Em depoimento à CPI, Mandetta defende gestão na Saúde e faz críticas a Bolsonaro

Depoimento do ortopedista à comissão durou mais de sete horas; confira os destaques

Foto: Jefferson Rudy - 4.mai.2021/Agência Senado

Renato Barcellos, da CNN, em São Paulo

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O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta iniciou nesta terça-feira (4) as oitivas da CPI da Pandemia no Senado Federal. O depoimento do médico ortopedista durou mais de sete horas e contou com senadores que não fazem parte da comissão.

Durante as falas, Mandetta defendeu o trabalho feito por ele à frente do Ministério da Saúde, abordou temas como ciência e vacinas, e criticou algumas atitudes tomadas pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) no combate à pandemia no Brasil. 

Estava previsto para a sessão desta terça-feira o depoimento do também ex-ministro da Saúde Nelson Teich, que comandou a pasta por 29 dias. No entanto, o presidente da comissão, senador Omar Aziz (PSD-BA), decidiu transferir a oitiva de Teich para esta quarta-feira, às 10h.

Já o depoimento de Eduardo Pazuello, ministro que ficou mais tempo à frente da pasta durante a pandemia de Covid-19, foi remarcado para o próximo dia 19. Ele afirmou ter tido contato com pessoas suspeitas de terem contraído o vírus e pediu a alteração da data.

Veja a seguir os principais pontos do depoimento de Mandetta à CPI nesta terça-feira:

Falta de orientação sobre a pandemia

Luiz Henrique Mandetta, primeiro ministro da Saúde no governo de Jair Bolsonaro a enfrentar a pandemia do novo coronavírus, afirmou que não havia interesse por parte do governo federal de fazer uma campanha oficial de orientação sobre a doença.

“Aquelas entrevistas [diárias] só existiam porque não havia o normal quando se tem uma doença infecciosa: você ter uma campanha institucional, como foi [feito], por exemplo, com a Aids – havia uma campanha em que se falava como pega e orientava as pessoas a usarem preservativos”, disse Mandetta.

“Não havia como fazer uma campanha [sobre Covid-19], não queriam fazer uma campanha oficial. Então, havia necessidade de manter a questão das informações”, completou.

O ministro relatou ainda que foram feitos pedidos para que os comunicados emitidos pela pasta incluíssem, também, dados positivos como o número de curados e não apenas os números de casos e mortes – ele não detalhou quem foram os responsáveis por esses pedidos.

“Mas, realmente, havia um pedido: ‘coloque o número, por que não coloca dos curados, está colocando só número [negativo]’. Passamos a colocar, se é uma informação, colocamos informação positiva. Mas não havia essa iniciativa de comunicação”, completou.

Orientação paralela para alteração na bula da cloroquina

O ex-ministro disse acreditar que o presidente Bolsonaro foi orientado de forma paralela, ou seja, por pessoas de fora do Ministério da Saúde, em questões relacionadas com o combate à pandemia, incluindo a recomendação de uso da hidroxicloroquina.

“Eu testemunhei várias vezes reunião de ministro onde o filho do presidente, que é vereador no Rio de Janeiro, estava sentado atrás tomando notas. Eles tinham constantemente reuniões com grupos dentro da presidência”, declarou Mandetta, se referindo a Carlos Bolsonaro (Republicanos).

Ele relatou ter participado de uma reunião com outros membros do governo em que foi apresentado, por exemplo, um rascunho de decreto presidencial cujo objetivo seria alterar a bula da cloroquina para recomendar o uso do medicamento em pacientes com Covid-19 – apesar de não haver evidências científicas de sua eficácia.

“O ministro da Saúde é convocado pelo presidente para conversar, é chamado para prestar suas explicações. Estive dentro do Planalto quando fui informado que era para subir para o 3º andar porque tinha uma reunião de vários ministros e médicos que iam propor esse negócio de cloroquina – que nunca eu havia conhecido”, afirmou.

“Quer dizer, ele [presidente] tinha um assessoramento paralelo. Nesse dia, havia sobre a mesa, por exemplo, um papel não timbrando de um decreto presidencial para que fosse sugerido daquela reunião que se mudasse a bula da cloroquina na [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] Anvisa, colocando na bula a indicação para coronavírus”, continuou.

