Relatório de comissão aponta que JK foi assassinado; nova versão é avaliada

Documento revisa eventos da morte de ex-presidente que, segundo a Comissão Nacional da Verdade, morreu devido a um acidente de carro em 1976; parlamentar era considerado perseguido político da ditadura militar

Gabriela Piva, Lucas Schroeder, da CNN Brasil, São Paulo
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A CEMDP (Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos) elaborou um relatório apontando que o ex-presidente da República, Juscelino Kubitschek, teria sido vítima de um assassinato — e não de um acidente envolvendo um Opala e um ônibus, que acarretou na morte do parlamentar e do motorista Geraldo Ribeiro, em 22 de agosto de 1976, na ditadura militar.

Agora, o documento revisa os eventos da morte de Juscelino e diz que, na verdade, ele foi assassinado. Detalhes da nova investigação, da relatora Maria Cecília Adão, não foram revelados. Segundo o ministério dos Direitos Humanos, o estudo está em processo de avaliação.

“As decisões sobre o reconhecimento ou não de desaparecidos políticos são votadas em reuniões da CEMDP e aprovadas por maioria simples, conforme previsto em seu regimento. Ressalta-se que o relatório em questão está em análise pelos membros e não foi votado até o momento”, diz nota da equipe do ministério dos Direitos Humanos enviada à CNN.

O contexto brasileiro da ditadura militar levou Juscelino a ser considerado perseguido pelo regime. Na época, Castello Branco cassou seus direitos políticos por cerca de dez anos.

Um dos motivos apontados se dava pela popularidade do ex-presidente, que era o favorito a assumir a chefia do Executivo em 1965 — aproximadamente, um ano depois do golpe.

À CNN, Maria Cecília encaminhou uma nota da CEMDP (leia na íntegra abaixo) explicando que "tem trabalhado de forma articulada com pesquisadores do tema a fim de oferecer um relatório sobre o caso tendo comunicado aos familiares que o caso estava em análise."

E completa: "Diante do extenso número de documentos para análise e da necessidade de dar conhecimento aos familiares sobre o conteúdo das apurações, deliberouse que a votação ocorreria depois do contato com as famílias."

Hipótese de assassinato de JK não pode ser ignorada, diz neta

Anna Christina Kubitschek, presidente do Memorial JK e neta de Juscelino Kubitschek, disse em comunicado que a hipótese de assassinato do avô não pode ser ignorada.

"A reabertura do debate sobre a morte de meu avô Juscelino representa um passo importante para a verdade histórica no Brasil", começou.

A neta ainda relembrou a notícia de morte do pai que recebeu uma semana antes do ocorrido. "Estava ao lado de minha mãe Márcia, no Rio de Janeiro, quando recebemos a notícia da morte de meu avô em um acidente automobilístico, o que, incrivelmente, ocorreria uma semana depois", relembrou.

Para ela, os elementos reunidos ao longo dos anos sobre as circunstâncias da morte de JK "indicam que o fato não pode ser analisado isoladamente do contexto político da época."

"Juscelino era uma das maiores lideranças civis do País, cassado pelo regime militar, perseguido politicamente e figura central da Frente Ampla em defesa da redemocratização. Em meio à repressão sistemática promovida na América do Sul, não é possível ignorar a hipótese de que ele tenha sido alvo de uma ação de Estado", completou.

Segundo a nota, é fundamental para a família de Juscelino que o Brasil "enfrente sua história com coragem e transparência". "Caso a CEMDP conclua oficialmente que JK foi vítima de um atentado político, será um reconhecimento histórico necessário — não apenas para sua memória, mas para todas as vítimas da violência do Estado", finalizou.

Versão oficial

JK morreu num acidente automobilístico no quilômetro 165 da Via Dutra — rodovia que liga São Paulo ao Rio de Janeiro — nas proximidades de Resende (RJ), em 22 de agosto de 1976.

Segundo a versão oficial da época, o Chevrolet Opala em que o ex-presidente viajava, conduzido por seu motorista, Geraldo Ribeiro, teria se envolvido em uma batida leve com um ônibus, o que fez o carro perder o controle.

