Comandantes das Forças Armadas não aceitaram ser massa de manobra, diz Calheiros

Em recado a Bolsonaro, senador do Alagoas disse que 'Forças Armadas não pertencem a ninguém, são do Brasil'

Gregory Prudenciano, da CNN, em São Paulo
30 de março de 2021 às 20:43 | Atualizado 30 de março de 2021 às 22:00

O senador Renan Calheiros (MDB-AL) afirmou nesta terça-feira (30), em entrevista à CNN, que viu no episódio que levou à demissão conjunta dos comandantes das três Forças Armadas um sinal de resistência contra o que classificou como uma tentativa de fazer das Forças uma "massa de manobra para provável utilização político-partidária".

"É hora de ressaltar o papel altivo e de respeito à Constituição e à democracia do ex-ministro da Defesa e dos comandantes militares, que provavelmente não aceitaram ser massa de manobra e nem permitiram a expropriação das Forças Armadas por quem quer que seja", afirmou Calheiros. 

Depois que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) promoveu mudanças na equipe ministerial, o que incluiu a troca do então ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, por Walter Braga Netto, que comandava a Casa Civil, os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica anunciaram que estavam deixando seus cargos. 

Para Calheiros, as mudanças nos ministérios de Bolsonaro soam como "mera troca de seis por meia dúzia". Ainda assim, no caso do processo que levou às mudanças das três Forças, o senador afirmou que o presidente da República vinha demonstrando "um exercício diário, rotineiro, com ameaça de golpe, de retrocesso, de fechamento dos Poderes" e, por isso, via desgastada sua relação com o Congresso Nacional. 

Relação com o Legislativo

O senador afirmou que a reforma ministerial teve também o objetivo de estreitar laços entre o Executivo e o Legislativo, e constitui uma reação do presidente ao "cartão amarelo" levantado pelo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que, em discurso feito na semana passada, falou sobre "remédios amargos" e até "fatais" contra a "espiral de erros" cometidos no combate à pandemia. 

A principal reação de Bolsonaro ao discurso de Lira teria sido fazer da deputada Flávia Arruda (PL-DF) a nova ministra da Secretaria de Governo. Arruda é próxima do presidente da Câmara e presidiu a Comissão Mista de Orçamento, responsável pela formulação da PLOA (Projeto de Lei Orçamentária Anual) e que tem sido objeto de críticas de Calheiros.

"Ela [Flávia Arruda] vai ter que mostrar serviço. O primeiro grande desafio dela é resolver o impasse do orçamento. O Congresso Nacional conseguiu produzir uma obra-prima: expropriou R$ 35 bilhões para emendas parlamentares. O primeiro desafio dela é resolver esse impasse que ela mesma ajudou a criar como presidente da CMO. Teremos momentos interessantes pela frente", disse o senador.