Mandetta afirmou que a ideia foi barrada pelo diretor-presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, que também participou do encontro – e que será ouvido pela CPI da pandemia na quinta-feira (6).

“O ministro Jorge Ramos falou que era só uma sugestão. Mas era uma sugestão de alguém. Alguém pensou, se deu ao trabalho de colocar aquilo no formato de decreto.”

Embora tenha dito Jorge Ramos, o médico se referia ao ex-ministro da Secretaria de Governo Luiz Eduardo Ramos.

Dessa forma, Mandetta disse aos senadores imaginar que o presidente construiu, por fora do ministério, “alguns aconselhamentos que o levaram para essas tomadas de decisão”. Ele ressaltou, porém, que não saberia nomear quem seriam essas pessoas ouvidas por Bolsonaro.

Ainda segundo o ex-ministro, durante a gestão dele foram feitos estudos e pesquisas para o uso do medicamento. No entanto, com a teoria do uso em larga escala, Mandetta disse que “nunca” recomendou que o uso da droga fosse adotada. Segundo ele, em uma “tentativa heróica”, recomendou o uso compassivo, mas, ainda conforme o ex-ministro, “não funcionou para nenhum caso”. 

O ortopedista também contou aos senadores que o pronunciamento em que o presidente classificou a Covid-19 como uma “gripezinha” foi uma surpresa a todos do ministério.

Tratamento precoce

O ortopedista afirmou que o MInistério da Saúde sob sua gestão sempre esteve ao lado da ciência, e disse que falar de tratamento precoce enquanto estava à frente da pasta seria criar um “kit ilusão”.

Mandetta relatou que perdeu amigos próximos devido à utilização de medicamentos como cloroquina e ivermectina. Ainda segundo ele, amigos também deixaram de vacinar os pais por conta do tratamento precoce. 

“É assim. É lavar as mãos, é usar máscara, é manter distância. Ainda não temos uma substância [que cure a Covid-19]. E lógico, cuidar. Cuidem. Não aglomerem. Esse é o principal, de tudo o que eu falei, eu acho que essa é a mensagem que, graças a Deus, onde eu vou, as pessoas falam: ‘eu escutei'”, afirmou.

Orientação a Bolsonaro e “impacto” das ações presidenciais

Mandetta também afirmou que alertou o presidente Jair Bolsonaro sobre a gravidade do vírus e disse que as ações do chefe do Executivo tiveram “impacto” no agravamento da pandemia.

“Tudo o que eu podia fazer em termos de orientar…’olha não vá por esse caminho, porque esse caminho é extremamente perigoso’, foi feito. Agora, ele [Bolsonaro] tinha outras pessoas que diziam: ‘Olha, isso que o ministro da Saúde está falando é errado, vá por esse caminho’. É uma decisão dele”, disse.

“Teve esse impacto, sim, porque houve uma ruptura. A medicina ficou completamente dividida, o conselho não consegue se pronunciar. O Brasil podia mais, o SUS podia mais. Poderíamos estar vacinando desde novembro do ano passado”, completou.

Vacinas e segunda onda

À comissão, o médico confirmou que já tinha a convicção de que doença infecciosa se enfrenta com vacina. No entanto, ele defendeu a sua atuação, afirmando que, durante a sua gestão, não existiam imunizantes contra a doença desenvolvidos.

“A porta de saída era a vacina, mas elas ainda estavam no momento de concepção de fórmula ou na fase 1. Em maio, depois de eu ter saído do ministério, é que a primeira vacina começa a ter a fase 2. Teria ido atrás como um prato de comida. A gente sabia que a saída era pela vacina.”

Mandetta disse ainda que não acha “inteligente” expor pessoas para contrair doenças acreditando em remédios e ressaltou que “a vacina tem mais possibilidades”.

Para o ex-ministro, se o Brasil tivesse comprado vacinas contra a Covid-19 em agosto, não haveria uma segunda onda.

“Essa segunda onda que estamos passando é o ápice desse tipo de decisão tóxica e equivocada. Se tivéssemos feito educação em saúde, promoção em saúde, que é feita pelos ídolos, pelos atletas, utilizar o que o país tem de melhor, acredito que teríamos tido menos casos. Se tivéssemos tido mais vacinas, essa segunda onda não teria acontecido”

Saída do Ministério da Saúde

Durante o depoimento, o ex-ministro afirmou que “sempre deixou claro” que não abandonaria o cargo. No entanto, segundo ele, após o presidente Jair Bolsonaro demiti-lo, o chefe do Executivo continuou com as mesmas práticas negacionistas.

