Lula defende ataques do senador Otto Alencar a médica na CPI da Pandemia

Chamada de "aquela japonesa" pelo ex-presidente, Nise Yamaguchi processa comissão parlamentar e pede indenização de senadores por danos morais

Lula elogiou comentário de Otto Alencar na CPI da Pandemia
Lula elogiou comentário de Otto Alencar na CPI da Pandemia Eduardo Matysiak/Futura Press/Estadão Conteúdo

Lucas Rochada CNN

em São Paulo

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O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defendeu as declarações que o senador Otto Alencar (PSD) fez sobre a médica Nise Yamaguchi na CPI da Pandemia, no ano passado.

Durante evento de lançamento da pré-candidatura de Jerônimo Rodrigues (PT) ao governo da Bahia, na última quinta-feira (31), em Salvador, Lula elogiou Alencar e se referiu a Nise, que é brasileira, como “aquela médica japonesa”.

“Esse homem é um dos maiores exemplos de dignidade na comissão da CPI. O esculacho que ele deu naquela médica japonesa, que não sabia o que estava falando, deve ter enchido o povo da Bahia de orgulho. E eu tenho certeza, Otto, que você, outra vez, vai receber do povo da Bahia a consagração pra continuar honrando a Bahia no Senado Federal”, disse.

A CNN entrou em contato com a médica Nise Yamaguchi para ouvi-la a respeito dos comentários do ex-presidente Lula, mas não obteve retorno até o momento.

Depoimento de Nise à CPI

Durante o depoimento à CPI da Pandemia, em junho de 2021, Nise Yamaguchi foi questionada pelos senadores sobre a existência de um gabinete paralelo ao Ministério da Saúde, a mudança na bula de medicamentos e o uso comprovadamente ineficaz da cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19.

A sessão conturbada foi marcada por sucessivas interrupções dos senadores Renan Calheiros (MDB-AL), Omar Aziz (PSD-AM), Rogério Carvalho (PT-SE), Otto Alencar (PSD-BA) e Jorginho Mello (PL-SC).

Otto Alencar questionou o fato de a médica indicar um medicamento sem comprovação para o tratamento da doença e pediu exemplos de testes feitos para a comprovação da cloroquina, efeitos colaterais e o que a médica sabia sobre o coronavírus. Durante sua fala em resposta aos questionamentos, ela foi interrompida pelo senador.

“A senhora não soube explicar o que é o vírus”, disse Otto, que também é médico. “A senhora não sabe nada de infectologia, nem estudou, doutora. A senhora foi aleatória mesmo, superficial. O Covid-19 é da família dos betacoronavírus.”

Em determinado momento, Alencar perguntou à médica a diferença entre vírus e protozoário. Dias depois, Nise processou os senadores Omar Aziz e Otto Alencar pela condução do depoimento e pediu indenização por danos morais.

“Na grade curricular brasileira, os protozoários são estudados no 4° ano do estudo fundamental, fato este que por si só, demonstra a intenção de Otto Alencar em diminuir e humilhar publicamente Nise Yamaguchi, desprestigiando seu conhecimento científico”, apontou a defesa da médica.

No dia seguinte ao depoimento de Nise à CPI, o Conselho Federal de Medicina (CFM) divulgou uma moção de repúdio em que manifestava indignação com a “ausência de civilidade e respeito” na maneira como médicos foram tratados pelos senadores.

“O CFM e os 530 mil médicos repudiam veementemente os excessos e abusos no trato de parlamentares em relação aos depoentes e convidados”, afirmou a entidade em comunicado divulgado na época.

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