Abraham Weintraub: Ministro da Educação acumulou polêmicas em 14 meses no cargo


Guilherme Venaglia, da CNN em São Paulo
18 de junho de 2020 às 16:09 | Atualizado 18 de junho de 2020 às 19:18


O economista Abraham Bragança de Vasconcellos Weintraub, de 48 anos, passou um ano e dois meses no cargo de ministro da Educação. Entre a posse como substituto de Ricardo Vélez Rodríguez e a sua saída do governo nesta quinta-feira (18), Weintraub colecionou controvérsias e discussões públicas acaloradas.

Segundo ministro da Educação do governo Bolsonaro, Weintraub foi escolhido para o cargo depois de o presidente demitir Vélez Rodríguez, alegando que o professor colombiano teve problemas de “gestão” por falta de experiência administrativa. Até então, o economista era secretário-executivo da Casa Civil e desconhecido do grande público.

Professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ele entrou de cara em rota de conflito com a comunidade acadêmica das instituições de ensino superior, que vê como sendo dominada por grupos ligados à partidos de esquerda. Boa parte dessas discussões também envolveu o contingenciamento de verbas adotado pelo governo e contestado pelas universidades e institutos federais.

Nos últimos meses, o ministro ganhou mais força como um ícone da ala mais ideológica do governo. Com muita repercussão nas redes sociais, foi progressivamente entrando em temas para além da sua área de atuação. Em um destes episódios, fez uma publicação irônica sobre a China que motivou a abertura de um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) para apurar o crime de racismo.

Antes, dessa vez em uma reunião fechada, havia chamado os ministros do STF de “vagabundos” e sugerido a prisão dos magistrados. Ele foi incluído no inquérito que apura fake news e ameaças contra a Corte.

A ‘balbúrdia’ nas universidades

Ainda em seu primeiro mês no governo, o ministro Abraham Weintraub anunciou que universidades com desempenho acadêmico baixo e registros de “balbúrdia” seriam punidas com contingenciamento de verbas.

Diante das críticas e acusações que estaria ferindo a autonomia universitária, Weintraub afirmou que, na verdade, seria um corte que cobriria todas as instituições federais e que a causa era orçamentária.

Ele chegou a participar de uma live com o presidente Jair Bolsonaro para defender os contingenciamentos. Para ilustrar, o ministro levou bombons de chocolate, separando parte do restante e comparando o contingenciamento com o chocolate que se deixa “para comer depois”.

Manifestações

Nas semanas que se sucederam ao anúncio do contingenciamento, Weintraub foi o foco de manifestações de rua promovidas por estudantes. Dois protestos de maior proporção foram registrados nos dias 15 e 30 de maio de 2019.

O caso levou o ministro a ir à Câmara prestar esclarecimentos sobre o assunto. Em rota de conflito com os manifestantes, Weintraub afirmou que professores das universidades federais “coagiam” seus alunos a participarem dos protestos.

O ministro também voltou a utilizar meios lúdicos para defender as suas teses. No final de maio, divulgou um vídeo com um guarda-chuva e a música Cantando na Chuva para dizer que estava “chovendo fake news”. Era uma reação às críticas de que os contingenciamentos estariam afetando a reconstrução do Museu Nacional, no Rio de Janeiro.

Redes sociais

Conforme foi ganhando destaque no governo, o ministro Abraham Weintraub passou a divulgar com mais intensidade posicionamentos em sua conta oficial no Twitter.

Um dos que mais geraram críticas foi em junho de 2019, quando comparou os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff do PT a cargas de droga, quando se investigava o transporte de cocaína por um integrante da comitiva presidencial.

“No passado o avião presidencial já transportou drogas em maior quantidade. Alguém sabe o peso do Lula ou da Dilma?”, escreveu na oportunidade.

Em novembro, Weintraub criticou a comemoração da Proclamação da República. Em uma das respostas, uma seguidora disse que ele seria o “bobo da corte” caso a monarquia fosse restaurada no país. Na tréplica, o ministro disse que cuidaria dos estábulos, chamando a mãe da usuária da rede de “égua sarnenta e desdentada”.

Enem

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi tema recorrente das publicações durante o período em que ele comandou o MEC. Em janeiro deste ano, depois que o governo admitiu erros na correção de cerca de 6 mil provas, o ministro passou a responder a alguns seguidores selecionados, que o questionavam sobre suas notas.

Já a respeito da prova deste ano, quando as escolas de todo o país passaram a ter as aulas suspensas em virtude da pandemia da Covid-19, o ministro Abraham Weintraub passou a sustentar a posição de que a data original do Enem deveria ser mantida pelo governo.

Em abril, uma decisão judicial havia obrigado o MEC a readequar o calendário à nova realidade escolar, mas o ministro se limitou a dizer que “vai ter Enem”. No mês passado, passou a admitir o adiamento e propor uma enquete. Depois que o Congresso iniciou a votação de um projeto que forçaria o adiamento, o governo aceitou a mudança.

China

Integrantes da chamada “ala ideológica” do governo, na qual se inclui Weintraub, subiram às críticas ao governo da China em razão da pandemia da Covid-19, que se iniciou no país asiático.

O Brasil mal tinha contornado uma crise com os chineses, depois que o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) culpar a China pelo coronavírus, quando Abraham Weintraub foi ao Twitter. Em uma publicação, ele disse que esperava a disseminação de “novos vírus” oriundos do país. 

Em outra, trocando a letra “R” por “L”, em referência ao personagem Cebolinha, ele fez publicação irônica à China, afirmando que o país obteria ganhos políticos com a crise derivada da Covid-19. Após repercussão negativa, o ministro apagou o texto.

A embaixada da China afirmou que as postagens possuíam “cunho fortemente racista”.

A celeuma ganhou contornos jurídicos. A Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu ao Supremo Tribunal Federal a abertura de um inquérito para investigar Weintraub pelo crime de racismo. A apuração foi autorizada pelo ministro Celso de Mello, do STF. Em depoimento à Polícia Federal, ele se disse ofendido pela investigação e reiterou críticas à China.

STF

O Supremo Tribunal Federal foi outro alvo recorrente de críticas de Weintraub. Na reunião ministerial do dia 22 de abril, que foi gravada e teve seu conteúdo divulgado por decisão do STF, o ministro da Educação sugeriu a prisão dos integrantes da Corte.

"Eu percebo que tem muita gente com agenda própria. Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF", disse na oportunidade.

O ministro da Educação foi incluído como parte do inquérito que apura ameaças e fake news contra a Corte. O governo chegou a sair em sua defesa, apresentando um habeas corpus para que ele fosse excluído da investigação. Até esta quarta-feira (17), o julgamento ainda havia sido concluído, mas já havia extensa maioria – 9 dos 11 votos possíveis – pela negativa do pedido. 

No último dia 27, Weintraub classificou uma operação da Polícia Federal ordenada pelo STF, parte do inquérito que apura ameaças e fake news contra a Corte, de “Noite dos Cristais brasileira”. Foi uma comparação da operação com um ataque violento contra judeus na Alemanha durante o regime nazista de Adolf Hitler.

A comparação foi criticada por entidades judaicas. A embaixada de Israel no Brasil pediu que episódios do Holocausto, o genocídio contra judeus europeus durante a Segunda Guerra Mundial, não sejam citados em disputas políticas no país.

"O Holocausto é algo que não desejamos a nenhuma nação, e enfatizamos que isso não seja usado cotidianamente, mesmo em casos que sejam considerados extremos. Nada é tão extremo como o Holocausto, não apenas para os judeus, mas também para outras minorias que sofreram na Europa e no mundo", diz o texto.