“Agora, como cidadão, eu posso, sim, criticar, porque eu não vi, mesmo após eu ter saído, mesmo após eu ter visto negar uso de máscara, negar uso de higiene das mãos, negar compra de vacina, negar a questão da testagem, uma série de negações, negações, negações… Eu, como cidadão, hoje, 410 mil vidas me separam do presidente.”

Críticas a Paulo Guedes

Para Mandetta, o ministro da Economia, Paulo Guedes, é “desonesto intelectualmente” e “um homem pequeno para estar onde está”. O ex-ministro afirmou que, no momento em que o que mais ameaçava a economia era a saúde, Guedes se distanciou. 

“Se eu fosse da Economia, ia até o ministro e perguntava o que estava acontecendo para resolver. Houve um distanciamento dele”, disse.

Embora tenha criticado Paulo Guedes, Mandetta elogiou o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.

“Esse, sim, ligava, perguntava, mandava informações que captava no mercado, extremamente atencioso com coisas de economia e impacto nas coisas públicas. Ajudou muito. O da Economia não ajudou em nada.”

Rejeição a liderança técnica

O médico afirmou na CPI que desistiu de tentar se reeleger como deputado e aceitou chefiar a pasta desde que pudesse trabalhar com embasamento técnico. No entanto, segundo Mandetta, quando os trabalhos técnicos foram necessários, o governo federal desistiu de aplicá-los.

“O problema foi que, na hora que veio a necessidade do trabalho técnico, aí, naquele momento, não queriam mais o trabalho técnico. Aí é que está o equívoco. Eu não consigo entender. Chamou um ministro e disse a ele: ‘seja um ministro técnico, tenha uma equipe técnica’. Eu me assessorei com o que nós temos de melhor, se não são os melhores, são aqueles que mais tempo estão expostos a decisões duras em saúde”, afirmou.

Questionado pelo líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho, sobre o não financiamento de uma vacina brasileira, Mandetta afirmou que não teve a opção de fazer investimentos em imunizantes nacionais. Segundo o ex-ministro, havia conceitos e ideias, mas faltou parceria internacional. 

Ainda segundo o médico, seria “impensável” que o Brasil fosse comandado por um médico ou por um padre durante uma invasão militar. 

“Acho impensável um presidente de Banco Central ou ministro da Economia que não seja economista ou formado naquela área. Acho que isso foi um erro que a gente pagou. Agora, parece que pelo menos tem alguém ali com linguajar… Não tem muita experiência. Foi muito duro, foi virar muito as costas para tudo aquilo que as pessoas ficaram 10, 20, 30, 40, 50 anos estudando para não serem sequer ouvidas”, ressaltou.

Embora tenha criticado a nomeação de pessoas que não têm formação na área de saúde para chefiar a pasta, Mandetta elogiou a gestão de José Serra à frente do ministério. “Foi o ministro que mais impactou na história do Ministério da Saúde contemporâneo”, afirmou.

Ambulatórios pós-Covid

Mandetta argumentou que o Ministério da Saúde deveria se preocupar também com as sequelas deixadas pela doença. “Já está na hora de a gente fazer os ambulatórios pós-Covid em todo o território nacional para poder se reestruturar”, disse.

Lockdown

Segundo o ex-ministro, o Brasil não fez nenhum lockdown, apenas tomou medidas “depois do leite derramado”. Mandetta afirmou que o país sempre esteve um passo atrás do vírus e ressaltou que foram poucos os prefeitos e governadores que se preveniram. 

“A própria Araraquara que fez [lockdown], fez depois do leite derramado. Ou seja, fez depois que o sistema [de saúde] está sendo atacado pelo vírus. Não é que você faz porque você vai decidir, é o vírus que impõe. Esse vírus não negocia nada com ninguém.[…]Ele [vírus] está aí e vai pegar carona. É só dar mole para ele”, declarou.

(Com informações de Murillo Ferrari e Bia Gurgel)

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