Doleiros presos na Lava Jato voltam a detalhar esquema de propinas na Alerj

Marcelo Bretas ouviu os irmãos Chebar, Álvaro Novis, Sérgio de Castro Oliveira e Carlos Miranda

Iuri Corsini*, da CNN, no Rio de Janeiro
19 de novembro de 2020 às 14:49

O juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, ouviu na tarde desta quarta-feira (18) testemunhas de acusação e colaboradores no bojo da operação Furna da Onça, um desdobramento da Lava Jato no Rio, que investiga pagamentos e esquemas ilícitos durante o governo de Sérgio Cabral. Foram ouvidos os irmãos Chebar, Álvaro Novis, Sérgio de Castro Oliveira e Carlos Miranda, todos eles operadores financeiros do esquema criminoso comandado pelo ex-governador do Rio. 

Eles voltaram a explicar como eram feitos os pagamentos ilegais a deputados e outras pessoas influentes, no intuito de obter vantagens e/ou apoio político na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). 

Os irmãos Chebar são operadores financeiros que ficaram responsáveis por administrar as contas do ex-governador Sérgio Cabral no exterior. No depoimento, o irmão mais novo, Marcelo Chebar, afirmou que mantinha contas em nome de Cabral em ao menos quatro países: Bahamas, Andorra, Suíça e Antígua. O dinheiro que os doleiros guardavam de Cabral no exterior eram oriundos de propinas recebidas pelo ex-governador.

Marcelo e Renato Chebar fecharam acordo de delação premiada em janeiro de 2017 e já repatriaram ao menos R$ 270 milhões à justiça. Eles voltaram a afirmar que a partir de 2007 o fluxo de valores aumentou de tal forma que eles precisaram terceirizar o serviço, usando a estrutura de Vinicius Claret Vieira Barreto, o "Juca Bala", e Cláudio Fernando Barboza de Souza, o “Tony”.

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“Temendo operações policiais que ocorreram no início dos anos 2000, Cabral me pediu para que eu assumisse suas contas. Porém, quando ele entrou no governo, o volume aumentou substancialmente e nós não tivemos mais condições de assumir tudo. Então contratamos os serviços do Vinícius e do Tony”, afirmou Renato Chebar. 

Renato ainda disse que no início as operações consistiam em compras de real para dólar, mas que depois foi o inverso: venda de dólar e compra de real. Chebar ainda reiterou que seu contato direto era com Carlos Miranda, que era quem passava todas as ordens de pagamento e comandava toda a parte operacional do esquema ilegal. Carlos é apontado pela justiça como o operador de propinas e braço direito de Cabral.

O doleiro Renato Chebar ainda explicou o que motivou os irmãos Chebar a fazerem o acordo de delação. 

“Nossa colaboração foi pensada, refletida. Queríamos limpar nossa vida e não queríamos mais seguir em frente com aquele problema. Por isso procuramos o MPRJ”, informou.

No depoimento seguinte, Álvaro Novis, outro doleiro envolvido na organização criminosa montada por Sérgio Cabral, revelou que prestava serviços a Fetranspor e também a Odebrecht. 

“Em relação ao meu papel nessas operações, no caso da Fetranspor, era fazer o recolhimento dos reais que ficavam armazenados dentro de uma transportadora, custodiados lá. Eu aguardava ordem das pessoas responsáveis por esses recursos para fazer os devidos pagamentos. Era esse meu papel dentro dessa organização”, afirmou Nóvis. 

Álvaro também afirmou que era Carlos Miranda quem operacionalizava o esquema em nome de Cabral. Ele detalhou como eram feitos os repasses pelo caixa da Fetranspor a outras empresas e políticos.

“Os valores eram arrecadados semanalmente. Existia um valor por cada empresa que participava dessa arrecadação. Essa lista eu recebia no início do mês pela Fetranspor e era feito esse recolhimento nas garagens em cada dia correspondente de sua data. Os valores eram armazenados na transportadora e ali ficavam custodiados”, disse.

Nóvis ainda afirmou que o esquema da Fetranspor foi anterior à entrada da Odebrecht. 

“Quando a Odebrecht entrou, eventualmente os mesmos clientes da Fetranspor também eram beneficiários da Odebrecht. Existia a coincidência de serem as mesmas pessoas que recebiam, tanto pela Fetranspor quanto pela Odebrecht e o modus operandis era praticamente o mesmo”, revelou o doleiro.

Ele ainda citou nominalmente os ex-parlamentares Jorge Picciani e Paulo Melo, como tendo se beneficiado do esquema criminoso, tendo recebido valores tanto do caixa da Fetranspor quanto do caixa da Odebrecht. 

Já Sérgio de Castro Oliveira, o “Serjão”, outro operador financeiro de cabral, confirmou que os pagamentos feitos a deputados estaduais eram para garantir apoio político e aprovar projetos. No final de 2018, 10 deputados estaduais foram denunciados pelo MPF pelo esquema de propinas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). O esquema envolvia nomeações ilícitas e pagamentos de propinas a deputados em troca de apoio aos governos de Cabral - fato confirmado por Sérgio Oliveira.

“Serjão” ainda afirmou que os valores pagos variavam de acordo com a importância e força política de cada deputado. Presidentes de comissões, por exemplo, recebiam mais. 

A verba paga a esses deputados vinham da Fetranspor, através de caixa único de Carlos Miranda. 

“Entreguei valores para algumas pessoas. Mas esses 10 deputados eu ligava pessoalmente, pois o Carlos (Miranda) demandava. Daí eu ligava para o deputado “X”, dizia quando teria reunião, daí o Carlos acionava o Chebar ou o Novis, para que fosse feita a entrega dos valores a esse deputado determinado”, explicou Sérgio.

Fechando as oitivas, Bretas ouviu Carlos Miranda, responsável pelo gerenciamento dos recursos ilícitos arrecadados pela organização criminosa, e também responsável pelos pagamentos determinados por Sérgio Cabral para manter essas relações mencionadas acima.

Carlos afirmou que as verbas “advinham basicamente de prestadores de serviço do estado, empreiteiras, Fetranspor e etc.”, informando, ainda, que também houve pagamentos de propina com obras com recursos federais. Carlos disse que todos os recursos que arrecadava iam para um caixa único e, a partir daí, ele redistribuia o dinheiro de acordo com o que era determinado por Cabral. 

Carlos também voltou a explicar como era montada a estrutura para a reserva e repasse dos valores lícitos.

“Eu guardava o dinheiro com os doleiros (irmãos Chebar) e trabalhava diretamente com Sérgio Castro e Luiz Carlos Bezerra. Eles me auxiliavam tanto na arrecadação quanta na realização dos pagamentos. O dinheiro ficava custodiado com os irmãos Chebar, quase que eu sua totalidade. Eu fazia controles regulares com Renato Chebar - uma espécie de prestação de contas”.

Carlos Miranda foi outro que afirmou que os valores repassados para deputados estaduais e demais políticos na Alerj eram para compra de apoio político na Assembleia.

*estagiário sob supervisão de Maria Mazzei