Prisão de Queiroz é pior crise de Bolsonaro

Motivo é que a operação não tem apenas como alvo Queiroz, mas também o advogado do presidente, Frederick Wassef, e de seu filho, o senador Flavio Bolsonaro

Caio Junqueira
Por Caio Junqueira, CNN  
18 de junho de 2020 às 11:11 | Atualizado 20 de junho de 2020 às 21:45

As acusações de Sergio Moro de que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) interferia politicamente na Polícia Federal, os inquéritos do Supremo Tribunal Federal que investigam atos antidemocráticos e o disparo de fake news e as ações de cassação da chapa do presidente e do seu vice Hamilton Mourão no Tribunal Superior Eleitoral estão muito longe de competir com a operação que prendeu hoje Fabrício Queiroz. O episódio desta manhã é o que mais ameaça o cargo de Bolsonaro.

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O motivo é que a operação não tem apenas como alvo Queiroz, mas também o advogado do presidente, Frederick Wassef, e de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro. Wassef era dono da casa em que Queiroz morava há mais de um ano. A grande questão que se impõe agora é: os Bolsonaro sabiam?

Evidente que a estratégia será tratar o caso como algo apenas que partiu de Wassef, mas a proximidade dele com a família presidencial é tamanha que será necessária uma excelente amarração de pontas para que a história fique de pé. 

Wassef mora em São Paulo, mas vai praticamente toda semana para Brasília. Frequenta o Palácio da Alvorada, o Palácio do Planalto e a casa de Flavio Bolsonaro. É um dos principais adeptos da tese de que há uma conspiração do establishment político para derrubar o presidente que parte principalmente do Rio de Janeiro, governado ainda por Wilson Witzel, adversário dos Bolsonaro. 

Sua presença constante em Brasília, no círculo íntimo, do presidente sempre incomodou muito a chamada ala militar e os ministros do núcleo jurídico do presidente, mas nunca houve quem conseguisse tirá-lo de perto do presidente.

A operação de hoje pode ajudar a entender o motivo pelo qual isso ocorria. Wassef detinha um dos maiores segredos da República: ele não só sabia onde estava Queiroz, como era seu guardião. Se as investigações demonstrarem que havia anuência da família para tal, aí sim a situação política do presidente pode se complicar de fato.

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Com um agravante. Enquanto todas as outras questões que ameaçam o mandato presidencial podem -e até estavam- sendo pacificadas com operações políticas encabeçadas pelos chefes dos três poderes, nesta em específico a capacidade de atuação de Dias Toffoli ou Davi Alcolumbre para salvar a pele do presidente é bem mais difícil. A razão é simples: é uma operação encabeçada pelo Ministério Público do Rio e executada pela Polícia de São Paulo. 

Dois estados cujos governadores, Witzel e João Doria, sabem que Bolsonaro investe contra eles em operações da Polícia Federal para apontar-lhes corrupção na utilização de recursos para o combate à pandemia. O jogo, portanto, está longe de ser resolvido em conversas ao pé de ouvido. Ele está muito mais para quem acerta primeiro o tiro letal. E Bolsonaro é o alvo do dia.