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    Sacos de gelo, banho frio e sem bateria: moradores de SP relatam prejuízos após 48 horas sem luz

    Cerca de 1,2 milhão de pessoas continuam sem fornecimento de energia depois dos temporais da última sexta-feira (3)

    Amanda Sampaioda CNN

    em São Paulo

    Após dois dias dos temporais que atingiram São Paulo na última sexta-feira (3), a falta de energia ainda dificulta a vida de pelo menos 1,2 milhão de pessoas no estado, de acordo com boletim da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) divulgado neste domingo (5).

    A estudante de psicologia Yasmin Daipre Novaes mora na região da Vila Militar, em Barueri, na Grande São Paulo, e está sem luz desde 17h30 da sexta-feira (3).

    Sem comunicação, a única forma que ela e o marido encontraram para recarregar os celulares é utilizar a tomada de um shopping próximo, em um espaço para coworking.

    Como outras pessoas estão sem energia e adotaram a mesma estratégia, existe fila para conseguir ligar os aparelhos no local.

    “Toda vez que chegamos no espaço coworking é a mesma luta para achar uma tomada vazia para utilização. Parece que várias pessoas tiveram a mesma ideia”, afirmou à CNN.

    Sacos de gelo como solução

    Sem ter ideia do problema que viria pela frente, Yasmin fez as compras do mês na quinta-feira (2), um dia antes dos temporais.

    Para tentar manter os alimentos refrigerados, a solução está sendo comprar sacos de gelo. “Fora o risco de também acabar a água e ficarmos sem os dois”, acrescentou.

    No condomínio onde mora Yasmin, diversas pessoas têm entrado em contato com a Enel para cobrar o restabelecimento da energia. Segundo ela, porém, a empresa não tem cumprido os prazos prometidos aos clientes.

    “Estão sendo dias complicados e cheios de incertezas, já que a Enel promete uma data para resolução do problema e não está cumprindo”, afirmou.

    Quem também está fazendo de tudo para salvar as compras do mês é o engenheiro Eric de Campos, da Vila São Nicolau, zona leste da capital paulista. Ele está sem luz desde as 16h30 de sexta-feira.

    “Estamos comprando pacotes e pacotes de gelo para tentar manter congelados os alimentos. Tudo isso para só depois de voltar a energia saber se realmente deu pra salvar alguma coisa ou se estragou tudo”, relata.

    Para recarregar a bateria do celular, Eric está conectando o aparelho no carro.

    “Para não deixar o carro ligado direto, deixo carregando na parte da manhã para conseguir ter bateria pro resto do dia”, acrescenta.

    Ele diz que tem tentado contato com a Enel, mas afirmou que a empresa não dá previsão de retorno.

    Para Alice da Conceição Alves da Silva, da região do Tatuapé, zona leste paulistana, o prejuízo também foi grande.

    Além dos alimentos, ela relata que precisou descartar pelo menos cinco caixas de um medicamento à base de insulina que havia comprado para a irmã.

    Os remédios, que precisam ser armazenados em geladeira, custaram mais de R$ 200, segundo ela.

    Leandro Breta também mora no Tatuapé. Ele gravou um vídeo no qual mostra a quantidade de alimentos que precisará ser descartada por conta da falta de energia.

    Mas os problemas não se limitam às zonas leste e oeste de São Paulo. A advogada Anna Krongold mora em um condomínio na região do Panamby, zona sul da capital paulista.

    Para armazenar os alimentos, Anna tentou comprar gelo, mas conta que o produto já está em falta nos supermercados da região.

    “Todas as coisas estão estragadas e a gente acha que vai acionar judicialmente a Enel”, afirmou.

    Ela conta que, além da energia, o fornecimento de água também foi interrompido neste domingo (5).

    Por isso, os moradores dos três blocos do edifício estão se revezando para tomar banho frio no vestiário da piscina — único lugar onde o gerador de energia ainda funciona.

    Para trabalhar, Anna está utilizando o escritório do pai. Ela diz que, caso a energia não volte, irá se deslocar para a casa do namorado.

    Caroline Ogata é advogada e também mora na zona sul, na região da Vila Andrade. Ela também relatou à CNN sofrer com a falta d’água.

    “Não tem energia para a água ser bombeada. Hoje de manhã, acordamos sem sinal de celular, sem luz e sem água. Tudo o que tinha no nosso freezer e geladeira estragou, como comida congelada, carne e requeijão”, contou.

