À CPI, ex-médico e paciente acusam Prevent de irregularidades em tratamentos

Operadora de saúde nega acusações realizadas por Walter Correa de Souza Neto e Tadeu Frederico Andrade em depoimento à CPI da Pandemia

Depoentes Tadeu Frederico e Walter Correia e suas advogadas na CPI da Pandemia
Depoentes Tadeu Frederico e Walter Correia e suas advogadas na CPI da Pandemia Foto: Pedro França/Agência Senado

Bia GurgelGiovanna GalvaniRafaela LaraDouglas Portoda CNN*

em Brasília e São Paulo

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Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia ouviu, nesta quinta-feira (7), Walter Correa de Souza Neto, ex-médico da Prevent Senior, e Tadeu Frederico Andrade, paciente da operadora de saúde. Ambos afirmaram que a empresa cometia irregularidades na prescrição de tratamentos contra a Covid-19.

Souza Neto afirmou que a Prevent Senior obrigava os profissionais a prescreverem o “kit Covid”, composto por medicamentos sem eficácia contra a Covid-19, a partir de março de 2020, no início da pandemia. Segundo o médico, a operadora de saúde fazia uma pressão velada para a prescrição dos medicamentos, declarando que a medida era necessária para manutenção de seus postos de trabalho.

“De fato, era obrigatório. Não havia autonomia médica. Nem em instituição militar havia uma hierarquia tão rígida como na Prevent. No ambiente todos tinham medo de contrariar os superiores”, disse.

O ex-médico da operadora de saúde ainda declarou que o médico Anthony Wong morreu por Covid-19 em janeiro deste ano. Souza Neto disse não ter atendido Wong, mas que teve acesso ao seu prontuário, e que sua declaração de óbito foi fraudada.

“A declaração de óbito de Antony Wong foi fraudada. Não tem a Covid lá. Ele morreu de Covid fazendo o tratamento precoce duas vezes e seria muito feio isso ficar claro, aí tentaram sustentar essa tese”, afirmou.

Já o paciente Tadeu Andrade declarou que, passou uma teleconsulta “de menos de dez minutos, e ao relatar os sintomas de febre e dor de cabeça, e recebeu um kit com hidroxicloroquina e ivermectina em sua residência. Entretanto, piorou e foi a um pronto-socorro, onde teve o diagnóstico de Covid-19 confirmado, com o agravante de “pneumonia bacteriana já avançada”.

Quando esteve internado com a doença em um dos hospitais da operadora, ele disse que foi submetido a medidas paliativas –que incluem a retirada do paciente da UTI e a suspensão de medicamentos e procedimentos médicos– sem a autorização da família. Seus parentes desconfiaram da operadora de saúde e contrataram um médico particular. Ao ameaçarem procurar a mídia para denunciar o caso, os médicos recuaram e continuaram o tratamento.

Procurada pela CNN, a Prevent Senior declarou que “refuta ter iniciado tratamento paliativo ao paciente Tadeu Frederico de Andrade sem autorização da família”. Ainda dizem que uma médica sugeriu, com a piora do paciente, a adoção de cuidados paliativos, conversando com uma de suas filhas em 30 de janeiro. No entanto, afirmam que não iniciaram pela recusa da família. “O paciente recebeu e continua recebendo todo o suporte necessário para superar a doença e sequelas”, continua.

Sobre o depoimento de Souza Neto, a empresa “nega e repudia as acusações infundadas levadas à CPI da Covid e à imprensa com base em mensagens editadas, truncadas ou tiradas de contexto”. “A Prevent está colaborando para que órgãos técnicos, como o Ministério Público e Polícia Civil, investiguem todas estas acusações para restabelecer a verdade dos fatos”, conclui (leia a íntegra das notas enviadas pela Prevent Senior abaixo).

Durante a sessão, a CPI convocou o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, a depor pela terceira vez, no dia 18 de outubro. A principal justificativa foi a mudança de pauta de última hora da Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS), que trataria do uso de medicamentos do “kit Covid” nesta quinta-feira. Os senadores suspeitam que tenha sido feito algum pedido para que os técnicos deixassem de avaliar a questão na data prevista.

Acompanhe os destaques da CPI

Ex-médico da Prevent Senior nega ter dado cloroquina aos próprios pais

Questionado pelo senador Luis Carlos Heinze (PP-RS) sobre ter receitado cloroquina aos próprios pais, o médico Walter Correa negou a informação e disse que, em determinado momento, chegou a pegar a medicação, mas nunca a entregou de fato.

O médico também negou ter acessado ou divulgado o prontuário de Anthony Wong, algo que o diretor-executivo da Prevent Senior, Pedro Batista Júnior, chegou a imputar a Walter.

Paciente diz ter recebido flutamina no hospital sem seu conhecimento

O paciente e beneficiário da Prevent Senior, Tadeu Frederico de Andrade. / Foto: Pedro França/Agência Senado

O depoente Tadeu Frederico afirmou à CPI que, além de ter recebido um kit com medicamentos como a cloroquina e azitromicina em casa antes de ser diagnosticado com a Covid-19, também foi medicado com flutamida no hospital. O medicamento também não tem eficácia contra a doença.

