Abraham Weintraub, ministro da Educação, deixa o governo Bolsonaro


Bernardo Barbosa e Guilherme Venaglia, da CNN em São Paulo
18 de junho de 2020 às 16:02 | Atualizado 18 de junho de 2020 às 18:14

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, anunciou na tarde desta quinta-feira (18) que está deixando o cargo. Weintraub fez o anúncio em um vídeo publicado em seu canal no YouTube no qual aparece ao lado do presidente Jair Bolsonaro. O ministro atribuiu sua saída a um convite para ocupar um cargo de direção no Banco Mundial, indicação que segundo Weintraub foi referendada por Bolsonaro.

Weintraub disse que "nos próximos dias" passará o cargo para seu substituto, "interino ou definitivo". O mais cotado para chefiar o MEC vinha sendo o secretário nacional de alfabetização, Carlos Nadalim, mas Bolsonaro agora avalia o nome do atual secretário-executivo da pasta, Antonio Paulo Vogel. Ele trabalhou em gestões petistas no passado.

Segundo Weintraub, com a nomeação para o Banco Mundial, ele e sua família poderão ter "a segurança que hoje" estaria deixando-o "preocupado". No vídeo, o ministro não detalhou os motivos de tal preocupação. No entanto, em conversas reservadas com aliados e interlocutores, Weintraub reconhecia o temor de ser preso por causa das ofensas aos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e até de sofrer agressões e ataques físicos, apurou na quarta-feira (17) o analista da CNN Igor Gadelha.

O vídeo em que Weintraub anuncia sua demissão, intitulado "Palavras do Coração", termina com um abraço entre o ministro e Bolsonaro. No site do MEC, sua passagem pela pasta foi descrita como "gestão limpa" e com "amplo legado". Ele foi o 10º nome a deixar o primeiro escalão do governo federal em um ano e meio de mandato de Bolsonaro.

Economista de formação e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Weintraub estava no cargo desde abril de 2019, quando substituiu Ricardo Vélez Rodríguez. Acumulou polêmicas envolvendo o orçamento das universidades federais, o adiamento do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), acusações de racismo e críticas ao STF. 

Mais cedo hoje, Weintraub revogou portaria de 2016 que exigia que as universidades federais promovessem políticas de cotas para negros, indígenas e pessoas com deficiência em programas de pós-graduação. A oposição já se movimenta para revogar a medida no Congresso.

Abraham Weintraub

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Educação, Abraham Weintraub, durante anúncio de que este deixará o governo

Foto: Reprodução/YouTube

Atritos com o STF

No vídeo em que anuncia a saída, Weintraub diz não querer "discutir os motivos" de deixar o cargo. Sua demissão do ministro foi cogitada diversas vezes neste período de um ano e dois meses, mas ganhou contornos mais claros depois da divulgação do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril. No encontro, Weintraub sugeriu a prisão dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF)

"Eu percebo que tem muita gente com agenda própria. Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF", disse durante a reunião.

Segundo aliados de Weintraub, após a divulgação da declaração, em 22 de maio, o ministro teria recebido “recados” de emissários do STF de que sua fala chamando ministros da corte de “vagabundos” poderia ser enquadrada na Lei de Segurança Nacional.

Weintraub registrou recentemente boletins de ocorrência por ameaças a ele e seus familiares, e denunciou que pessoas teriam jogado objetos em seu apartamento, em Brasília. Com isso, passou a admitir, nos bastidores, a possibilidade de assumir um posto fora do Brasil.

Nesta terça-feira (16), o ministro já havia admitido que a sua situação no governo era incerta. "Estou no cargo. Não sei meu futuro. Está difícil prever", disse, em declaração exclusiva à CNN. Na noite de ontem (17), Weintraub admitiu a aliados que estava próximo de deixar o cargo.

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No último fim de semana, Weintraub se encontrou um grupo de manifestantes que conseguiram furar o bloqueio da Esplanada dos Ministérios, fechada para protestos pelo governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB). Em vídeos compartilhados pelos apoiadores do governo, o ministro reitera ofensas aos magistrados.

Segundo apuração do analista da CNN Igor Gadelha, o presidente Jair Bolsonaro ficou muito irritado com a presença de Weintraub no local. Para auxiliares do presidente, ele acabou dando força às reclamações dos ministros do STF, uma vez que as falas anteriores haviam sido feitas em uma reunião fechada ao público. Em entrevista, Bolsonaro disse que o ministro “não foi prudente” e não estava representando o Planalto naquele momento.

Antes deste episódio, o governo havia saído em defesa do ministro. Por meio do ministro da Justiça e Segurança Pública, André Mendonça, o Planalto apresentou um habeas corpus ao Supremo para que o ministro não fosse obrigado a prestar depoimento no chamado inquérito das fake news, que apura notícias falsas e ameaças contra o STF e seus integrantes.

