Roberto Dias confirma encontro com Dominghetti, nega propina e sai preso da CPI

Pedido de prisão foi feito após a exibição de uma reportagem da CNN que traz áudios que colocam em xeque a versão de encontro acidental entre os dois

Bia Gurgel, da CNN, em Brasília; Rafaela Lara e Renato Barcellos, da CNN, em São Paulo
07 de julho de 2021 às 09:02 | Atualizado 07 de julho de 2021 às 19:15
Advogada de Roberto Dias discute com Omar Aziz
Advogada de Roberto Dias discute com Omar Aziz após o presidente da CPI dar voz de prisão ao ex-servidor da Saúde
Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado

A CPI da Pandemia ouviu nesta quarta-feira (7) o ex-diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde Roberto Ferreira Dias.

Durante a oitiva, o ex-servidor da Saúde negou ter marcado um jantar no restaurante Vasto, em Brasília, com o coronel Blanco e o revendedor de vacinas Luiz Paulo Dominghetti.

Segundo ele, o encontro no restaurante era apenas com José Ricardo Santana, apontado por Dias como "um amigo". Ainda de acordo com o ex-funcionário da Saúde, o pedido de propina relatado por Dominghetti nunca aconteceu. 

Enquanto a sessão se encaminhava para o final, a versão do encontro aprensentada pelo ex-diretor do Ministério da Saúde, no entanto, foi contestada por senadores. 

Ao responder uma questão elaborada pelo senador Fabiano Contarato (Rede-ES), Roberto Dias foi interpelado por Eliziane Gama (Cidadania-MA), que alertou sobre uma reportagem da CNN que traz áudios que colocam em xeque a versão de encontro acidental entre Luiz Paulo Dominghetti e o ex-servidor da Saúde.

Com as informações reveladas pela CNN, o presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM), mandou prender Roberto Dias. Aziz já havia reclamado que o ex-servidor da Saúde estava se esquivando das perguntas formuladas pelos senadores. 

O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) tentou reverter a situação alegando que outros depoentes também mentiram à comissão e não foram presos.

Aziz, porém, não atendeu ao apelo do colega, manteve a decisão e encerrou a sessão.

Acompanhe o resumo da CPI da Pandemia: 

  • Presidente da CPI dá voz de prisão a ex-diretor da Saúde, que sai preso do Senado

O presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia, senador Omar Aziz (PSD-AM), mandou prender o ex-diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde Roberto Dias.

Aziz já havia reclamado que o ex-servidor da Saúde estava se esquivando das perguntas formuladas pelos senadores. 

"O depoente vai ser recolhido pela Polícia do Senado. Ele está mentindo desde cedo e tem coisas que não dá para admitir (...) chame a Polícia do Senado. O senhor está detido pela presidência da CPI", afirmou Aziz.

Enquanto respondia uma questão elaborada pelo senador Fabiano Contarato (Rede-ES), Roberto Dias foi interpelado por Eliziane Gama (Cidadania-MA), que alertou sobre uma reportagem da CNN que traz áudios que colocam em xeque a versão de encontro acidental entre Luiz Paulo Dominghetti e o ex-servidor da Saúde.

"Os áudios que temos do Dominghetti são claros", ressaltou Aziz.

Após a decisão do presidente da CPI, o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) tentou reverter a situação alegando que outros depoentes também mentiram à comissão e não foram presos.

"Se ele fez o compromisso de falar a verdade e não falou, tem que ser preso. O erro é da comissão que não prendeu todos", avaliou Fabiano Contarato.

"Hoje acabou a paciência... ele passou o tempo todo mentindo para a CPI. Chegou a hora da CPI tomar uma decisão definitiva senão não vamos conseguir que as pessoas falem a verdade nessa CPI", afirmou Rogério Carvalho (PT-PE).

Omar Aziz, no entanto, não atendeu o apelo dos colegas, manteve a decisão e encerrou a sessão.

  • Dias nega que tenha descumprido ordens de superiores; Aziz afirma que ele foi orientado pela Casa Civil

O ex-diretor da Saúde negou que tenha descumprido qualquer ordem recebida do ex-secretário-executivo Élcio Franco ou do ex-ministro Eduardo Pazuello. 

"Não tenho na memória nenhuma ordem não cumprida ou descumprida", afirmou Roberto Dias.

