Saída de Doria coroa uma série de erros cometidos pelo PSDB

João Doria anunciou nesta segunda-feira (23) sua desistência em participar da corrida eleitoral

Fernando Molica, da CNN
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A renúncia forçada de João Doria e quase certeza de que o PSDB, pela primeira vez, não terá candidato à Presidência representam o desfecho de uma história que o partido começou a escrever em 2014, quando não aceitou a nova derrota para Dilma Rousseff (PT) e, como faria Jair Bolsonaro anos depois, tratou de lançar dúvidas infundadas sobre a urna eletrônica.

Na época, o tucanato ainda estava engasgado com o que classificava de erro histórico, o de não ter insistido no impechament de Lula que, em de 2005, começara a ser acossado pelo escândalo do Mensalão.

O PSDB chegou a participar de atos que pediam o afastamento do então presidente, mas preferiu apostar que o desgaste causado pelas acusações do então deputado Roberto Jefferson tiraria do petista a chance de reeleição.

Os tucanos não contavam que a capacidade de articulação política de Lula, o Bolsa Família e o crescimento econômico — em 2006, desemprego foi de 8,4%, a menor taxa desde 1997; e o PIB alcançou 3,7% — seriam capazes de curar boa parte das feridas causadas pelas denúncias. Lula acabaria reeleito em 2006 e conduziria Dilma ao Planalto em 2010 e em 2014.

Animados com a eclosão da Lava Jato e inconformados com a nova derrota, os tucanos resolveram partir para o ataque e mandaram às favas regras do bom-mocismo. Capitaneados por Aécio Neves, batido por Dilma, questionaram a lisura do processo eleitoral e, em seguida, pegaram carona nas manifestações que desde 2013 ocupavam as ruas.

Atuaram de forma efetiva para que os protestos — antes de objetivo indefinido — ganhassem um novo foco, o impeachment da presidente da República.

"Não cometeremos o mesmo erro de 2006", diziam, convencidos de que seriam os grandes beneficiários da derrocada petista. Foram proféticos — os erros seriam outros, e gerariam consequências graves para o partido e para a política brasileira.

Não atentaram que, assim como as CPIs, processos políticos são dinâmicos e têm consequências imprevisíveis — a revolta que ajudaram a alimentar acabaria não se restringindo ao PT, outras investigações mostrariam que a corrupção também deixara marcas importantes em governos tucanos. A maior parte da população não queria mais saber da dupla PT-PSDB, era contra tudo o que estava ali.

O PSDB que duvidou das urnas e estimulou o impeachment não contava que seria afogado na mesma onda que, incontrolável, arrastaria para o fundo toda a prática política tradicional.

Seu projeto de radicalização deu certo, tão certo que inviabilizou uma saída política tradicional, a eleição de Geraldo Alckmin. O caminho estava aberto para um radical de verdade, Jair Bolsonaro, que ainda seria premiado com o apoio de João Doria.

A partir de 2014, o PSDB rompeu com a lógica política que o levara duas vezes à Presidência e ao governo de vários estados — o Palácio dos Bandeirantes, uma espécie de feudo tucano, corre agora o risco de cair em outras mãos.

O partido que dizia representar a social-democracia brasileira virou apenas mais uma das agremiações sem rosto definido que compõem a política brasileira.

Seu agora ex-candidato à Presidência foi engolido pelo Bolsodoria que criou em 2018, os tucanos acabaram vítimas do ódio que ajudaram a alimentar. Ironia das ironias, o PSDB tende a apoiar na eleição de 2022 a candidata do MDB, partido contra o qual se rebelaram os tucanos-fundadores.