Apesar de coronavírus, atos pró-governo ocorrem no país


Da CNN Brasil, em São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Goiânia, Salvador, Curitiba, Porto Alegre e Manaus
15 de março de 2020 às 17:11 | Atualizado 15 de março de 2020 às 22:28
Apesar da preocupação com a pandemia de novo coronavírus, que já infectou 191 pessoas no Brasil, apoiadores do presidente Jair Bolsonaro mantiveram o plano de sair às ruas neste domingo (15) para se manifestar a favor do governo e contra o integrantes do Congresso Nacional e ministros do Supremo Tribunal Federal.

Na capital federal, o grupo de apoio ao governo começou a se reunir por volta das 10 horas da manhã no Museu Nacional. Ao longo da passeata, eles deram duas voltas pelo Eixo Monumental até o Congresso, fechando os dois lados da avenida. Por volta de meio-dia, o presidente Jair Bolsonaro saiu do Palácio do Alvorada, onde estava em monitoramento após o diagnóstico de novo coronavírus em quatro membros de sua comitiva que viajou aos EUA, e participou das manifestações.

Com um colete a prova de balas e vestindo uma camisa da seleção brasileira, ele cumprimentou um pequeno grupo de manifestantes que se reunia em frente ao Palácio da Alvorada e pegou os celulares dos ativistas para tirar fotos — atitudes não recomendadas pelo Ministério da Saúde e pelo próprio Bolsonaro para conter a disseminação da doença.

Após cumprimentar manifestantes em frente ao Palácio do Planalto, o presidente Jair Bolsonaro voltou ao Palácio da Alvorada, onde encontrou com cerca de 20 apoiadores. O presidente foi recebido com uma oração. “Vocês me botaram aqui, agora têm que me ajudar a ficar e governar”, disse.

O presidente recebeu livros, bandeiras e falou com muitas crianças, enquanto os manifestantes gritavam: "Foda-se, Maia! Foda-se, Alcolumbre", "Desculpa, presidente, mas eu vim", "Eu vim de graça" e "Mito". Bolsonaro ficou cumprimentando as pessoas das 13h às 14h30. Logo que terminou, ele subiu a rampa do Palácio e a manifestação se encerrou.

Bolsonaro cumprimenta apoiadores em frente do Palácio do Planalto

Bolsonaro quebra quarentena e cumprimenta apoiadores em frente do Palácio do Planalto

Foto: Adriano Machado/Reuters (15.mar.2020)

Na capital paulista, manifestantes ignoraram a restrição das autoridades estaduais, que vetaram eventos com mais de 500 pessoas como medida preventiva à proliferação do novo coronavírus. Embora não tivessem autorização da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), os organizadores entraram na Avenida Paulista com um carro de som por volta das 15h30.

A multa prevista em caso de descumprimento é de R$ 5.800. Wagner Cunha, do Movimento Direita Conservadora, disse que os manifestantes arcaram com o custo da ação. “Pedimos para cada um dar 5, 10 reais para colaborar. Nós vamos desobedecer as ordens deles (autoridades), pra eles entenderem que quem manda no Brasil é o povo brasileiro.”

Os organizadores estimaram um público de até 20 mil pessoas no local, que estenderam uma faixa escrito "Maia na cadeia" e exibiam cartazes pedindo intervenção militar. Em meio aos manifestantes, algumas pessoas compareceram com máscaras para evitar o contágio do novo coronavírus.

“Estou na faixa de risco para o coronavírus. Sou diabético, tenho baixa imunidade, transplantado, infartado, mas acima de mim está o Brasil. O que me faz estar aqui é o Brasil, o patriotismo”, disse o comerciante Claudio de Moraes Sanches, de 73 anos.

A dona de casa Teka Pollone, que também não compareceu de máscara ao protesto deste domingo, disse que tudo não passa de conspiração. “Isso foi plantado e todo mundo sabe. Foi plantado pela China, isso é notório”, disse.

Ainda em São Paulo, uUma mulher de 19 anos foi baleada de raspão na perna após uma briga. Ela foi encaminhada para um hospital. Ainda não se sabe o que motivou a confusão. Segundo a polícia, o autor do disparo foi um policial militar reformado.

Aproximadamente 10 mil pessoas participaram da manifestação em Curitiba, segundo a estimativa dos organizadores. Os participantes se reuniram na Boca Maldita, no centro da capital paranaense, tradicional ponto de encontro de manifestações políticas. 

Vários cartazes foram trazidos pelos manifestantes para demonstrar apoio ao presidente Jair Bolsonaro e para fazer críticas ao Congresso, nos nomes do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP) e do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Críticas também foram feitas ao Supremo Tribunal Federal. Alguns cartazes pediam Intervenção Militar. 

No entanto, em vários momentos da manifestações, os organizadores — que estavam em um caminhão de som — pediram para que os cartazes fossem guardados, pois não representariam, segundo eles, o movimento deste domingo.

