Caso Gritzbach: entenda confusão que cancelou júri de PMs
Advogados e promotoria trocaram acusações; julgamento deve recomeçar em outra data
O primeiro dia de Tribunal do Júri dos acusados de executar Vinícius Gritzbach, empresário apontado como delator do PCC (Primeiro Comando da Capital), e o motorista de aplicativo Celso Novais, terminou com o julgamento cancelado no Fórum de Guarulhos nesta segunda-feira (22).
Após mais de dez horas de sessão, os ânimos se exaltaram no plenário. Antes da suspensão, o clima já havia ficado tenso no local. A banca de advogados dos policiais militares, réus pela execução do empresário, e a promotoria, trocaram farpas durante boa parte do andamento dos trabalhos.
O motorista de aplicativo Celso Novais, também vítima das balas de fuzil que tinham Gritzbach como alvo no Portão 2 do Aeroporto Internacional de Guarulhos, em novembro de 2024, estava representado pela família que acompanhou os trabalhos do plenário. Familiares dele viajaram de Brasília até São Paulo para acompanhar o julgamento.
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Chegada no tribunal
Um elaborado sistema de segurança foi montado, na maior cidade da Grande São Paulo, para receber o julgamento de um dos homicídios mais cinematográficos já ocorridos no estado, dentro do aeroporto mais movimentado do país.
A morte e as duas tentativas de homicídio foram imputadas a Denis Antonio Martins e Ruan Silva Rodrigues, considerados autores dos disparos, e Fernando Genauro da Silva, que teria sido o o motorista do veículo utilizado na execução.
Na chegada ao Fórum de Guarulhos, os advogados dos réus, que atuam em conjunto, declararam que atuariam na contestação das provas apresentadas pelo Ministério Público de São Paulo. A geolocalização dos réus e uma suposta falta de comprovação no material colhido pela perícia, na versão dos advogados, colocaria em cheque o conjunto de provas.
O início da briga
Foi exatamente no depoimento do perito que a banca de advogados e o promotor Rodrigo Merli Antunes começaram a ter os primeiros estranhamentos.
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Ao analisar um laudo pericial produzido a pedido da defesa e apresentado nos autos, a defesa indagou a testemunha acerca da forma como ela havia tomado conhecimento do documento.
O bate-boca começou quando os defensores dos réus acusaram a promotoria de promover um encontro à margem do código de processo penal. O clima esquentou ao ponto de gritos de "cínico" ecoarem no tribunal.
Na manifestação da defesa, os advogados questionaram a reunião entre perito e acusação. O pedido de desconsideração do depoimento do perito, contudo, foi indeferido pelo juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo.
Durante a pausa para o intervalo, promotor e advogados trocaram acusações em conversas com a imprensa.
Veja o que disse a defesa:
Veja o que disse a acusação:
Depoimentos e novos conflitos
A volta do intervalo se deu com um dos depoimentos chave no julgamento dos três policiais. Danilo Silva, ex-motorista de Vinícius Gritzbach, foi ouvido pelo Júri.
Durante o depoimento, por diversos momentos, testemunha e promotoria estiveram sobre um clima de tensão. Sob questionamentos de mudança no depoimento e indagações sobre se estava sendo investigado, acusação e testemunhas travaram alguns embates.
O motorista de Vinícius Gritzbach detalhou negociações e trocas de mensagens com um dos policiais acusados de execução, e expôs relação entre vítima e acusado.
O conflito final
Após o depoimento do motorista, dois capitães da PM que atuavam na corregedoria da instituição, e participaram de diligências durante as fases de busca e apreensão do caso, foram ouvidos.
Foi durante o segundo depoimento dos comandantes que o julgamento foi encerrado na Vara do Júri da Comarca de Guarulhos.
O promotor do caso questionava a testemunha acerca de uma investigação conduzida por ele, onde um dos advogados que atuavam no plenário, teria supostamente sofrido um atentado, em 2025. Sob esses questionamentos do caso paralelo, o caos se reinstalou no tribunal.
