“Foi errado o que falei”; Arthur do Val se desculpa por conteúdo de áudios sobre ucranianas

Deputado estadual do Podemos, em São Paulo, falou ao desembarcar no Brasil, que enviou os áudios em um grupo privado

Arthur Do Val (Podemos- SP), também conhecido como Mamãe Falei
Arthur Do Val (Podemos- SP), também conhecido como Mamãe Falei Arthur Do Val (Podemos- SP)

Da CNN

São Paulo

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O deputado estadual Arthur do Val (Podemos-SP) — conhecido pelo canal de Youtube Mamãe Falei – se desculpou sobre o conteúdo dos áudios em que ele fala que as refugiadas ucranianas “são fáceis porque são pobres”.

Ele foi para a Ucrânia no início da semana para, segundo ele, “ver o que está acontecendo ‘in loco’”, durante a invasão do país pelas forças russas, lideradas pelo presidente Vladimir Putin.

Ao desembarcar no Brasil, voltando do país do Leste Europeu, em Cumbica, Guarulhos, o deputado falou com a imprensa sobre o conteúdo dos áudios.

“Foi errado o que falei, não é isso que eu penso. O que falei foi um erro num momento de empolgação. Pelo amor de Deus, gente, a impressão que está passando é que cheguei lá e tinha um monte de gente e falei ‘quem quer vir comigo aqui que eu vou comprar alguma coisa?’. Não é isso, nem poderia. Inclusive nos áudios, de modo jocoso, informal, falo que não tive tempo de fazer absolutamente nada. Nem tempo para tomar banho, estou há três dias sem banho”, disse do Val na entrevista.

Nas mensagens de áudio que o parlamentar admitiu serem suas, e enviadas em um grupo privado formado por amigos, ele diz que as refugiadas ucranianas “são fáceis porque são pobres”. “É inacreditável a facilidade. Essas ‘minas’ em São Paulo se você dá bom dia elas ‘iam’ cuspir na tua cara. E aqui elas são supersimpáticas, super gente boa. É inacreditável”, disse o pré-candidato.

Do Val afirmou na entrevista que os áudios passaram outra impressão sobre sua ida à Ucrânia.

“Fui para fazer uma coisa, mandei um áudio infeliz e a impressão que passou é que fui fazer outra coisa. Pessoas que quiserem me julgar pelo o que eu falei, acho que têm esse direito. Peço só que entendam os contextos. Uma coisa é o Arthur que foi lá fazer a missão que fez e saiu. Outra coisa é o Arthur que já tinha saído e mandou um áudio num grupo privado para os amigos dele de forma errada, descabida. Não foi na melhor das posturas, é nítido aquilo. Mas, como falei, é um áudio privado”, declarou o parlamentar.

Em nota, o presidente da Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de S. Paulo), Carlão Pignatari, chamou o conteúdo do áudio de “repugnante e inaceitável”.

“Não há mais palavras para repudiar a fala do deputado Arthur do Val com a severidade que merece. Repugnante e inaceitável. Minha solidariedade às ucranianas e a todas as mulheres. A Alesp rejeita em absoluto as opiniões pessoais desse parlamentar e irá investigar a conduta com o rigor e a seriedade que requer”, escreveu.

O MBL (Movimento Brasil Livre), grupo do qual Do Val é um dos líderes, publicou nota em suas redes sociais na qual repudia os áudios, mas diz que “tal fato, contudo, não invalida o objetivo da viagem, que se cumpriu ao arrecadarmos mais de R$ 250 mil para os refugiados ucranianos”. “Ainda assim, lamentamos o mal-estar que causamos às pessoas, especialmente mulheres, que se indignaram sinceramente com os áudios. A essas pessoas, nossos mais sinceros pedidos de desculpas”.

Entretanto, o MBL aproveitou a ocasião para criticar adversários políticos: “aos aproveitadores, lulistas e bolsonaristas, que viram nessa ocasião apenas um motivo para nos atacar, devemos reiterar que nada impedirá o MBL de continuar com seu trabalho em prol da terceira via, de uma alternativa aos projetos políticos criminosos do PT e de Bolsonaro.”

Viagem para Ucrânia

Do Val foi eleito deputado estadual em 2018 pelo DEM. Em 2020, foi candidato a prefeito de São Paulo pelo Patriota. O político se filiou ao Podemos em janeiro para ser pré-candidato ao governo de São Paulo. Ele foi acompanhado de Renan Santos, que é coordenador nacional do MBL.

