Ultrafarma e Fast Shop: delação pode levar MP a outros auditores e empresas

Esquema bilionário de fraude do ICMS e corrupção envolve auditores fiscais e os empresários Sidney Oliveira e Mario Otávio Gomes

Felipe Souza, da CNN, em São Paulo
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O acordo de colaboração premiada que o MPSP (Ministério Público de São Paulo) deve negociar, a partir desta quarta-feira (13), com o auditor da Receita Estadual preso na operação que investiga corrupção envolvendo o dono da Ultrafarma e um diretor da Fast Shop, pode levar ao envolvimento de outras empresas e outros servidores no esquema.

Confirme apurado pelo analista da CNN, Caio Junqueira, não há sinal, porém, de envolvimento da cúpula da Secretaria da Fazenda do estado de São Paulo no caso, nem do secretário Samuel Kinoshita.

Os investigadores do Ministério Público também consideram negociar um acordo de delação com o dono da Ultrafarma, Sidney Oliveira, e o diretor estatuário da rede Fast Shop, Mario Otávio Gomes.

 

O MPSP deve conversar com o auditor, nesta quarta-feira, na prisão onde ele está detido, no 8° Distrito Policial de São Paulo, no Belenzinho, Zona Leste da capital.

Operação Ícaro

A Operação Ícaro, deflagrada nesta terça-feira (12) pelo MPSP, desarticulou um esquema de corrupção e fraude fiscal que teria movimentado mais de R$ 1 bilhão em propinas desde 2021.

A ação contou com apoio da Receita Federal, Polícia Militar e da Secretaria da Fazenda do Estado, que abriu procedimento administrativo para compartilhar informações da investigação.

Foram cumpridos três mandados de prisão temporária e 19 de busca e apreensão em residências e sedes das empresas investigadas. Imagens divulgadas pelo MPSP mostram uma “montanha de dinheiro” apreendida na casa de um dos suspeitos, empilhada em maços de notas de R$ 50 e R$ 100.

Quem são os presos

  • Artur Gomes da Silva Neto: Auditor fiscal da Receita Estadual de São Paulo, apontado como o chefe da organização criminosa. Manipulava processos administrativos para liberar créditos de ICMS, orientava empresas sobre documentação e fazia pessoalmente requerimentos à Fazenda.
  • Sidney Oliveira: Proprietário da rede de farmácias Ultrafarma, conhecido por popularizar o conceito de “remédio barato”. Segundo o MP, supervisionava o esquema na empresa e era copiado em e-mails com o auditor.
  • Mario Otávio Gomes: Diretor estatutário da Fast Shop. É acusado de negociar e assinar contratos fraudulentos com a Smart Tax, empresa usada para lavar dinheiro das propinas.

Como funcionava o esquema

O MP afirma que Artur Gomes usava sua posição na Secretaria da Fazenda para conceder benefícios fiscais indevidos e agilizar a devolução de créditos de ICMS-ST a grandes empresas. Ele possuía certificados digitais das companhias, como o da Ultrafarma, e operava diretamente nos sistemas da Fazenda.

A propina era paga por meio da Smart Tax Consultoria e Auditoria Tributária Ltda., registrada no nome da mãe de Artur, Kimio Mizukami da Silva, 73, professora aposentada. A empresa não tinha funcionários nem estrutura técnica, e funcionava na casa do auditor, em Ribeirão Pires.

Segundo a investigação, o patrimônio de Kimio saltou de R$ 411 mil, em 2021, para R$ 2 bilhões em 2023, em grande parte aplicado em criptomoedas adquiridas com recursos do esquema.

Quem é Sidney Oliveira, dono da Ultrafarma preso em operação em SP

Envolvimento das empresas

  • Ultrafarma: Foram identificados 174 e-mails em 2024 entre Artur e a área fiscal da empresa sobre benefícios tributários. O dono, Sidney Oliveira, era copiado nas mensagens. O auditor chegou a contratar serviços advocatícios para defender Sidney em outra investigação.
  • Fast Shop: Entre 2022 e 2024, a empresa pagou mais de R$ 204 milhões à Smart Tax sob contratos de “consultoria”. Relatórios da Receita indicam que, no total, a empresa de fachada recebeu mais de R$ 1 bilhão da varejista.

Por que a Justiça decretou as prisões

A decisão cita risco de continuidade das atividades criminosas — e-mails recentes, de maio e junho de 2025, mostram que o esquema permanecia ativo. O juiz apontou ainda risco de destruição de provas, intimidação de testemunhas e fuga do país, devido ao alto patrimônio e viagens frequentes a paraísos fiscais.

Os suspeitos podem responder por: corrupção ativa, corrupção passiva, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

As investigações continuam para identificar outros beneficiários e calcular o prejuízo total aos cofres públicos. Artur também está suspenso de suas funções na Secretaria da Fazenda.

A CNN tentou contato com as defesas dos envolvidos e com a assessoria da Ultrafarma, mas não obteve resposta. Em nota a Fast Shop afirmou que "ainda não teve acesso ao conteúdo da investigação, e está colaborando com o fornecimento de informações às autoridades competentes.".

Veja imagens da operação que prendeu empresários da Ultrafarma e Fast Shop