O senador Omar Aziz (PSD-AM), presidente da CPI, afirmou, então, que Dias produziu um dossiê para se defender e foi orientado pela Casa Civil em relação às repostas que deveria dar.

"Nós sabemos onde [o dossiê] está", declarou Aziz. 

  • Dias diz que se encontrou com Ricardo Barros, mas nega influência do deputado

O ex-diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde Roberto Dias afirmou à Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia que já se reuniu "algumas vezes" com o deputado federal e líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR).

Questionado pelo vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), Dias -- que já atuou no funcionalismo público do Paraná -- ressaltou ainda que também esteve com a bancada do estado. 

"Durante todo esse período [que estive] em Brasília, [me reuni com Ricardo Barros] algumas vezes. Principalmente com prefeito do Paraná (sic), bancada do Paraná, sim", disse Dias.

O senador Humberto Costa (PT-PE) perguntou, então, se o ex-servidor da Saúde frequentava a casa do deputado paranaense. Dias afirmou que esteve na residência de Barros em apenas uma oportunidade. Ele negou, no entanto, que tenha estado na casa do parlamentar recentemente.

Mais cedo, Roberto Dias já havia dito que tinha um relacionamento com Barros, assim como também tinha com outros parlamentares do Paraná. 

Na mesma ocasião, o ex-servidor da Saúde contou aos senadores que foi nomeado pelo ex-ministro Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS), mas que foi indicado pelo deputado federal Alberto Lupion (DEM-PR).

  • 'Não era responsável por negociar preço da vacina', afirma Dias

Ao ser questionado sobre o suposto superfaturamento do contrato da Covaxin, que previa um preço de US$ 15 por dose, Roberto Dias voltou a afirmar que todas as tratativas estavam na alçada do secretário-executivo da pasta, o coronel Elcio Franco. 

"Essa pergunta faz todo sentido e precisa ser feita à secretaria executiva. Meu departamento não participou dessa fase de levantamento de preços", declarou. No âmbito das vacinas, "a negociação, cronograma, preço, empresa, prazo, entrega" eram todos atributos exclusivamente da Secretaria Executiva. Para qualquer outro insumo, o Departamento de Logística desenvolveria o processo de compras até o contrato e posteriormente faria a distribuição, afirmou.

Os senadores entraram em conflito após o questionamento de Calheiros, já que Dias foi pressionado acerca de suas competências reais para discutir a aquisição de doses e seus respectivos preços.

Para a ala independente da CPI, há contradição entre estas não serem as funções originais do ex-diretor do Departamento de Logística e o fato dele ter comparecido ao jantar com Dominguetti. A senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) afirmou que esses fatos, em acréscimo com o encontro de Roberto Dias com seu amigo José Ricardo Santana eram "coincidência demais".

Renan Calheiros levantou a possibilidade de reconvocar Élcio Franco para a realização de uma acareação com Roberto Ferreira Dias – o que faria as versões dos dois depoentes serem contrastadas em face dos fatos alegados por ambos. 

  • Dias nega ter pressionado servidor da saúde que denunciou caso

O depoente também negou ter exercido pressão sobre Luis Ricardo Miranda, servidor do Ministério da Saúde e irmão do deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) que originou as primeiras suspeitas acerca da aquisição da Covaxin. 

"Não fiz pressão no servidor Luis Ricardo", reiterou Roberto Dias ao ser questionado por Renan Calheiros. "Se houve pressão, eu não o fiz e desconheço quem faria". 

O ex-diretor também afirmou que, em relação a informações que poderiam ser solicitadas a ele, não estavam previstos detalhes sobre as negociações de vacinas. "O que eu recebia eram pedidos de informação de andamento de diversos fatos e diversas crises ao longo da pandemia".

  • Ex-diretor de logística do Ministério da Saúde diz que tinha 'pouco contato' com Elcio Franco

Ao ser questionado pelo relator acerca de seu relacionamento com o então secretário-executivo da pasta Elcio Franco, Dias afirmou que tinha "pouco contato". "Eu tinha pouco contato. Não tinha divergência, apenas pouco contato", disse.

Ele também afirmou desconhecer o motivo do pedido de Franco para que se exonerasse dois funcionários da pasta. "Não sei porque. Desconheço. Entendo que elas foram exoneradas injustamente. Elas trabalhavam muito bem."

Segundo o presidente da comissão, senador Omar Aziz (PSD-AM), Elcio também teria solicitado a exoneração de Dias. "Por que essa divergência com ele?", pergunta Omar. 

