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    Entenda em quatro pontos as acusações contra Zambelli no caso envolvendo hacker da Vaza Jato

    Polícia Federal (PF) cumpriu nesta quarta-feira (2) mandados de busca e apreensão contra a deputada expedidos pelo ministro do STF Alexandre de Moraes; também foi determinado afastamento de sigilo bancário

    Deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) a caminho de coletiva de imprensa após ser alvo de operação da Polícia Federal (PF), em 2 de agosto de 2023.
    Deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) a caminho de coletiva de imprensa após ser alvo de operação da Polícia Federal (PF), em 2 de agosto de 2023. MATEUS BONOMI/AGIF - AGÊNCIA DE FOTOGRAFIA/AGIF

    Léo Lopesda CNN

    São Paulo

    A Polícia Federal (PF) cumpriu, nesta quarta-feira (2), mandados de busca e apreensão contra a deputada federal Carla Zambelli (PL-SP), em uma operação que investiga invasões ao sistema do Poder Judiciário e a criação de documentos falsos.

    O mandado determinou a apreensão de armas, munições, computadores, tablets, celulares e o passaporte de Zambelli, por exemplo. Também foi determinado o afastamento de sigilo bancário da deputada no período entre junho do ano passado e de 2023.

    A operação foi autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. A decisão de Moraes foi assinada em 1º de agosto e estava em sigilo. Depois das diligências, o ministro tornou público o documento.

    O hacker Walter Delgatti Neto, conhecido pela “Vaza Jato” e a obtenção de mensagens de procuradores da Lava Jato, foi preso no âmbito da mesma operação.

    Entenda abaixo, em quatro pontos, a investigação e as acusações contra Zambelli

    1 – O foco da investigação

    A chamada Operação 3FA, da Polícia Federal (PF), teve como principal foco esclarecer uma invasão aos sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e a inserção de documentos e alvarás de soltura falsos no Banco Nacional de Mandados de Prisão (BNMP).

    Os crimes aconteceram entre os dias 4 e 6 de janeiro deste ano, quando foi inserido inicialmente um mandado de prisão contra o ministro Alexandre de Moraes e, em seguida, dez ordens de soltura favorecendo uma lista de pessoas presas por diversos motivos.

    O caso inicialmente tramitou na Justiça Federal, na 15ª Vara de Brasília, mas passou para a competência do STF após a suspeita de envolvimento de Zambelli, que tem foro privilegiado, e porque os fatos podem ter relação com o inquérito 4.781, que apura atos de 8 de janeiro e o uso de fake news contra o STF.

    2 – Como os crimes aconteceram

    • Segundo os investigadores, entre setembro e dezembro de 2022, o hacker Walter Delgatti Neto, a pedido da deputada Carla Zambelli, invadiu os sistemas do CNJ com o objetivo de expor vulnerabilidades dos sistemas do Judiciário como forma de desacreditar o sistema das urnas eletrônicas gerenciado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE);
    • Para o crime, os investigadores suspeitam que Delgatti recebeu valores em espécie em quantidade ainda não identificada. Também foram identificadas transferências via Pix no valor de R$ 13,5 mil. As transferências foram feitas por Renan Cesar Silva Goulart e Jean Hernani Guimarães Vilela, servidores ligados ao gabinete da deputada e de seu irmão, que é deputado estadual em São Paulo.
    • No dia 4 de janeiro de 2023, em Araraquara, supostamente a pedido de Zambelli, o hacker incluiu um mandado de prisão contra o ministro Alexandre de Moraes no BNMP após invadir os sistemas do CNJ.
    • Ainda no dia 4, a partir de local ainda não identificado e por uma pessoa não identificada, com o mesmo acesso utilizado por Delgatti, foram inseridos alvarás de soltura em favor de dez pessoas presas por diversos motivos. Em depoimento à PF, Delgatti apontou outro hacker, Thiago Eliezer Martins Santos, como o provável autor desta ação, mas não relacionou os alvarás de soltura à deputada Zambelli.

    3 – As acusações contra Zambelli

    Zambelli foi puxada para dentro da investigação no final de junho, quando, no dia 27, o hacker Walter Delgatti prestou depoimento à Polícia Federal (PF). Naquele momento, o caso ainda estava sob a competência da Justiça Federal em Brasília.

    No depoimento, Delgatti disse que a deputada Carla Zambelli se aproximou em setembro de 2022 porque queria que ele invadisse uma urna eletrônica ou qualquer sistema da Justiça brasileira para demonstrar a fragilidade do sistema eletrônico diante da aproximação das eleições gerais de outubro.

    Ele relatou que o pedido de Zambelli foi feito em um encontro em um posto de combustível na rodovia dos Bandeirantes, em São Paulo.