Ele declarou que a família não foi alertada e não assinou nenhum termo de consentimento sobre o uso do fármaco.

Anthony Wong morreu de Covid-19 e Prevent mentiu, diz médico

Segundo Souza Neto, o pediatra, toxicologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Anthony Wong, morreu em decorrência da Covid-19 em janeiro.

“Essa questão do prontuário [de Anthony Wong] é um caso interessante. Não tem como questionar, é covid. Não há dúvida. Dez entre dez médicos que avaliarem aquele prontuário vão [dizer] ‘morreu de covid’, disse o depoente.

O ex-médico da Prevent Senior afirmou que não atendeu Wong, mas teve acesso ao prontuário. “A declaração de óbito de Antony Wong foi fraudada. Não tem a Covid lá. Ele morreu de Covid fazendo o tratamento precoce duas vezes e seria muito feio isso ficar claro, aí tentaram sustentar essa tese”, declarou.

Segundo ele, essas supostas fraudes em documentos aconteciam para “sustentar a desinformação” sobre a Covid-19.

Durante depoimento à CPI, o diretor da Prevent Senior, Pedro Batista Júnior, se recusou a comentar o caso de Wong a pedido da família.

Anteriormente, ao abordar o que classificou como “falta de autonomia médica”, Souza Neto afirmou que uma das médicas da operadora, que ocupa cargo de direção, pediu a ele para retirar a máscara dentro do hospital.

“A falta de autonomia era tanta que mandavam a gente tirar a máscara. A Dra. Paola, que falou que era pra receitar o kit pra quem espirrasse, foi a mesma que me mandou tirar a máscara. Ela disse que se eu trabalhasse de máscara, eu assustaria os pacientes. Então, fui obrigado a tirar a máscara, mesmo ficando desprotegido”, disse.

Médicos que desobedeciam a Prevent sofriam represálias, diz Souza Neto

Souza Neto disse que os demais profissionais que se recusavam a prescrever o chamado “kit covid” sofriam represálias da Prevent Senior. O ex-médico da operadora de saúde afirma que também se recusou a dar a medicação aos seus pacientes e foi repreendido. Segundo ele, a Prevent Senior começou a prescrever o kit em março de 2020.

“Não me lembro exatamente, mas talvez em março do ano passado. De fato, era obrigatório. Não havia autonomia médica. Nem em instituição militar havia uma hierarquia tão rígida como na Prevent. No ambiente todos tinham medo de contrariar os superiores”, declarou.

Segundo o médico, a pressão pela prescrição “não era tão necessária”. “Era algo velado. Falavam pra prescrevermos pra manter nosso emprego”. Ele ainda afirmou que chegou a receitar os medicamentos sem comprovação científica para o tratamento da doença, mas avisa que se tratava de um “protocolo institucional” sem evidência científica.

“Eu fazia isso na Prevent, e avisava aos pacientes que aquilo era um protocolo institucional. E que não tinha evidencia cientifica. Depois de um tempo, com mais evidencias, falávamos inclusive pra não utilizarem todos os medicamentos do kit, só as vitaminas.”

Prevent determinou entrega de kit covid a todos; fui repreendido por não prescrever, diz médico

Souza Neto afirmou que a operadora de saúde determinou a entrega do chamado “kit covid”, conjunto de medicamentos comprovadamente sem eficácia para tratamento da Covid-19,

Segundo ele, quem se recusasse a prescrever o medicamento era repreendido. O médico afirmou que, às vezes, “acontecia do paciente ficar agressivo e querer a medicação de qualquer forma” em outros hospitais, ainda no início da pandemia. “Na Prevent Senior, isso não acontecia porque a determinação era entregar o kit a todos”.

Ele era médico plantonista da Prevent Senior, contratado em regime de Pessoa Jurídica (PJ). O profissional diz ter sido repreendido pela operadora de saúde ao não prescrever os medicamentos do “kit covid”.

“Com a pandemia, eu acabei me recusando a prescrever o kit covid e fui repreendido por isso.”

Paciente diz que recebeu tratamento paliativo da Prevent Senior sem autorização

Tadeu Andrade contou sua experiência de contaminação pelo coronavírus e posterior internação em um dos hospitais da Prevent Senior. Segundo ele, após passar por uma teleconsulta “de menos de dez minutos” e relatar febre e dor no corpo, recebeu um kit com hidroxicloroquina e ivermectina em sua casa.

No entanto, após piorar, foi até um pronto socorro, onde obteve o teste positivo para a Covid-19 e teve confirmada uma “pneumonia bacteriana já avançada”.

Já na unidade de saúde, os médicos entraram em contato com sua família para informá-los do início do tratamento paliativo – reservado a pacientes cujas chances de óbito são grandes.