Até ontem (17), nove dos 11 ministros do Supremo já haviam votado a favor de manter Weintraub no inquérito.

À CNN, um auxiliar direto de Bolsonaro avaliou que, enquanto o presidente vem agindo para “proteger” e tirar o ministro do campo de ataque, buscando uma “saída honrosa”, Weintraub estaria agindo para obter ganhos políticos com a crise envolvendo seu nome.

Além do desgaste interno, a situação ainda lhe rendeu uma multa de R$ 2 mil, aplicada pelo governo do Distrito Federal pelo ministro ter descumprido o decreto distrital que obriga o uso de máscaras de proteção em locais públicos.

No fim da tarde, após a divulgação de sua saída, Weintraub foi ao MEC, mas não conversou com a imprensa no local. Limitou-se a dizer que estava "obedecendo" o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, ao usar máscara. "Com isso aqui [máscara], eu não consigo falar", disse.

Antes, o ministro da Educação já havia colocado o governo em uma saia justa, depois de se tornar alvo de um inquérito no próprio STF para apurar um eventual crime de racismo em publicações sobre a China em uma rede social. Para além do problema legal e do constrangimento pela acusação, a fala de Weintraub tratava diretamente do principal parceiro comercial do Brasil. 

Na manifestação à Polícia Federal sobre o caso, obtida pela analista da CNN Renata Agostini, o ministro da Educação reforçou as críticas à China e se disse ofendido pela investigação.

Protestos e Enem

Em seus 14 meses no MEC, Abraham Weintraub acumulou polêmicas e conflitos, muitos deles com a comunidade acadêmica das universidades e institutos federais. Logo na largada, o ministro afirmou que haveria uma punição, com o contingenciamento de gastos, àquelas universidades que tivessem desempenho acadêmico baixo e praticassem o que chamou de "balbúrdia".

Após as críticas, o contigenciamento passou a ser explicado por uma questão orçamentária e foi estendido a todas as instituições do país. Em reação, grupos de estudantes organizaram duas manifestações, nos dias 15 e 30 de maio do ano passado, que tomaram as ruas de várias cidades brasileiras. Na tréplica, Weintraub acusou os professores das instituições de "coagirem" seus alunos a protestar.

A gestão também foi marcada por problemas com o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) do ano passado. Em janeiro deste ano, depois que o governo admitiu erros na correção de cerca de 6 mil provas, Weintraub passou a responder a alguns seguidores selecionados de suas redes sociais, que o questionavam sobre suas notas.

Já a respeito da prova deste ano, Weintraub defendia que a data original do Enem deveria ser mantida, mesmo no momento em que escolas de todo o país estão com aulas presenciais suspensas em virtude da pandemia da Covid-19. Só no fim de maio, diante de uma possível derrota no Congresso e de semanas de reclamações de estudantes, o MEC anunciou que a prova seria adiada -- uma nova data ainda não foi marcada.

Resistência no Congresso

Desde o início do mês passado, Abraham Weintraub tinha contra si três polos favoráveis à sua saída: os partidos do chamado Centrão, que se aproximaram do governo e dão sustentação política a Bolsonaro no Congresso; o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ); e os ministros da ala militar.

A seu favor, o chefe do MEC contava com o apoio da chamada "ala ideológica", os integrantes do governo federal que têm como referência o escritor Olavo de Carvalho. O ministro ainda contava com os apoios dos filhos do presidente Jair Bolsonaro e de parte da militância mais engajada do governo.

O exemplo mais claro da resistência que se formou no Congresso à Abraham Weintraub foi o episódio da medida provisória, editada pelo presidente Bolsonaro, que dava a ele o poder de nomear reitores de universidades e institutos federais durante a pandemia da Covid-19, sem a necessidade das consultas obrigatórias à comunidade acadêmica.

A medida provisória foi devolvida ao governo pelo presidente do Congresso Nacional, senador Davi Alcolumbre (DEM-AP). Foi a primeira vez que algo do tipo aconteceu desde 2015. 

Segundo a analista da CNN Basília Rodrigues, a devolução foi recebida no governo como um "passa-fora" em Weintraub. O alvo não é a medida, mas o ministro", avaliou um ministro de governo com boa interlocução junto ao presidente Jair Bolsonaro.

Menos de uma hora após o anúncio da saída de Weintraub, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), manteve o tom crítico à atuação do ministro.

"Estava muito ruim o Ministério da Educação. Esperamos que a gente possa ter alguém de fato comprometido com a educação e com o futuro das crianças", afirmou.

Com a saída de Weintraub, seu irmão, Arthur Weintraub, também deve deixar o governo, disseram ministros do alto escalão à analista da CNN Thais Arbex na tarde desta quinta-feira (18). Arthur ocupa o cargo de assessor especial do presidente e despacha de dentro do Palácio do Planalto.

(Com informações de Caroline Rosito, Larissa Rodrigues e Rachel Vargas, da CNN em Brasília)