Impacto e realidade de empresas não foram ignorados, diz Hugo sobre 6x1

Presidente da Câmara afirmou que tanto trabalhadores quanto empreendedores e empresas foram ouvidos para construir o texto que reduz a jornada de trabalho no país

Aline Marcolino, colaboração para a CNN Brasil, Lorenzo Santiago, da CNN Brasil, Brasília

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), afirmou nesta sexta-feira (16) que o possível impacto econômico e a realidade de empresas não foram ignorados no debate e aprovação da proposta que acaba com a escala de trabalho 6x1. A PEC (Proposta de Emenda à Constituição) foi promulgada em sessão do Congresso Nacional nesta manhã.

"O resultado foi a elaboração de uma proposta madura, feita a partir de muito diálogo, permitindo ao país avançar sem perder de vista a realidade das empresas, dos trabalhadores e, especialmente, dos micro e pequenos negócios", declarou.

Segundo o presidente da Câmara, o reajuste para os MEIs (microempreendedores individuais) fazia parte do acordo com o governo para o avanço do fim da 6x1. Ele citou que cerca de 13 milhões de microempreendedores em todo o Brasil poderão ser beneficiados com as mudanças aprovadas para a categoria, incluindo o aumento do teto de R$ 80 mil para R$ 140 mil.

Na avaliação de Motta, o debate a respeito da jornada de trabalho não é apenas econômico, mas social. "Foi olhando para essa realidade que o Congresso Nacional decidiu enfrentar um debate que não era revisitado de forma estrutural desde a Constituição de 1988", afirmou.

"Essas mudanças reconhecem que o tempo, o esforço e a dedicação de cada brasileiro têm valor e que desenvolvimento só faz sentido quando melhora a vida das pessoas", disse Motta, também em referência à promulgação da aposentadoria especial de agentes de saúde realizada nesta sexta.

Fim da escala 6x1

Na noite de quarta-feira (14), o Senado aprovou da PEC em dois turnos em uma votação com enorme apoio, sendo que 75 parlamentares foram favoráveis e apenas um contrário. O texto já havia sido aceito pela Câmara dos Deputados em maio deste ano. A aprovação ocorreu depois de uma mudança de posicionamento por parte da oposição, que chegou a negociar um possível adiamento da análise após o segundo turno das eleições presidenciais.

Considerado um trunfo político para o governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) classificou o fim da escala 6x1 como uma conquista histórica dos trabalhadores. O chefe do Executivo, inclusive, participou da cerimônia no Congresso Nacional. O petista tem a redução da jornada de trabalho como uma de suas principais bandeiras para a disputa eleitoral e quer explorar a “foto” da consolidação da medida no Legislativo.

Pouco antes da votação no Senado, parlamentares da direita decidiram apoiar o fim da escala 6x1. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, anunciou ainda na terça-feira (13) que votaria a favor da proposta, mas manifestou preocupação com os custos da mudança para as empresas.

O senador participou da análise da PEC remotamente, enquanto cumpria agenda eleitoral em Porto Alegre, e votou favoravelmente ao fim da escala de trabalho da 6x1. No entanto, para a líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), a mudança de posição da oposição se tratou de um cálculo eleitoral.

Como o Senado manteve o texto aprovado pela Câmara anteriormente, a proposta não precisou retornar à análise dos deputados. Por se tratar de uma emenda constitucional, a medida não depende de sanção presidencial. Depois disso, o texto é publicado no Diário Oficial da União, e passam a contar os prazos de transição.

O que diz a PEC da 6x1

O texto reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, assegura dois dias de repouso semanal remunerado e impede a redução de salários. A garantia vale para os contratos já existentes e alcança também os pisos salariais das categorias.

A mudança não será imediata. A PEC prevê uma transição de 14 meses, contados a partir da publicação da emenda, em duas etapas:

  • dois meses após a publicação, a jornada cai para 42 horas semanais e os trabalhadores passam a ter direito a dois dias de descanso, sendo um deles preferencialmente aos domingos;
  • após mais 12 meses, a jornada chega às 40 horas semanais.

O limite de oito horas diárias é mantido, e o texto permite mecanismos de compensação de horários. As duas folgas não precisam ser consecutivas. Acordos ou convenções coletivas podem estabelecer regimes excepcionais, desde que garantam média de dois dias de descanso por semana ao longo do mês e ao menos uma folga a cada sete dias.

Cláusulas coletivas incompatíveis com as novas regras deixam de valer dois meses após a publicação.

Quem fica de fora da redução de jornada

A proposta prevê regras específicas para alguns grupos:

  • Salários mais altos: empregados com diploma de nível superior e remuneração a partir de duas vezes e meia o teto do RGPS (cerca de R$ 21 mil) ficam fora das regras de duração e controle de jornada, mas mantêm o direito ao repouso semanal. Esse ponto pode ser questionado no Supremo Tribunal Federal (STF), por criar distinção com base no diploma.
  • MEIs, micro e pequenas empresas: lei complementar poderá criar regras de transição mais brandas, condicionadas à manutenção dos empregos. Enquanto ela não existir, valem as mesmas regras para todos.
  • Contratos com o poder público: empresas que prestam serviços com mão de obra à Administração Pública terão até um ano para firmar aditivos de reequilíbrio econômico-financeiro.
    Bancários: funções com seis horas diárias, que somam 30 horas semanais, não devem ser afetadas pela redução para 40 horas.