Tripulantes de cruzeiros fazem abaixo-assinado para a retomada da temporada

Lista já reuniu mais de 7,6 mil assinaturas; temporada está suspensa até 4/2 por decisão voluntária das companhias

Abaixo-assinado: colaboradores querem o retorno das atividades normais dos cruzeiros marítimos
Abaixo-assinado: colaboradores querem o retorno das atividades normais dos cruzeiros marítimos Foto: MSC

Pedro Duranda CNN

Rio de Janeiro

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Ancorados no Porto de Santos, tripulantes dos cinco navios de cruzeiros da temporada de verão do Brasil criaram um abaixo-assinado como forma de apelo às entidades governamentais para que a retomada da navegação turística seja liberada.

A iniciativa já tinha reunido mais de 7,6 mil assinaturas por volta das 17h deste sábado (15). O apelo se baseia especialmente no impacto direto na economia e na geração de empregos do setor.

Dados da Associação Brasileira de Navios de Cruzeiros (CLIA) sugerem que a temporada de cruzeiros no país sustente a geração de 24 mil empregos, um a cada 13 turistas que embarcam em um dos cinco navios que navegam no litoral brasileiro. Eles calculam ainda uma injeção de R$1,7 bilhão na economia.

A decisão de suspender a temporada voluntariamente veio depois de uma recomendação da Anvisa para que passageiros não embarcassem mais em navios de cruzeiro em meio a um “boom” de casos de Covid-19 entre quem estava à bordo. O prazo, agora prorrogado, dessa suspensão vai até 4/2.

À bordo de um dos navios ancorados, Bárbara Kulaif conversou com a CNN. Ela trabalha em um navio na área conhecida como “entretenimento adulto”, que se refere basicamente à organização de gincanas, jogos, festas, shows e dinâmicas entre passageiros.

O setor dela também cuida do embarque e desembarque, fazendo o primeiro e o último contato com os turistas.

“A ideia do abaixo-assinado foi dar realmente a nossa versão dos fatos. Porque apenas foi mostrada a visão de alguns passageiros e do que se houve falar. E a Anvisa inclusive anunciou os números que no final demonstraram que a taxa de infecção foi baixíssima. Os protocolos são os mais rígidos do país se comparados com outros setores, como shows, estádios, onde não se seguem os mesmos protocolos com a mesma rigidez”, disse Bárbara.

São cerca de 7 mil tripulantes ancorados nas contas da CLIA. No caso da MSC, por exemplo, o MSC Seaside tem capacidade pra 1.513 tripulantes, o MSC Splendida capacidade pra 1.370 e o MSC Preziosa capacidade pra 1.388. No entanto, com público limitado, a ocupação das cabines da tripulação não chega a 100%. A Costa ainda tem dois navios atracados: o Costa Diadema e o Costa Fascinosa.

A CNN apurou que para o período com os navios ancorados sem passageiros, a MSC liberou alguns filmes nas TVs das cabines de tripulantes, aumentou o pacote de internet para que eles fizessem videochamadas com as famílias e autorizou o consumo gratuito de itens do frigobar.

Na paralização voluntária, tripulantes ganharam ainda benefícios antes exclusivos de passageiros, como a “noite da pizza” e cabines com varanda.

A retomada da temporada, no entanto, depende de uma queda de braço política que está longe de ter um desfecho. Órgãos dentro do governo divergem da possibilidade de liberação. No Ministério do Turismo, a leitura é de que há “grandes chances” de que os navios voltem a circular com passageiros ainda neste verão pelo que apurou a CNN.

Mas uma nota técnica da Anvisa enviada na última quarta-feira (12) ao Ministério da Saúde, defende o cancelamento total da temporada, que tem viagens marcadas até o fim de abril.

O presidente da CLIA disse à CNN que tem trabalhado com governos locais dos destinos de cruzeiros e acredita no retorno.

“Tomamos a decisão de estender a suspensão da temporada até o dia 4 de fevereiro com o objetivo de continuar as discussões com as autoridades e alinhar as medidas necessárias para a retomada dos cruzeiros. Não estamos medindo esforços para avançar nestas negociações para uma volta segura, sempre colocando a saúde e segurança das pessoas em primeiro lugar”, afirmou Marco Ferraz.

Aos 23 anos de idade em 2011, Túlio Melo, embarcou em seu primeiro cruzeiro. Dez anos depois, ele se vê mais maduro como artista e construiu a carreira em alto mar. Ele é cantor nas apresentações à bordo. Nos últimos 11 dias isolado na cabine, fez dois testes de Covid-19, ambos negativos.

“Esse abaixo-assinado vem pra mostrar à população e aos nossos governantes, às autoridades que é um período curto do ano, mas que é um período curto muito importante. Que no cruzeiro as pessoas vivenciam outro mundo, eles vivenciam esse mundo que é contagiante, que é maravilhoso, que é o mundo dos cruzeiros”, disse à CNN.

O que preocupa a Anvisa, no entanto, é outro tipo de contágio. O documento entregue ao Ministério da Saúde contabiliza 89.641 passageiros transportados entre 4 de novembro de 2021 e 6 de janeiro de 2022. Nesse mesmo período foram contabilizados 670 casos de Covid-19 entre tripulantes e 507 casos de Covid-19 entre passageiros.

Nele, a agência defende que “o cenário atual é desfavorável à continuidade das operações dos navios de cruzeiro”. “Nesse sentido, com fundamento no princípio da precaução e a partir de todos os dados disponíveis, essa área técnica recomenda a suspensão definitiva da temporada de navios de cruzeiro no Brasil, como ação necessária à proteção da saúde da população”, conclui o texto.

À CNN, o titular da Quinta Diretoria da Anvisa, Alex Campos, fala em “mudança radical e inequívoca do cenário epidemiológico” nos navios de cruzeiro.

“A recomendação pela suspensão definitiva da temporada é coerente com as decisões de autoridades locais de saúde que, diante do aumento exponencial de novos casos de Covid e a crescente demanda por assistência em saúde e UTIs, resolveram restringir ou cancelar eventos com potencial de aglomeração, a exemplo do carnaval”, afirma ele.

O Ministério da Saúde disse em nota “que acompanha atentamente o debate acerca da suspensão da temporada de cruzeiros”. Eles afirmam ainda que “em conjunto com a Anvisa, Estados e Municípios, são analisadas as questões sanitárias para avaliar a possibilidade de retomada ou não dos serviços. As medidas são definidas pelo Governo Federal, de forma interministerial, com coordenação da Casa Civil”.

Quem trabalha no setor, teme os impactos da possível suspensão definitiva.

“Muita gente depende disso daqui. É o único sustento de muitas famílias não só brasileiras, como de todo mundo. Indianas, italianas, espanholas, filipinas… Trabalhar em navios de cruzeiro é algo muito mágico, sabe? É uma escola. A gente sai daqui preparados e capazes de trabalhar em qualquer lugar do mundo, em qualquer setor, lidando com qualquer tipo de pessoa de qualquer nacionalidade. E durante dois anos já ficamos parados, sabe? E agora que a gente voltou acho que mais preparados do que nunca, porque desde o primeiro dia que a gente pisou no navio a gente faz cursos e treinamento de um novo normal”, afirma Bárbara.

Mas, para Campos, antes desse “novo normal” é preciso ter mais cautela. “Todos lamentamos a interrupção da temporada. O Brasil é um país do turismo. Mas, neste momento, deve prevalecer o bom senso e a precaução. Proteger a saúde das pessoas é a missão da Anvisa e deve ser prioridade absoluta de todas as autoridades de saúde”, disse ele.

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