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    Política externa de Lula aposta em aproximação com vários países e defesa do meio ambiente

    Itamaraty tem missão de se engajar com América Latina e África, manter equilíbrio na disputa entre EUA e China e colocar a agenda climática no centro do debate internacional

    Luiz Inácio Lula da Silva (PT), presidente eleito
    Luiz Inácio Lula da Silva (PT), presidente eleito Marcelo Camargo/Agência Brasil

    Américo Martinsda CNN

    em Londres

    A política externa brasileira dará uma forte guinada no novo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

    Depois de anos enfrentando um razoável grau de isolamento durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), o Brasil promete voltar ao cenário mundial de forma assertiva e promovendo uma política de valorização do meio ambiente e da agenda climática.

    O novo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, já deixou claro que recebeu de Lula a missão de reconstruir pontes e abrir canais nas relações com praticamente todas as regiões do mundo.

    Um embaixador próximo a Vieira disse à CNN que o trabalho do chanceler será facilitado porque o governo Bolsonaro teria “virado as costas para o mundo” e adotado uma visão muito extrema nas relações internacionais, interrompendo o diálogo com muitas regiões – especialmente América Latina e África. O governo Bolsonaro nega esse isolamento.

    O ex-embaixador do Brasil em Washington e em Londres Rubens Barbosa concorda com a ideia de priorizar a América Latina.

    “O mundo está cada vez mais regionalizado, e a gente virou as costas para nossa região. O Brasil acabou ficando marginalizado pelos vizinhos e é correto dar prioridade a ela”, disse ele.

    O mesmo diplomata aliado a Vieira também afirmou que o Brasil vai voltar a fazer “diplomacia presidencial”.

    Isso quer dizer que Lula vai tentar se engajar pessoalmente nas mais importantes discussões globais, além de viajar para os mais diversos países.

    Nos seus dois primeiros mandatos, Lula fez 139 viagens diferentes a 84 países, além da Guiana Francesa, da Palestina e da Antártica.

    O presidente, aliás, já indicou que vai viajar desde o início de seu terceiro mandato. E até já indicou para onde vai no primeiro semestre: Estados Unidos, China e Argentina.

    O ex-embaixador do Brasil na China e conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), Marcos Caramuru, diz que o momento é bom para essa diplomacia presidencial.

    “O mundo inteiro está atrás de aliados. É importante dialogar com quem está aberto ao diálogo”, disse ele.

    Rubens Barbosa diz que a tradição do PT de defender o multilateralismo e ajudar pelo menos retoricamente os cubanos e palestinos deve voltar também.

    Rivalidade China e Estados Unidos

    Mas ele lembra que o cenário internacional que Lula vai enfrentar nesse novo mandato é muito diferente de 20 anos atrás, quando assumiu o Planalto pela primeira vez.

    O novo governo vai ter que lidar com pelo menos duas questões fundamentais logo de cara: a crescente rivalidade entre China e Estados Unidos, nossos dois maiores parceiros comerciais, e a questão do meio ambiente e das mudanças climáticas.

    No caso deste último tópico, Lula já deixou claro que pretende colocar a questão como central na política externa do seu governo.

    Durante sua viagem logo depois de eleito a Sharm el-Sheik, no Egito, para participar da COP-27, a Cúpula do Clima da ONU, Lula fez um discurso prometendo acabar com o desmatamento ilegal da Amazônia e proteger todos os biomas brasileiro.

    O discurso foi muito bem recebido, e o novo presidente mostrou entender que a Amazônia, em especial, é um grande ativo brasileiro também nas relações internacionais.

    Ele foi elogiado por vários líderes mundiais, inclusive o presidente da França, Emmanuel Macron, e o chanceler da Alemanha, Olaf Scholz – que podem visitar o Brasil logo no início do mandato de Lula.

    O ex-embaixador Caramuru, no entanto, lembra que essa aceitação inicial das promessas é a parte fácil.

    Segundo ele, é importante colocar a agenda da Amazônia e das mudanças climáticas no centro das relações exteriores, mas as “cobranças certamente virão depois”.

    Com relação à disputa entre China e Estados Unidos, quase todos os analistas da área são unânimes em afirmar que o Brasil vai tentar se manter neutro ao mesmo tempo em que tentará avançar no comércio e na política bilateral com cada um dos dois países.

    “Eu defendo que o Brasil deva adotar uma política pendular entre a China e os Estados Unidos”, diz Feliciano Guimarães, diretor acadêmico do Cebri e professor de relações internacionais da USP.

    Segundo ele, quando pressionado por um dos lados, o Brasil deveria se aproximar do outro e vice-versa, mas sempre mantendo um equilíbrio.