Zona Sul o valor médio pago por moradores das comunidades que exploram a venda do gás de cozinha é R$ 115.

O valor mais caro é na Zona Oeste, onde a maioria das comunidades e bairros estão sob o domínio da milícia. Em certas regiões o botijão cheio pode chegar a R$ 130, com a taxa de entrega.

Em algumas favelas dominadas pelo tráfico, não existe imposição explícita dos criminosos para comprar nas distribuidoras que funcionam dentro dessas comunidades. No entanto, os moradores esbarram em questões de logística, acesso e segurança porque os depósitos mais afastados ou que ficam fora dessas comunidades, por uma questão de segurança para os funcionários, optam por não entregar nessas favelas.

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