Análise Arko: Trabalhar menos enquanto o mundo produz mais
Discussão sobre redução da jornada de trabalho ignora décadas de estagnação, baixa eficiência e perda contínua de competitividade

Há um descompasso curioso entre o debate público brasileiro e a realidade econômica que ele finge enfrentar. Discute-se com entusiasmo a redução da jornada — escala 4x3, fim do 6x1, semana de quatro dias — como se o problema do trabalhador brasileiro fosse trabalhar demais. Não é. O problema é o que se produz por hora trabalhada, e nesse indicador o Brasil ocupa lugar pouco honroso no concerto das nações.
Os números são conhecidos por quem se dá ao trabalho de consultá-los. Segundo a Organização Internacional do Trabalho, o Brasil é o 94º país mais produtivo do mundo numa lista de 184. O trabalhador brasileiro produz, em média, 21,2 dólares por hora trabalhada, em paridade de poder de compra. Ficamos atrás de Uruguai, Chile, Argentina — e, num detalhe que merece reflexão, atrás também de Cuba. Não se trata de constrangimento estatístico passageiro. É a fotografia de três décadas de estagnação, de corporativismo extremo e falta de capital para investimento.
A comparação internacional torna o quadro mais nítido. O trabalhador alemão produz 93,81 dólares por hora; o francês, 88,15; o britânico, 78,05; o italiano, 77,09. O alemão entrega, em sessenta minutos, o equivalente a quase quatro horas e meia de trabalho brasileiro. No topo da hierarquia aparecem Irlanda, Noruega, Luxemburgo e Suíça, com produtividades que variam entre cinco e sete vezes a nossa. Países que, convém notar, discutem com seriedade a redução da jornada — mas o fazem do alto de patamares de produção que o Brasil não alcançou nem alcançará num horizonte próximo.
O caso asiático merece atenção particular porque desfaz mitos confortáveis. O Japão produz 56,26 dólares por hora, mais que o dobro do Brasil, ainda que seja o membro menos produtivo do G7. A China tem produtividade ligeiramente inferior à brasileira em termos absolutos, mas mais que dobrou seu indicador desde 2010. A Índia avançou quase 52% no mesmo período. Os Estados Unidos, partindo de patamar elevado, ainda assim cresceram 14,5%. A Alemanha, 16,2%. O Brasil, no mesmo intervalo, andou em círculos: entre 2012 e 2025, a produtividade brasileira cresceu apenas 8,3%. É o ritmo de um país que renunciou, sem o dizer, à ambição de prosperar.
O paradoxo do debate atual é que o mundo desenvolvido conquistou o direito a trabalhar menos porque começou a produzir mais e melhor. A redução da jornada nesses países foi consequência de ganhos sucessivos de produtividade, não causa. Os alemães, holandeses e dinamarqueses trabalham menos horas que os brasileiros porque cada hora trabalhada por eles vale, em produto, quatro ou cinco vezes mais. Inverter essa lógica — reduzir a jornada antes de elevar a produção por hora — é receita conhecida de empobrecimento. Não há cálculo econômico que sustente o contrário.
O que assistimos no Brasil, portanto, é populismo de manual. A proposta de redução da jornada chega ao Congresso vestida de modernidade social, mas opera segundo a lógica eleitoral mais antiga do país: distribuir benefícios aparentes hoje, deixar a conta para depois. É política do gesto, não da consequência. Beneficiários imediatos, dispersos no eleitorado, agradecerão nas urnas; custos diferidos, na forma de menor investimento, menor competitividade e crescimento mais lento, serão imputados a governos futuros ou à abstração conveniente do “sistema”. Trata-se, em última análise, de uma transferência intertemporal de custos políticos — operação na qual o presidencialismo brasileiro se especializou.
O custo dessa escolha é o silêncio sobre o que importa. Enquanto o debate consome energia em torno da jornada, a verdadeira agenda — infraestrutura logística, qualificação da mão de obra, ambiente de negócios, carga tributária, segurança jurídica — permanece intocada. A produtividade brasileira segue refém das mesmas patologias que a paralisam há trinta anos: predomínio rodoviário num país de dimensões continentais, sistema tributário labiríntico, educação que forma mal, informalidade que protege ineficiências, burocracia que onera tudo o que se move. Nenhum desses temas rende voto fácil. Nenhum se resolve em uma legislatura. Por isso mesmo, nenhum é tratado. Em tempo, no Congresso a preocupação predominante é binária: eleições e investigações criminais.
A história econômica do mundo desenvolvido nas últimas décadas é a história de uma escolha consciente pela produtividade, com a redução da jornada como recompensa tardia. A história brasileira recente é a história inversa: queremos a recompensa sem o esforço, o jantar sem a conta. O resultado dessa equação é previsível, e está escrito nos dados da OIT, da OCDE e do Conference Board para quem quiser ler. Continuaremos discutindo dias de folga enquanto outros discutem cadeias de valor. Continuaremos celebrando o emprego enquanto outros celebram o que cada emprego produz. E a produtividade brasileira, esse problema central de que ninguém quer falar, seguirá onde está — ignorada, persistente, e cada vez mais cara.
Enquanto o Brasil brinca de país escandinavo sem poder, mais de 200 empresas nacionais já se mudaram para o Paraguai. Em tempo, vale lembrar que a China - cuja produtividade é muito melhor que a nossa - a jornada é de 44 horas semanais que podem ser alocadas em 5 ou 6 dias na semana.
*Murillo de Aragão é advogado, jornalista e cientista político, CEO da Arko Advice Pesquisas e Análise Política e professor-adjunto da Universidade Columbia