Em um dos áudios em que ele aparece, o deputado fala das policiais que trabalham nas fronteiras da Ucrânia com outros países.

“Mano, eu ‘tô’ mal. ‘Tô’ mal, ‘tô’ mal. Eu passei agora… são quatro barreiras alfandegárias. São duas casinhas em cada país. Mano, eu juro para vocês. eu contei: foram 12 policiais deusas. Deusas, mas deusas, assim, que você casa e, assim, você faz tudo o que ela quiser. Eu ‘tô’ mal, cara. Assim, eu não tenho nem palavras ‘pra’ expressar. Quatro dessas eram ‘minas’, assim, que você, tipo… mano, nem sei o que dizer. Se ela cagasse, você limpa o c* dela com a língua. Assim que essa guerra passar eu vou voltar para cá”, acrescentou.

“Acabei de cruzar a fronteira a pé aqui da Ucrânia com a Eslováquia. Maluco, eu juro… eu, nunca, na minha vida… ó, eu tenho 35 anos. Eu nunca na minha vida, nunca, vi nada parecido assim em termos de ‘mina’ bonita. Assim, a fila das refugiadas, irmão, assim… imagina uma fila, sei lá, nem sei… to sem palavras. Uma fila de 200 metros ou mais. Só deusa, assim, só deusa. É sem noção, é inacreditável. É um bagulho assim fora de série. Se você pegar a fila da melhor balada do Brasil, a melhor, na melhor época do ano, não chega aos pés da fila dos refugiados aqui. Maluco, eu ‘tô’ mal, eu ‘tô’ triste, porque é inacreditável”, diz outra mensagem.

Ao chegar em sua casa, Do Val publicou um vídeo em seu perfil do Instagram, onde pede desculpas novamente pelo conteúdo do áudio e falou sobre sua pré-candidatura ao governo do Estado. “Se vou continuar pré-candidato? Não sei. Não quero atrapalhar terceira via, não quero atrapalhar meu partido, não quero atrapalhar ninguém. Se for melhor, retiro [minha pré-candidatura], não tem problema. Quero que me julguem pelo que fiz e não o que não fiz.”

 

Presidente do Podemos e Moro criticam

A deputada federal Renata Abreu, presidente nacional do Podemos, afirmou na sexta-feira (4) que seu partido irá abrir um “procedimento disciplinar interno” para apurar as supostas falas sexistas atribuídas ao deputado estadual Arthur do Val, que é pré-candidato ao governo de São Paulo pela legenda.

Em nota divulgada à imprensa, a presidente do partido disse que considera as falas como “gravíssimas e inaceitáveis”. “Não se resumem ao completo desrespeito à mulher, seja ucraniana ou de qualquer outro País, mas de violações profundas relacionadas a questões humanitárias, em um momento em que esse povo enfrenta os horrores da guerra.”

“O Podemos repudia com veemência as declarações e, com base nelas, instaura de imediato um procedimento disciplinar interno para apuração dos fatos. Até este momento o partido não havia conseguido contato com o deputado, que estava em voo”, acrescentou o texto divulgado pela deputada.

Pré-candidato ao Planalto pelo Podemos, o ex-juiz e ex-ministro da Justiça Sergio Moro (Podemos) criticou hoje a suposta fala proferida por Mamãe Falei.

“Lamento profundamente e repudio veementemente as graves declarações do deputado Arthur do Val divulgadas pela imprensa. O tratamento dispensado às mulheres ucranianas refugiadas e às policiais do país é inaceitável em qualquer contexto. As declarações são incompatíveis com qualquer homem público”, disse Moro.

“Tenho uma vida pautada pela correção e pelo respeito a todos —tanto no campo público quanto na vida privada. Portanto, jamais comungarei com visões preconceituosas, que podem inclusive ser configuradas como crime”, acrescentou o ex-juiz.

Ministra defende cassação

A ministra de Direitos Humanos, Damares Alves, defendeu a cassação de Do Val, pelas mensagens sobre as ucranianas. Damares afirmou ter sido “surpreendida com as absurdas falas” do parlamentar. “Um recado para você deputado: já desce no Brasil com sua carta de renúncia porque nós vamos pedir sua cassação e vamos tomar providências jurídicas com relação às suas frases”, disse em gravação de vídeo ao lado da secretária Nacional de Políticas para Mulheres, Cristiane Britto. A líder da pasta ainda afirmou que “os homens brasileiros não são assim” e pede que as ucranianas “recebam abraço do governo Bolsonaro”.

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