"Peço que o senhor faça a pergunta a ele inclusive. Desconheço", responde Dias. De acordo com o depoimento de Dominghetti, Elcio Franco não tinha conhecimento do suposto pedido de propina. "Ele estranhou", disse Dominghetti durante sua oitiva na última quinta-feira (1º). 

  • Dias diz que recebeu reverendo para tratativas de aquisição de vacinas

Durante as perguntas do relator Renan Calheiros, Dias revelou ter recebido o reverendo Amilton Gomes de Paula, líder religioso ligado à Igreja Batista, no Ministério da Saúde para tratativas sobre aquisição de vacinas. Ele, no entanto, não soube apontar quem pediu a agenda oficial da pasta com o reverendo. 

"Me lembro de ter recebido ele [Amilton de Paula] uma única vez não me recordo a pedido de quem. Foi em agenda oficial e está regstrado", disse. 

Segundo Dias, a retórica do reverendo "era a mesma" da apresentada pela Davati e Dominghetti. "A retórica era a mesma. Diz que possui 200 milhões de doses disponiveis, mas não possuia a carta de representação do fabricante e aquilo acabou ali."

  • Dias diz que não negociou vacina, mas sim verificou disponibilidade de doses

O ex-diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde afirmou em depoimento à comissão que não negociou as vacinas da AstraZeneca com a Davati, mas sim "verificou a disponibilidade de doses". A Davati pretendia vender 400 milhões de doses ao governo. 

Ao ser perguntado sobre reuniões com outras empresas para aquisição de vacinas, como a Pfizer, Dias afirmou que "são coisas distintas". 

"Quando se faz referência a Pfizer, o Sr. faz alusão a duas coisas distintas. Na Pfizer, é negociação de contratação de vacinas a qual não era minha atribuição e nunca o fiz. Quando o Sr. fala da Davati, são 400 milhões de doses de vacinas a pronta entrega, então estou verificando a existência das doses. Não estou negociando vacina ou preço."

"Não me coube negociar vacinas, fiz reuniões operacionais, sim. E com a Davati foi a verificação da existência das doses. É diferente, bem diferente", completou Dias.

  • Dias: Davati só passa a existir a partir do dia 26

Segundo o depoente, a empresa Davati Medical Supply, que ofertava as vacinas da AstraZeneca ao Ministério da Saúde, só "passa a existir a partir do dia 26 [de fevereiro]". O jantar com Dominghetti, que Dias nega ter marcado, aconteceu no dia 25 de fevereiro. 

"No início de fevereiro, quando chega a possibilidade da existência dessas doses e seria a cargo desse Sr. Cristiano. Ele então me manda um anexo, um conjunto de documentos que não fazem sentido e não apresenta o princípio básico: a carta de representação do fabricante", disse. 

Dias disse que a empresa até então não era a Davati, mas sim se apresentava como "Latin Air Supply". "Ela [a empresa] não se apresentava como Davati, mas sim como Latin Air Supply. A Davati passa a existir após o dia 26 de fevereiro. Antes do dia 26, a proposta era de uma empresa chamada Latin Air Supply, algo assim", revelou. 

  • Dias diz que teve 'agenda com amigo' em restaurante e que não combinou encontro com outras pessoas 

Durante sua oitiva, Dias negou ter marcado jantar no restaurante Vasto, em Brasília, com o coronel Blanco e o revendedor Luiz Paulo Dominghetti. Segundo ele, o encontro no restaurante era apenas com José Ricardo Santana, apontado por Dias como "um amigo".

"O encontro foi marcado entre mim e meu amigo, marcado por telefone. Não combinei encontro com outras pessoas além dessa. Muito provavelmente o coronel Blanco soube por alguma mensagem ou ligação. Eu estava na mesa quando coronel Blanco chega e me apresenta Dominghetti, falamos sobre futebol, e ele então introduziu o assunto de vacina e, posteriormente,  eu pedi a agenda formal no Ministério", disse.

Segundo ele, o pedido de propina relatado por Dominghetti nunca aconteceu. "Esse episódio nunca ocorreu. Eu estive com Dominguetti nessa noite, no dia seguinte na agenda oficial no ministério, e nunca mais o vi".

  • Dias: Nunca falei com Bolsonaro ou com os filhos dele

Ao responder as perguntas do relator, senador Renan Calheiros (MDB-AL) afirmou que nunca conversou com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ou com os filhos dele.