A banca de advogados dos PMs réus se levantou e acusou a promotoria de trazer um caso que nada tinha a ver com o julgamento do caso, e entre outras acusações, imputou o impedimento do livre exercício da advocacia.
A promotoria rebateu as manifestações e defendeu os questionamentos feitos a testemunha. O juiz chegou a indeferir a última pergunta da promotoria, mas foi insuficiente para conter os ânimos exaltados.
Sob acusações de "covarde", embates que quase chegaram ao enfrentamento corpo a corpo e até críticas a saúde bocal do outro, a sessão foi suspensa e posteriormente encerrada pelo magistrado, quando os advogados anunciaram que deixariam o plenário.
Confusão foi parar na rua
A disputa e versões de narrativas se estendeu para o lado de fora do Tribunal. Tanto defesa quanto acusação deram suas versões sobre o caso.
Veja o que disse a acusação:
Veja o que disse a defesa:
Sob protestos de familiares que clamavam pela continuação do julgamento, o destino dos réus e o veredito do caso foram adiados.O magistrado deverá marcar outra data para que um novo Júri seja formado.
Denis Martins, Ruan Rodrigues e Fernando Genauro da Silva seguem presos.
O que dizem as partes
À CNN Brasil, a defesa dos réus repudiou o ocorrido e alegou ter sido alvo de ataques pessoais durante o julgamento. Leia na íntegra:
"A banca de defesa dos policiais militares acusados no caso Vinícius Gritzbach vem a público manifestar seu profundo repúdio aos ataques pessoais e às ofensas dirigidas aos advogados que exercem a defesa técnica dos acusados durante a sessão plenária do Tribunal do Júri. No decorrer dos trabalhos, os advogados da defesa foram alvo de manifestações incompatíveis com o ambiente de respeito e urbanidade que deve nortear o Tribunal do Júri, sendo reiteradamente associados, de forma pejorativa, à condição de defensores de “assassinos de aluguel” e “e conversam com assassinos” expressões ofensivas e desqualificadoras dirigidas à advocacia.
Em especial, o advogado Mauro Ribas foi atingido por referências indevidas a um episódio traumático de sua vida pessoal, consistente em atentado anteriormente sofrido, circunstância que foi trazida ao plenário de maneira absolutamente desrespeitosa e desvinculada do objeto do julgamento, em evidente afronta à dignidade profissional e às prerrogativas da advocacia. As sucessivas ocorrências geraram situação de absoluta excepcionalidade, reconhecida pelo próprio Juízo Presidente, tornando inviável a continuidade regular dos trabalhos e culminando na dissolução do Conselho de Sentença.
A defesa informa que adotará todas as providências institucionais e legais cabíveis em razão dos fatos ocorridos, por compreender que o exercício da advocacia criminal é função essencial à administração da Justiça e não pode ser alvo de intimidações, ataques pessoais ou tentativas de deslegitimação. Por fim, a banca reafirma seu compromisso com a defesa dos réus, permanecendo na representação do Tenente Genauro, do Cabo Denis e do Soldado Ruan, aguardando a designação de nova data para julgamento".
O Ministério Público de São Paulo, por sua vez, repudiou "não só as quase consumadas agressões físicas em face do sobredito promotor, como também lamenta a conduta ao final adotada". Leia:
"Ao contrário do propalado pela defesa dos PMs acusados no processo em referência, o Ministério Público do Estado de São Paulo vem a público esclarecer que, na última segunda-feira, o Conselho de Sentença do Tribunal do Júri da Comarca de Guarulhos não foi dissolvido pelo magistrado em função da conduta de um dos promotores de Justiça, mas sim diante da recusa dos advogados em prosseguirem no julgamento, deixando, assim, os réus indefesos para a continuidade da sessão.
A instituição repudia não só as quase consumadas agressões físicas em face do sobredito promotor, como também lamenta a conduta ao final adotada, que não só posterga a prestação jurisdicional e a pacificação dos conflitos, mas também gera custos ao erário e, principalmente, a revitimização das famílias enlutadas".