“Felizmente, a minha filha não concordou, e horas depois essa dra. Daniela inseriu no meu prontuário os cuidados paliativos mesmo sem a autorização da família. Ela recomendou que não fosse mais feita hemodiálise, que eu não recebesse antibióticos e que não houvesse manobra de ressuscitação se preciso fosse”, contou.

“A doutora também escreveu: ‘em contato com a filha Maíra, a mesma entendeu e concorda’. E isso é mentira, minha família não concordou”, disse.

O paciente afirma que a família passou a desconfiar da Prevent Senior e contratou um médico particular para o acompanhamento. Após uma pressão de seus familiares e indicativos de que eles iriam procurar a mídia, ele diz que os médicos recuaram e seu tratamento foi continuado.

Ex-médico e paciente da Prevent Senior fazem considerações iniciais na CPI

Em suas falas iniciais à CPI, Souza Neto e Tadeu Andrade expuseram brevemente a intenção de prestarem depoimento no Senado.

“Quero esclarecer o que realmente ocorreu também em solidariedade às vítimas, que têm direito de saber de coisas que influenciaram as pessoas com informações erradas, induziram as pessoas o erro e contribuíram pra essas quase 600 mil mortes”, disse Souza Neto.

Já Tadeu Andrade declarou que sua família teria lutado “contra essa poderosa corporação chamada Prevent Senior” e agradeceu a “oportunidade de expulsar o sentimento angustiante que tenho de quase ter morrido desnecessariamente”.

Segundo ele, sua denúncia já foi feita também ao Ministério Público de São Paulo. “Fiquei 120 dias internado, fui intubado 2 vezes, fiz hemodiálise, traqueostomia, tive arritmia cardíaca e outras intercorrências. E hoje estou aqui vivo e com saúde. E sou um sobrevivente, graças a Deus”, disse.

CPI convoca Marcelo Queiroga para depor pela terceira vez

A CPI da Pandemia convocou, pela terceira vez, o ministro da Saúde Marcelo Queiroga para prestar depoimento no Senado.

A justificativa principal foi a mudança de pauta de última hora da Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS), que trataria do uso de medicamentos do “kit Covid” nesta quinta-feira (7).

Além disso, Queiroga ainda não respondeu questionamentos enviados pela comissão a respeito do cronograma de vacinação contra a Covid-19 previsto para 2022.

Senadores pedem explicações ao Conitec sobre mudança na pauta que trataria do “kit Covid”

Os senadores aprovaram um requerimento que pede que a Conitec, no prazo de 24h, entregue à CPI o parecer sobre o uso de medicamentos do “kit Covid” que seria votado hoje.

Segundo o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), o parecer “já está redigido e pronto pra análise”, mas foi retirado de pauta repentinamente.

Os senadores suspeitam que tenha sido feito algum pedido para que os técnicos deixassem de avaliar a questão na data prevista.

Randolfe Rodrigues cobra envio de respostas de Queiroga à CPI

Antes do início dos questionamentos aos depoentes, o vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), afirmou que a comissão não recebeu as respostas do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, a respeito da vacinação dos brasileiros no próximo ano.

“Foram questionamentos simples que não chegaram a CPI, embora a comissão tenha determinado o prazo de 48 horas. Já completaram 48h e o ministro não respondeu”, disse Randolfe.

O senador também defendeu que o ministro fosse convocado caso não respondesse. Ele também citou uma mudança de pauta em uma reunião da Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS) que trataria do uso de medicamentos do “kit Covid”.

Íntegra das notas da Prevent Senior sobre as declarações do médico e do paciente à CPI

“A Prevent Senior refuta ter iniciado tratamento paliativo ao paciente Tadeu Frederico de Andrade sem autorização da família. Já tornado público via imprensa, o prontuário do paciente é taxativo: uma médica sugeriu, dada a piora do paciente, a adoção de cuidados paliativos. Conversou com uma de suas filhas por volta de meio-dia do dia 30 de janeiro.

No entanto, ele não foi iniciado, por discordância da família, diferentemente do que o sr. Tadeu afirmou à CPI. Frise-se: a médica fez uma sugestão, não determinação. O paciente recebeu e continua recebendo todo o suporte necessário para superar a doença e sequelas.

O depoimento do médico Walter Correa Neto não trouxe fatos, apenas narrativas que faltam com a verdade. Mais uma vez, a Prevent Senior nega e repudia as acusações infundadas levadas à CPI da Covid e à imprensa com base em mensagens editadas, truncadas ou tiradas de contexto.

A denúncia mais grave é sugerir que os médicos da empresa optem pela adoção de cuidados paliativos para matar pacientes e economizar recursos, o que tanto os médicos quanto a direção da empresa veementemente contestam. A Prevent está colaborando para que órgãos técnicos, como o Ministério Público e Polícia Civil, investiguem todas estas acusações para restabelecer a verdade dos fatos.”

(Com informações de Carolina Figueiredo e Andre Rosa, da CNN e da Agência Senado)*

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