    “Walter Delgatti Neto aduziu que não obteve sucesso ao tentar invadir o sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) porque o código-fonte da urna eletrônica estaria hospedado em um computador offiline”, relata a decisão de Alexandre de Moraes que autorizou a operação desta quarta-feira (2).

    O hacker também disse à PF que Zambelli lhe pediu para obter conversas “comprometedoras” do ministro Alexandre de Moraes invadindo seu celular e e-mail, caso não conseguisse invadir a urna eletrônica.

    Zambelli teria dito ainda que, caso o hacker conseguisse invadir os sistemas, “teria emprego garantido, pois estaria salvando a democracia, o país, a liberdade”.

    O hacker ainda afirmou que foi a deputada a autora do mandado de prisão contra Moraes inserido ilegalmente no Banco Nacional, e que foi ela quem vazou para um veículo de imprensa “a minuta e o comprovante” do mandado.

    Os extratos da conta do hacker obtidos pela PF apontaram para ao menos R$ 13,5 mil recebidos nos meses posteriores e anteriores à invasão. R$ 10,5 mil enviados por Pix em três transferências por Renan Cesar Silva Goulart, e R$ 3 mil em uma única transferência de Jean Hernani Guimarães Vilella.

    Em seu depoimento, Delgatti declarou apenas ter recebido a transferência de R$ 3 mil e disse que o pagamento era para “ficar à disposição” da deputada.

    O hacker disse que chegou a se reunir com Zambelli e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), no Palácio do Alvorada, em agosto do ano passado. Delgatti diz que Bolsonaro o questionou se seria possível invadir uma urna eletrônica. No entanto, ele alega que apenas Zambelli teve envolvimento na invasão ao sistema do CNJ.

    4 – O que Zambelli e Delgatti alegam

    Na manhã desta quarta-feira (2), Zambelli foi ao Salão Verde da Câmara dos Deputados dar sua versão sobre os fatos investigados.

    Ela confirmou os pagamentos feitos para Walter Delgatti Neto, mas alegou que eles foram feitos por serviços prestados em seu site pessoal.

    “Os pagamentos que houve foram sempre relacionados ao site, para ele fazer melhorias no site, fazer firewall no site e ligar as minhas redes sociais ao site, que ele próprio disse que não conseguiu realizar essa tarefa. Inclusive, deveria ter tido até a devolução [do dinheiro]”, disse Zambelli.

    De acordo com a parlamentar, R$ 3 mil de sua cota para comunicação foram usados para fazer os pagamentos a Delgatti. O restante, que soma R$ 13,5 mil, “saiu de seu próprio bolso”.

    Ela também declarou que “não fraudaria as eleições para que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vencesse o pleito”.

    “Ele [Walter Delgatti] queria conhecer o presidente [Jair Bolsonaro] e o presidente quis perguntar para ele se as urnas eletrônicas eram confiáveis, ao que ele disse que não. Eu não fraudaria as eleições para o Lula ganhar, e nem seria tão barato assim”, afirmou Zambelli.

    Sobre o encontro com Bolsonaro, a deputada ainda disse: “A conversa foi privada, mas a pergunta que o presidente fez foi se as urnas eram confiáveis, e ele respondeu que nenhum sistema tecnológico é confiável. A partir dali não houve mais qualquer contato com o presidente Bolsonaro.”

    “Eu pagaria R$ 3 mil para me arriscar dessa forma para fazer uma brincadeira de mal gosto? Eu acho que não participaria de uma piada de mal gosto com o Alexandre de Moraes. Eu sei o que pode acontecer com um deputado que brinca com ministros do Supremo Tribunal Federal, haja visto o nosso amigo Daniel Silveira, que está preso em Bangu”, concluiu a parlamentar.

    Em entrevista à CNN, o advogado Ariovaldo Moreira, que representa Walter Delgatti Neto, manteve a versão dada pelo hacker no depoimento à PF de que a invasão ao sistema do CNJ foi feito a pedido de Zambelli.

    Segundo Moreira, não há negociação de delação premiada em andamento. Porém, afirmou que o cliente tem predisposição de colaborar com a Justiça para “trazer até as autoridades o que realmente aconteceu, quem são as pessoas envolvidas, qual é a participação dele e dessas outras pessoas”.

    Ele fez isso [invasão], e fez isso a mando de Carla Zambelli. Ele é réu confesso e vai responder pelo crime, tem ciência do que ele fez e quer colaborar com as investigações para que se chegue ao que realmente aconteceu”, pontuou.

    Questionado, Moreira não especificou quem seriam as outras pessoas envolvidas, destacando que Walter Delgatti pode dar novos depoimentos às autoridades nos próximos dias.

    CNN entrou em contato com o ex-presidente Jair Bolsonaro e aguarda retorno.

    Veja também: Em entrevista à CNN, Walter Delgatti disse que Lava Jato queria prender Gilmar Mendes e Toffoli