No Rio de Janeiro, os manifestantes também ignoraram os pedidos para evitar aglomeração e ocuparam de cerca de um quarteirão na praia de Copacabana. Em cima do carro de som, o deputado federal Otoni de Paula (PSC-RJ) minimizou os possíveis efeitos da proliferação do coronavírus em aglomerações. "O verdadeiro coronavírus que mata é a corrupção nesse país", disse ele, que quer o apoio de Bolsonaro para disputar a Prefeitura do Rio.

Assimo como em outras capitais, os manifestantes também exibiam cartazes contra os outros poderes. Um homem com um boné dos Estados Unidos pedia destituição do STF, a "limpeza total" do Parlamento e a instauração de um novo AI-5. De outro carro de som, um homem pedia assinaturas de apoio ao Aliança pelo Brasil, partido que Bolsonaro pretende criar.

Outro alvo foi o governador Wilson Witzel, ex-aliado e hoje inimigo político de Bolsonaro. Do alto do carro de som, um representante do Movimento Brasil Conservador chamou Witzel de traidor e promoveu um "pisaço" numa bandeira com o rosto dele ao som da música tema do filme Tropa de Elite.

Em Belo Horizonte, os manifestantes se reuniram na Praça da Liberdade. Dez mil pessoas participaram da manifestação, segundo informações do movimento Direita BH. Assim como ocorreu em outras cidades, o evento reuniu pessoas que usaram máscaras para se proteger do novo coronavírus. Os manifestantes seguravam placas protestando contra Rodrigo Maia e pedindo a intervenção militar.

Em Goiânia, os cerca de 1.500 manifestantes que se concentraram na Praça Cívica, em Goiânia, foram surpreendidos pela visita do governador do estado, Ronaldo Caiado (DEM). A pé, Caiado se aproximou dos manifestantes, começou o discurso com palavras de apoio ao presidente Jair Bolsonaro e foi aplaudido. 

No entanto, o tom mudou quando o governador afirmou que, como médico de formação, precisava pedir o fim da manifestação. Mesmo vaiado, ele prosseguiu afirmando que era “preciso mais do que nunca ter responsabilidade”. Conforme as vaias prosseguiram, começou a bater boca com os manifestantes: “Vocês vão transformar Goiânia em um ambiente de disseminação do vírus”. 

Os manifestantes pediram pela saída dos lideres do legislativo e judiciário. Depois dos discursos feitos na “voz” pelos líderes da manifestação, as pessoas seguiram em direção à rua para se juntar a diversos carros que passaram apoiando os pedidos dos manifestantes.

Em Salvador, de acordo com os organizadores, 10 mil pessoas participaram de atos que se concentraram no Farol da Barra e no bairro de Amaralina. Os manifestantes conseguiram a autorização para utilizar um trio elétrico. Poucos utilizaram máscaras para evitar o coronavirus. Na avaliação da PM, a manifestação foi pacífica. Além de reiterar apoio a Bolsonaro, foram utilizados cartazes e faixas com frases contra o Congresso e, especialmente, Rodrigo Maia.

No Amazonas, os protestos contaram com a adesão de cerca de 120 manifestantes, segundo a Polícia Militar. No Acre, as manifestações foram canceladas diante do temor de contaminação pelo coronavírus. Em Rondônia, os manifestantes começam a chegar no final da tarde para o ato, previsto para as 17h no horário de Brasília (16h no horário local).

A manifestação durou cerca de duas horas em Porto Alegre. Grupos conservadores foram responsáveis pela organização. Dois carros de som bloquearam a avenida Goethe, ao lado do Parque Moinhos de Vento - tradicional ponto de encontro de movimentos à direita na capital gaúcha. 

Os dois lados da via foram ocupados, ainda sem estimativa do número de presentes. Uma banda formada por apoiadores cantou paródias com letras de apoio ao presidente e ao ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro. Os organizadores estimaram entre 8 mil e 10 mil manifestantes. A Brigada Militar não fez este cálculo.

Entre as pautas dos manifestavam estavam mais verbas para os estados, o combate à corrupção e o fim do fundo de financiamento das campanhas eleitorais. Os discursos foram críticos aos presidentes dos poderes Legislativo e Judiciário, ao PT e aos partidos à esquerda. Os manifestantes também defendiam a votação das pautas econômicas do governo federal, em especial das reformas administrativa e tributária.

Em Fortaleza, onde a manifestação foi oficialmente cancelada, alguns manifestantes se reuniram na Praça da Imprensa. O principal protesto foi contra o Congresso Nacional. Os líderes da manifestação estimaram que cerca de mil manifestantes participaram. Muitos motoristas que passaram pelo local faziam buzinaço em apoio ao ato. (com Estadão Conteúdo)