    A advogada está utilizando a energia do clube do qual é sócia para recarregar o celular e tomar banho quente.

    Caroline diz ainda que ficou cerca de uma hora no telefone tentando contato com a Enel, mas afirma que a ligação caiu no momento em que iria ser atendida.

    Prejuízo para os comerciantes

    Solange é confeiteira e precisou usar a geladeira de uma vizinha para não perder toda sua produção.

    “Fiz uma produção para vender na sexta, na feira do meu condomínio, só que, com a chuva e o vendaval, os elevadores pararam e logo a luz caiu. Fiz muita produção para a feira, ia perder tudo”, afirmou.

    Além de bolos e sobremesas, Solange também havia feito lanches para vender.

    “Uma vizinha do bloco aqui do lado me emprestou a geladeira, senão eu ia perder todos os meus bolos, ia perder muito dinheiro. Tudo o que eu comprei no mercado, todo o trabalho que fiquei até 2h fazendo, eu ia perder tudo se não fosse ela”, conta.

    Tania Denise Rubia administra um salão de beleza que fica dentro de um hipermercado no bairro Imigrantes.

    Ela conta que o negócio dela não dispõe do serviço de gerador do estabelecimento. Com isso, a solução foi remanejar todos os clientes marcados para sexta-feira e sábado para este domingo. Mas a energia não voltou.

    “Tínhamos uma agenda já preenchida para o final da tarde da sexta, e a agenda do sábado seria realmente importante cumprir. Ela estava repleta, porque o primeiro final de semana do mês é sempre o melhor. Outubro já tinha sido catastrófico e contávamos com os dois primeiros finais de semanas de novembro para dar uma equilibrada”, relata.

    Já a empreendedora de São Bernardo do Campo Aline Marin é responsável por uma loja de pudins e cookies, que dependem de energia para serem assados e refrigerados. Ela relata que está sem trabalhar desde sexta-feira.

    “Nós temos cinco freezers, cheios, lotados, com a produção da semana inteira e nós estamos lutando para salvar nossos produtos para tentar amenizar um pouco esse prejuízo da falta de energia”, conta.

    Além disso, a conexão de internet sem fio também foi prejudicada pela falta de luz.

    “O prejuízo está vindo tanto do lado de não estarmos vendendo nos nossos melhores dias, quanto a preocupação do que vai acontecer com os nossos insumos […] Nós estamos bem aflitos e bem chateados com essa situação”, concluiu.

    Do limão, uma limonada

    Proprietário de um restaurante de comida espanhola, Leandro Dias conta que teve de cancelar os shows do fim de semana por conta da falta de energia.

    Mas ele encontrou uma forma inusitada de salvar os alimentos, que estavam armazenados em uma câmara fria: fazer uma paella “gigante” para vender.

    Nas redes sociais, Leandro publicou um vídeo convocando os seguidores para irem ao restaurante.

    E o resultado foi um sucesso.

    “A venda foi ótima! Muita gente compartilhou o meu vídeo e, no decorrer do dia, atendemos um montão de gente. Penso que tenhamos atendido umas 90 pessoas durante o dia. Todos comeram paella, que era a única comida que tínhamos para oferecer”, conta Leandro.

    O que diz a Enel

    A Enel informou no sábado (4) que 2,1 milhões de clientes ficaram sem energia em São Paulo por conta da chuva de sexta-feira.

    Na capital, a energia deve ser 100% reestabelecida somente na terça-feira (7), segundo a empresa. De acordo com a concessionária, o serviço está sendo restabelecido de forma gradual, com prioridade aos casos mais críticos, como serviços essenciais.

    Ainda de acordo com a empresa, alguns casos podem levar mais tempo para o reparo da energia devido à complexidade e à necessidade de reconstrução de trechos da rede, com substituição de cabos, postes e transformadores.

    “A distribuidora está com uma mobilização total de equipes em várias frentes, como call center e operação, para esse atendimento e aumentou em mais de três vezes o número de profissionais em campo”, informou a empresa.

    As regiões mais afetadas foram as zonas sul e oeste da capital paulista.

    “A companhia reforçou as equipes em campo, nos canais de atendimento e no centro de controle e está trabalhando de forma ininterrupta para normalizar o fornecimento de energia para todos”, disse a concessionária.

    Com informações de Letícia Brito e Manoela Carlucci, da CNN.