Bolsonaro enquadra Guedes à sua agenda política

A leitura no entorno do presidente é a de que Guedes ainda não vive um estágio de fritura avançada similar ao que viveram outros ministros

Caio Junqueira
Thais Arbex
26 de agosto de 2020 às 18:30 | Atualizado 26 de agosto de 2020 às 19:16

Ministros com quem a CNN conversou afirmaram que a ideia do presidente Jair Bolsonaro ao repreender publicamente o ministro da Economia, Paulo Guedes, foi a de enquadrar a equipe econômica e passar o recado de que ela precisa se alinhar ao que o Palácio do Planalto deseja, sob pena de ser destituída.  

A leitura no entorno do presidente é a de que Guedes ainda não vive um estágio de fritura avançada similar ao que viveram outros ministros, como Gustavo Bebbiano (Secretaria-Geral da Presidência), Luiz Henrique Mandetta (Saúde) e Sergio Moro (Justiça), mas que, caso Guedes e sua equipe não entreguem o programa social Renda Brasil nos moldes que o presidente deseja, ele e sua equipe poderão, sim, deixar a Economia.  

"Paulo Guedes é excepcional, mas ele tem a agenda dele. Quando Paulo Guedes entender que o presidente tem a agenda dele também, vai dar tudo certo. Caso contrário vai dar errado", disse à CNN um ministro com muito trânsito com o presidente.

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O recado dado nesta tarde tem como pano de fundo também a relação que Guedes vem desenvolvendo com outros ministros e, principalmente, com o Congresso Nacional. Um integrante da Esplanada dos Ministérios também com trânsito no Palácio do Planalto disse à CNN que a equipe econômica tem atuado como um “governo paralelo”. De acordo com os relatos desse auxiliar de Bolsonaro, as discussões sobre o Orçamento de 2021 têm ampliado o sentimento de insatisfação com Guedes. Muitos ministérios estão se deparando com cortes bruscos em seus recursos para ano que vem, sem qualquer comunicação prévia. "É como se fosse um governo paralelo", afirmou.

Bolsonaro pediu a Guedes que um novo desenho do Renda Brasil saia até sexta, sem mexer no abono salarial e reduzindo ao máximo o impacto em programas sociais já existentes.   

Além disso, no Congresso, o sentimento é de que Guedes trabalha para embarreirar a agenda política dos parlamentares, em um momento em que o presidente se aproxima do Centrão e do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Bolsonaro e Maia, inclusive, reuniram-se nesta manhã, antes da viagem do presidente a Ipatinga (MG), onde ele fez as declarações contra Guedes.

O encontro acontece no momento em que há uma articulação para que o governo faça uma sinalização ao Congresso e defina o novo valor do auxílio emergencial em conjunto com os parlamentares. O benefício, criado por conta da crise do novo coronavírus, será prorrogado até dezembro, mas num valor menor do que os atuais R$ 600.

Segundo relatos feitos à CNN, líderes do Legislativo propuseram a aliados de Bolsonaro que o governo envie na medida provisória da prorrogação do auxílio emergencial um valor de R$ 250 para que o Parlamento chegue a R$ 300. A ideia é que a proposta fique pronta até sexta-feira (28) e o texto chegue ao Congresso no início da próxima semana.

A atuação conjunta marcaria a mudança de postura da articulação política do Palácio do Planalto. O novo líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros (PP-PR), está na linha de frente dessas negociações.

A CNN apurou que, na semana passada, líderes partidários chegaram a discutir a proposta com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). A ideia, neste momento, é tentar mostrar à sociedade que há um trabalho conjunto, e não mais uma disputa.

Logo no início da pandemia da Covid-19 no país, a paternidade do valor de R$ 600 do auxílio emergencial foi alvo de disputa. Inicialmente, o governo havia proposto R$ 200 e, depois da atuação de Maia para chegar a R$ 500, Bolsonaro e a equipe econômica aumentaram em R$ 100.