Na sequência, o veículo teria invadido a pista contrária da rodovia e batido de frente com um caminhão que seguia em direção a São Paulo. JK e Geraldo morreram na hora. O motorista da carreta, Ademar Jahn, sobreviveu.

A Comissão Nacional da Verdade defendeu a mesma tese em 2014, mas outras organizações discordaram das investigações.

Comissões divergiram sobre o caso

Em dezembro de 2013, a Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog, da Câmara de São Paulo, chegou à conclusão de que JK e Geraldo Ribeiro foram vítimas de "conspiração, complô e atentado político".

Intitulado "Relatório JK", o documento elaborado pelo colegiado aponta que o motorista de Juscelino teria perdido o controle do Opala depois de ser atingido por um tiro na cabeça.

À comissão, o motorista do caminhão atingido pelo Chevrolet de JK relatou ter visto Geraldo Ribeiro "com a cabeça caída entre o volante e a porta do automóvel".

No entanto, em 2014, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) — instituída anos antes pela então presidente Dilma Rousseff (PT) — contrariou a tese defendida pela cogênere paulistana.

"Não há documentos, laudos e fotografias trazidos para a presente análise, qualquer elemento material que, sequer, sugira que o ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira e Geraldo Ribeiro tenham sido assassinados, vítimas de homicídio doloso", diz trecho do relatório da CNV.

A investigação conduzida pelos integrantes da comissão analisou, inclusive, um fragmento metálico encontrado no crânio de Geraldo Ribeiro durante exumação feita em 1996. Apesar disso, a apuração constatou que o vestígio correspondia a um cravo metálico utilizado para fixar o revestimento do caixão do motorista.

No início do ano passado, a história ganhou um novo capítulo quando o governo federal e a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) decidiram reabrir a investigação do episódio.

Leia a nota do ministério

“A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) foi instituída por meio da Lei 9.140/1995 com o objetivo de proceder ao reconhecimento de mortos e desaparecidos políticos e envidar esforços para a localização de corpos.

É composta por sete membros designados pelo Presidente da República dos seguintes órgãos e entidades: Ministério da Defesa, Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, MPF, pessoas com vínculo com os familiares de mortos e desaparecidos e representantes da sociedade civil.

Cabe ao MDHC dar suporte ao funcionamento da Comissão.

As decisões sobre o reconhecimento ou não de desaparecidos políticos são votadas em reuniões da CEMDP e aprovadas por maioria simples, conforme previsto em seu regimento.

Ressalta-se que o relatório em questão está em análise pelos membros e não foi votado até o momento.”

Nota CEMDP

"Frente à ampla repercussão quanto à possibilidade de reanálise do caso da morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) vem a público informar o que segue:

a) o pedido de reabertura da investigação do caso JK foi protocolado logo após a reinstalação da CEMDP, por solicitação encaminhada por Gilberto Natalini, expresidente da Comissão da Verdade Municipal de São Paulo, e Ivo Patarra;

b) o pedido foi pautado na 2ª Reunião Ordinária acima mencionada, realizada em novembro de 2024, tendo sido, na ocasião, distribuído à relatora Dra. Maria Cecília Adão;

c) desde então, a relatora tem trabalhado de forma articulada com pesquisadores do tema a fim de oferecer um relatório sobre o caso tendo comunicado aos familiares que o caso estava em análise;

d) o relatório foi apresentado na 7ª Reunião Ordinária da CEMDP que ocorreu no dia 01 de abril de 2026, para conhecimento e apreciação do colegiado;

e) diante do extenso número de documentos para análise e da necessidade de dar conhecimento aos familiares sobre o conteúdo das apurações, deliberouse que a votação ocorreria depois do contato com as famílias.

Reitera-se que o relatório baseia-se em elementos que já eram públicos, como os que foram coletados no âmbito do Inquérito do Ministério Público Federal nº 1.30.008.000307/2013-79. Os demais elementos, elaborados durante o trabalho da CEMDP, serão divulgados quando da conclusão da deliberação. Por fim, a CEMDP reforça seu compromisso com o diálogo permanente com as famílias de vítimas de violência de Estado, que têm sido e serão sempre protagonistas na busca por memória, verdade e justiça."