"[Não tenho relação] nenhuma com o presidente, conheço o presidente. O mais próximo que estive do presidente foi cerca de 5 metros. Nunca falei com ele ou com os filhos dele", disse. 

Ele também afirmou que nunca recebeu nenhuma orientação do gabinete da Casa Civil acerca de recomendações. "Nunca recebi nenhuma orientação formal ou informal". Dias afirmou, no entanto, que devido a criação de um gabinete de crise, a Casa Civil "deve ter trocado ou mandado mensagem para mim ou para a caixa institucional do Dlog [departamento de logística] por força dos grupos que a gente participava". 

  • Nunca pedi nenhum tipo de vantagem a Dominghetti, diz Dias

Durante sua fala inicial, Roberto Dias afirmou nunca pediu nenhuma vantagem ao revendedor de vacinas da Davati Medical Supply, Luiz Paulo Dominghetti. 

"Nunca pedi nenhum tipo de vantagem a Dominguetti e nem a ninguém. Em 25 de junho fui injustamente acusando nessa CPi de pressionar um funcionário e como prova foi mostrada uma mensagem onde eu perguntava: Como está a LI da vacina?", disse.

Dias afirmou que é servidor de carreira há mais de 20 anos e que vem sendo "massacrado" pela imprensa "sem que haja uma única prova ou indício que sustente tais alegações". "Acerca da denuncia de Luis Miranda da Covaxin não tive participação nenhuma, me cabendo atos ordinários para a concepção do processo administrativo e questões logísticas. Friso: nunca houve pressão minha sobre o funcionário muito menos aquela mensagem retrata tal fato."

Ainda em sua fala inicial, o ex-diretor deu detalhes sobre o jantar com Dominghetti no restaurante Vasto, em Brasília. "Em 25 de fevereiro fui com um amigo no restaurante Vasto para tomar um chopp e, em dado momento, se dirigiu à mesa o coronel Blanco acompanhado de uma pessoa que se apresentou como Dominguetti", disse. 

Segundo ele, Dominghetti disse representar uma empresa que possuía 400 milhões de doses de vacina da AstraZeneca. Dias afirmou que a informação "circulava" no Ministério da Saúde e pediu que o revendedor solicitasse "agenda formal" na pasta. 

"Chegando ao Ministério, ele [Dominguetti] foi recebido por mim, os documentos se mostraram mais do mesmo, e não havia a carta de representação do fabricante. Ele disse que receberia em instantes. Eu disse que teria outra agenda, mas que se ele quisesse aguardar que ficasse à vontade na sala ao lado. Tempos depois ele se despediu, disse que tinha que ir embora e nunca mais tive noticias assim como muitos outros ofertantes de vacinas. Acerca da alegação de Dominguetti: nunca houve nenhum pedido meu a este senhor", disse.

  • Dias diz conhecer o deputado federal Ricardo Barros (PP-PR)

 O servidor afirmou ao ser questionado pelo relator Renan Calheiros (MDB-AL) que conhece o deputado e líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR). O parlamentar é citado no depoimento de Luis Miranda, que denunciou supostas irregularidades na compra de outra vacina, a Covaxin.

"Conheço ele [Barros] e tenho um relacionamento como tenho com parlamentares do Paraná", disse. Segundo Miranda, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) citou Barros ao falar de um suposto “rolo” na aquisição das vacinas indianas.

Ao falar sobre chegada no Ministério da Saúde, Dias afirmou que o deputado Abelardo Lupion apresentou seu currículo para o então ministro da Saúde, Luis Henrique Mandetta. 

"Depois disso, a cada troca de ministro os convites foram sendo refeitos", relatou.

  • Antes de início de depoimento, CPI aprovou convocação de reverendo que negociou vacinas com a Davati

Na sessão desta quarta-feira (7) aprovou três requerimentos, de autoria do vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP). São eles: a convocação do reverendo Amilton Gomes de Paula, apontado pelo diretor do departamento de Imunização do Ministério da Saúde, Lauricio Monteiro Cruz, como quem abriu as portas da pasta para a empresa Davati Medical Supply e Dominghetti. 

O segundo requerimento é pela convocação de Andreia Lima, CEO da VTC Operadora Logística, para prestar depoimento à comissão. O terceiro e último requerimento aprovado convoca William Amorim Santana, servidor da divisão de importação do Ministério da Saúde.

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