Eleições 2022

Tensão no ar

A democracia não pode ser uma palavra vaga para amplos setores da população

Boris Casoy, da CNN
Cartaz em protesto em São Paulo critica Supremo Tribunal Federal
Cartaz em protesto em São Paulo critica Supremo Tribunal Federal  • CNN Brasil
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As manifestações bolsonaristas do último domingo (1º) acabaram tensionando ainda mais o ambiente político, motivado pelo processo eleitoral. Embora o presidente da República tenha contido seus impulsos verbais, sua simples presença num dos atos teve o óbvio sentido de apoio às exacerbadas demonstrações contra o STF e a própria democracia. Para muito observadores, a retórica dos eventos foi apenas um movimento de inércia, alimentado pelas constantes falas de Bolsonaro.

Misturaram-se nas manifestações quase todas as variedades de incitamento antidemocrático. Sobraram evocação de 64, chamados aos militares e ataques ao Supremo. Mas um componente da gritaria preocupa ainda setores comprometidos com a Democracia. São os ataques às urnas eletrônicas, que sinalizam uma possível reação de Bolsonaro caso perca a eleição presidencial.. Supostos problemas técnicos com as urnas seriam pretexto para tentar caracterizar fraude eleitoral.

Nesse sentido, o jornalista Elio Gaspari sugeriu em sua coluna do último domingo que se aproveitasse uma provocativa sugestão do presidente da República para aprimorar a fiscalização das apuração dos votos. Bolsonaro sugeriu a instalação de um cabo ligando as Forças Armadas à alma da apuração, no TSE. Gaspari amplia o palpite, propondo a criação de uma sala paralela de acompanhamento da apuração, composta basicamente por figuras insuspeitas da sociedade civil. O jornalista esclarece que o tal cabo é apenas um acessório de caráter técnico.

Vozes isoladas tentam explicar esse fenômeno de desgaste do sistema democrático. É evidente tratar-se de um problema mundial cujas motivações são complexas. Mas pode-se falar em uma desconexão entre a população e as instituições. Executivos, Legislativos e Judiciários de todo o mundo não teriam assimilado as implicações sociais da evolução dos meios de comunicação. Políticos de todos os matizes continuam atuando nos velhos padrões, como se a internet não existisse. É vista apenas como mais um instrumento de propaganda eleitoral, quando na verdade tem provocado enormes impactos no modo de agir e pensar das populações.

Neste momento de preocupações, relembro encontro que tive em Israel com o depois primeiro-ministro e presidente Shimon Peres, já falecido. Para ele, a paz no Oriente Médio passava pela democracia. E acrescentava que jamais em tempos modernos duas democracias haviam guerreado entre si. Só por esse fato pode-se avaliar a preciosidade do sistema. Mas democracia não pode ser uma palavra vaga para amplos setores da população. Cabe às instituições fazer essa popalada conexão. Não com palavras, mas com fatos.