Banqueiros veem gesto de aliados de Bolsonaro para evitar isolamento do presidente
Pedido dos auxiliares do presidente para o encontro com a Febraban foi um sinal sobre a adesão da entidade à carta em defesa da democracia da Fiesp

Participantes do almoço da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) com o presidente Jair Bolsonaro viram o encontro desta segunda-feira (8) como um gesto importante do entorno político e econômico do mandatário do Palácio do Planalto a fim de evitar o isolamento de Bolsonaro não só com os banqueiros, mas com o mundo empresarial como um todo.
Segundo relatos de convidados à CNN, o pedido dos auxiliares do presidente para o encontro com a Febraban foi um claro sinal de que a adesão da entidade à carta em defesa da democracia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) “fez preço”.
Neste cenário, disseram os participantes, o almoço foi uma forma de Bolsonaro “distensionar” o ambiente.
À CNN, banqueiros disseram, em caráter reservado, que encontraram um Bolsonaro “abaixo do tom”. A avaliação é feita a despeito das críticas que o presidente dispensou, durante o almoço, à carta da Fiesp, chancelada pela Febraban. Bolsonaro disse que quem é "democrata não precisa assinar cartinha."
"Vou dizer a vocês que vocês têm que olhar na minha cara, ver as minhas ações e me julgar por aí. Assinar cartinha eu não vou assinar. Até pra carta. É mais do que política. Uma carta é um objetivo sério de voltar o país nas mãos daqueles que fizeram isso conosco", afirmou o presidente.
Segundo participantes do encontro, o entendimento de que Bolsonaro esteve num tom mais baixo diante dos banqueiros se deu, principalmente, por comparação. Convidados do almoço lembraram à CNN que o presidente chamou de “cara de pau”, “sem caráter” e “mamíferos” os signatários das cartas pela democracia —a da Fiesp e a da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.
Convidados do almoço chamaram atenção para o fato de que a fala de Bolsonaro foi precedida do discurso do presidente da Febraban, Isaac Sidney, que destacou, entre outros pontos, a disposição das instituições financeiras do país para o diálogo.
“Se não se mostrar possível a convergência de ideias e de visões, isso não será impeditivo para encontros como este, pois não faltará aos bancos disposição para o diálogo”, afirmou Sidney, no discurso a que a CNN teve acesso.
“Se porventura a diferença de opiniões levar o setor bancário a divergir, tenho a mais plena convicção de que não hesitaremos em buscar, por todos os meios, o diálogo institucional respeitoso.”
Ainda de acordo com Sidney, o Brasil precisa superar seus “enormes desafios” e “nenhum ator político ou nenhuma instituição, pública ou privada, tem condição de fazer algo isoladamente”.
Logo depois do encontro, o filho mais velho do presidente, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), foi às redes sociais celebrar a participação do pai na Febraban.
“Presidente Jair Bolsonaro aplaudido de pé agora na Febraban. E os aplausos foram por longo tempo. Ficou bem claro quem defende a democracia: Bolsonaro!”, escreveu.
Banqueiros ouvidos pela CNN disseram, no entanto, que a deferência foi dentro do respeito institucional.
“Nada efusivo”, disse um participante à CNN.
Juros do consignado
Um dos temas esperados pelos participantes do encontro era um apelo de Bolsonaro pela redução da taxa de juros de empréstimos consignados aos beneficiários do Auxílio Brasil. Não à toa, o presidente Febraban, Isaac Sidney, reservou parte de sua fala de abertura do almoço ao tema.
Segundo apurou a CNN, a intenção foi criar uma espécie de vacina ao que o presidente pretendia falar.
“Há uma visão equivocada de que os bancos gostam de juros altos porque lucram mais com juros elevados”, disse Sidney. “As taxas de juros precisam realmente ser mais baixas, mas isso não depende apenas da vontade dos bancos.”
“O que os bancos querem - e desejam - é a economia saudável, com inflação baixa e estável, que permita juros mais baratos, pois só assim o crédito será amplo e acessível a um número maior de famílias e empresas”, afirmou Sidney.
“Não desejamos regras e normas favoráveis ao setor: o que desejamos é maior previsibilidade com um horizonte que mitigue as incertezas e aumente a confiança dos agentes econômicos.”
Sidney disse ainda que o “ Brasil é o país que menos recupera garantias de crédito no mundo, e o que mais tempo demora para recuperar uma garantia”.
Para o presidente da Febraban, “além disso, o crédito no Brasil é muito tributado e o consumidor paga por isso. São esses custos, inadimplência e cunha fiscal, os que mais pesam nos empréstimos”.
A avaliação de participantes do encontro é a de que o recado foi entendido pelo presidente, tanto que no momento de falar sobre a taxa de juros, ele não citou especificamente o Auxílio Brasil, tampouco fez um discurso a ponto de constranger os banqueiros, segundo os convidados.
“Eu faço um apelo para vocês agora. Vai entrar o pessoal do BPC no empréstimo consignado. Isso é garantia, desconto em folha. Se vocês puderem reduzir o máximo possível, que ainda estamos no final da turbulência”, afirmou Bolsonaro.
O Benefício de Prestação Continuada (BPC) é um tipo de pensão pago a idosos acima de 65 anos e pessoas com deficiência de baixa renda. Atualmente, é pago a 4,8 milhões de pessoas.



