CPI ouve ex-diretor da Saúde acusado de pedir propina de US$ 1 por vacina

Roberto Dias, que foi exonerado do cargo de diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde, nega as acusações

Renato Barcellos, da CNN, em São Paulo
07 de julho de 2021 às 04:46 | Atualizado 07 de julho de 2021 às 06:53

A CPI da Pandemia ouve nesta quarta-feira (7), a partir das 9h, o ex-diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde Roberto Ferreira Dias.

O servidor foi exonerado na última quarta-feira (30) logo após surgirem suspeitas de que ele teria pedido propina para autorizar a compra da vacina AstraZeneca pelo governo federal. Roberto Dias, no entanto, nega as acusações.

A denúncia foi feita pelo policial militar de Minas Gerais Luiz Paulo Dominghetti ao jornal "Folha de S.Paulo" e reafirmada à CPI. Durante o depoimento, realizado na última quinta-feira (1º), Dominghetti -- que se apresenta como representante da empresa Davati Medical Supply -- disse ter recebido um pedido de propina para a compra de 400 milhões de doses do imunizante.

Ainda de acordo com o policial militar, o ex-diretor do Ministério da Saúde teria cobrado US$ 1 por dose.

A analista política da CNN Renata Agostini apurou que Dias procurou de forma insistente o representante oficial da Davati no Brasil para tratar do negócio ao menos três semanas antes de a empresa fazer oficialmente uma oferta para a venda de vacinas ao governo brasileiro.

Mensagens às quais a CNN teve acesso mostram que Dias começou a tentar contato com o representante oficial da Davati no Brasil, Cristiano Alberto Carvalho, no dia 3 de fevereiro. O movimento do então diretor de logística ocorreu, portanto, muito antes de a empresa enviar à pasta a proposta para a venda de 400 milhões de doses da vacina de Oxford. A Davati formalizou a oferta de vacinas no dia 26 de fevereiro, como mostram documentos obtidos pela reportagem.

O depoimento

A analista política da CNN Thais Arbex também apurou que o ex-diretor do Ministério da Saúde dirá à CPI da Pandemia que as compras de vacinas contra a Covid-19 foram centralizadas no então secretário-executivo da pasta Elcio Franco e que, a partir de uma determinação interna, ninguém, a não ser o número dois, tinha autonomia para negociar a aquisição de imunizantes contra a Covid-19.

Segundo relatos feitos à CNN, Dias apresentará aos senadores um ofício baixado em 29 de janeiro, em que Franco determinava a concentração das negociações. O documento foi revelado pelo jornal "O Estado de S.Paulo" em meados de junho.

A CNN apurou ainda que Dias, além de negar a conversa sobre a venda de vacinas e a cobrança de propina, também dirá aos senadores que desconfia ter sido vítima de uma armação.

O ex-servidor pretende também narrar detalhes do encontro com Dominghetti em um restaurante de Brasília. Ele dirá que o policial militar foi levado ao restaurante pelo coronel da reserva do Exército Marcelo Blanco, que havia trabalhado no Ministério da Saúde até 19 de janeiro, e que, além do próprio coronel, há uma outra testemunha.

Senadores também querem saber sobre a compra da Covaxin

Os requerimentos de convocação foram protocolados pelos senadores Humberto Costa (PT-PE) e Otto Alencar (PSD-BA).

Eles alegam que é necessário esclarecer se há o envolvimento de Roberto Dias na negociação do Ministério da Saúde para a obtenção das vacinas indianas Covaxin.

Segundo o senador petista, o ex-diretor do Ministério da Saúde assinou um "contrato bilionário" para a compra dos imunizantes. O caso está sendo investigado pela CPI.

“O contrato prevê a entrega de 20 milhões de doses, ao valor unitário de US$ 15, no valor total de R$ 1,614 bilhões. Considerada a vacina mais cara do Brasil, o contrato foi firmado com a empresa indiana Bharat Biotech, representada pela empresa brasileira Precisa Medicamentos”, argumenta Humberto Costa no requerimento.

Votação de novos requerimentos

Além do depoimento de Roberto Dias, consta na pauta da sessão desta quarta a apreciação de 60 requerimentos de convocação, de informação, de quebra de sigilos, de busca e apreensão, entre outros.

Os senadores pedem a quebra dos sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático do deputado estadual do Amazonas Fausto Junior (MDB) e do deputado federal Luis Miranda (DEM-DF). Ambos já prestaram depoimento à CPI.

Deve ser apreciado também o pedido de reconvocação do diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres, e a convocação do Ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Onyx Lorenzoni.

Os parlamentares vão avaliar ainda um pedido à Polícia Federal para a busca e apreensão de imagens do Brasília Shopping, Garvey Park Hotel e Restaurante Vasto, no dia 25 de fevereiro de 2021. 

Foi nesta data que Dominghetti afirma ter recebido o pedido de propina realizado por Roberto Dias. O policial militar ficou hospedado no Garvey Park Hotel e, segundo ele, se reuniu com o ex-diretor do Ministério da Saúde no Restaurante Vasto, que fica dentro do Brasília Shopping.