Bolsonaro cobra ‘humildade’ de Mandetta e prega jejum contra coronavírus

Presidente criticou medidas recomendadas por Ministério da Saúde: "Preço muito alto"

Leonardo Lellis

Da CNN, em São Paulo

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O presidente  Jair Bolsonaro, e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta

O presidente da República, Jair Bolsonaro, e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, em entrevista coletiva sobre evolução do coronavírus
Foto: Adriano Machado/Reuters (18.mar.2020)

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) explicitou nesta quinta-feira (2) suas discordâncias com o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, em relação às medidas de isolamento social que a pasta tem recomendado para prevenir o contágio pelo novo coronavírus. Bolsonaro pediu “humildade” a seu subordinado e que ele seja mais ouvido.

“O Mandetta já sabe que a gente está se bicando há algum tempo. Não pretendo demiti-lo durante a guerra. Em algum momento ele extrapolou. Ele montou o ministério de acordo com a sua vontade e espero que ele dê conta do recado”, afirmou o presidente em entrevista à rádio Jovem Pan. Bolsonaro acrescentou que, embora sua fala não represente nenhuma ameaça, nenhum ministro está imune a uma demissão.

Bolsonaro afirmou que o titular da Saúde teria que ouvir mais o presidente. “O Mandetta quer fazer muito a vontade dele. Pode ser que ele esteja certo, mas precisa de um pouco de humildade”, concluiu. Bolsonaro ainda relacionou as medidas tomadas pela pasta a uma “histeria” dentro do ministério e criticou suas orientações.

“O que aconteceu por parte de alguns profissionais do Ministério da Sáude é que aquele clima de histeria contagiou alguns lá. Já está no momento de todos botar o pé no chão: se destruir o vírus e também destruir os emrpegos, vai destruir o Brasil. Numa guerra a gente perde soldados. Aqui vai perder gente nessa luta contra o vírus. Se fizer dessa forma por orientação do ministério, o preço será muito alto. Eu peço ao Mandetta um pouco de humildade”, afirmou.

O presidente, entretanto, evitou adiantar qualquer medida que determine a abertura de estabelecimentos. “Eu estou esperando o povo pedir, mas tem gente em Brasília esperando eu tropeçar. Eu só posso quando o povo estiver ao meu lado”. Ele ainda fez um apelo de caráter religioso para combater a COVID-19: um dia de jejum. “Eu sou católico. Minhas esposa é evangélica. Estão pedindo um dia de jejum pra quem tem fé. Vamos com padres, pastores, pedir para que façam jejum. Será anunciado [o dia]”.

Durante a entrevista, Bolsonaro voltou a atacar os governadores do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), e de São Paulo, João Doria (PSDB), pelas medidas que restringem a circulação de pessoas — “estão de olho na minha cadeira”, afirmou. “Me parece que é mais prudente ir abrindo os comércios paulatinamente. Se eles estão fazendo isso pra sufocar o governo, o povo está vendo”.

Bolsonaro também distorceu novamente uma fala do secretário da OMS (Organização Mundial da Saúde), Tedros Adhanom; “Até o diretor da OMS disse que não podemos privar esses mais humildes de se movimentar, pois eles têm fome. Ele disse que cada país tem a sua realidade. E o país dele, a Etiópia, tem a sua realidade. Tem locais aqui no Brasil que é igual a Etiópia”, disse — na verdade, Tedros Adhanom cobrou que governos adotem medidas de proteção econômica aos mais vulneráveis.

O presidente também rebateu as críticas pela visita que fez a estabelecimentos comerciais na Ceilândia e em Taguatinga (DF) no último domingo, contrariando uma recomendação do próprio Ministério da Saúde para se evitar aglomerações. “Queria que todos os deputados e senadores fossem para as ruas de suas capitais. Se eu achar que devo ir pra Sobradinho [cidade satélite do DF], eu vou. A responsabilidade é minha. Eu que vou por a minha vida em risco.”

Na entrevista, Bolsonaro também argumentou ser inevitável que boa parte da população seja contaminada e, a partir daí, haveria imunização — estratégia contestada por especialistas. “O vírus vai chegar em muita gente. Enquanto não chegar em 70%, não vamos ficar livres dele.”

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