"Muito tempo sem falar português”, diz Zambelli em depoimento à Câmara

Deputada afirma que é vítima de perseguição política e que Moraes tem “obsessão” por ela

Anna Júlia Lopes e Fernanda Tavares, da CNN, Brasília e São Paulo
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A deputada federal licenciada Carla Zambelli (PL-SP) usou uma justificativa incomum para explicar falhas de memória durante seu depoimento à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados nesta quarta-feira (24): disse que está há muito tempo sem falar português.

Detida na Itália, onde aguarda decisão sobre pedido de extradição, Zambelli participou da sessão por videoconferência e afirmou que a falta de contato com o idioma tem dificultado sua lembrança de detalhes do processo que pode levar à cassação de seu mandato.

“Não tenho onde pesquisar. Então, tem coisas que eu não lembro. Não me lembro e não tive como pesquisar para poder te falar. Inclusive, muito tempo sem falar português, porque eu não tenho com quem falar português aqui”, disse.

Durante o depoimento, Zambelli também acusou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de perseguição política. Segundo ela, Moraes teria atuado para isolá-la completamente, atingindo inclusive sua família.

“Soube, por pessoas que trabalham perto dele, que ele queria me estrangular mesmo, no sentido de eu não ter nada, nem ninguém perto de mim. (…) Ele quis atingir toda a minha família.”

A deputada relatou o bloqueio das contas bancárias do marido, Aginaldo, e a suspensão das redes sociais do filho de 17 anos e da mãe. Emocionada, mostrou uma foto do filho durante a sessão.

“Tirar as redes sociais do meu filho, da minha mãe. Quando estou aqui na Itália, as despesas eram feitas pelo meu marido, e aí bloquearam todas as contas dele. (…) Não tem como não ser perseguição.”

Zambelli foi condenada pelo STF por envolvimento na invasão dos sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com auxílio do hacker Walter Delgatti. A acusação aponta tentativa de adulterar documentos oficiais, incluindo a emissão de um falso mandado de prisão contra Moraes.

Após a condenação, o Supremo enviou à Câmara o pedido de perda de mandato da parlamentar.

Ela negou ter financiado diretamente o Delgatti e disse que o hacker foi subcontratado por uma empresa de divulgação de mandato. Segundo Zambelli, o contrato previa pagamento de R$ 10 mil, mas apenas R$ 3 mil foram pagos porque o serviço não foi cumprido.

O processo na CCJ está sob relatoria do deputado Diego Garcia (Republicanos-PR). Antes de Zambelli, o colegiado já ouviu Delgatti e o perito Eduardo Tagliaferro, ex-assessor de Moraes no TSE.

Após o depoimento da deputada, o relator deve apresentar parecer, que será votado na comissão e, posteriormente, submetido ao plenário da Câmara.

Zambelli está licenciada do mandato desde que obteve autorização de 127 dias concedida pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).

Sua vaga é ocupada temporariamente pelo suplente Coronel Tadeu (PL-SP).